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amulherqueamalivros

Qua | 15.03.23

Não é sobre barcos

Cláudia Oliveira

Podem partilhar com quem quiserem e dizer, ela escreveu isto e é muito estranho.  

Não entreguei o barco para dar tempo que encontre a âncora. Para descobrir os faróis na escuridão. Não denunciei a falta de coletes salva-vidas, a negligência, para dar tempo ao tempo. Não pedi o dinheiro dos bilhetes para se recompor e tratar de comprar um lugar, um sofá, uma cama, um jardim. O cão.

Depois do barco ir ao fundo, a ideia é nadar até à praia. Subir ao ponto mais alto para perceber como se foi ali parar. Eu vi lugares bonitos do alto. Quem ficou a apanhar sol enquanto o barco afundou, pode continuar. Não fiz nada para estragar o que estava estragado. Só acenei do alto, enquanto estava perdida. Conduziram-me os seis faróis. Luzinhas pequenas aos saltinhos.

Não odeio o marinheiro, tentaram afogar-me. Eu salvei-me, está tudo bem. Só não entendo o ódio que tem de mim, não fui eu que meteu gente a mais no barco.  

Isto não é sobre barcos.