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LOUCA | CHLOÉ ESPOSITO

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Alvie é a irmã gémea da famosa e linda Beth. Uma é rica, atriz, com uma família perfeita, vive em Itália com o marido e filho. A outra é a protagonista deste livro, tem um emprego que detesta, não aspira a uma carreira brilhante e está longe de ser uma mulher de sucesso. É aquele género de pessoa que passa a vida a criticar tudo e todos. Usa e abusa do humor negro para as mais diversas situações. É invejosa, preguiçosa e tem uma série de defeitos que vamos conhecendo ao longo da história. Aliás, a sua única qualidade é ter um gosto literário de tirar o chapéu, preparem-se para identificar grandes clássicos.

 

Cada capítulo está relacionado com um pecado capital. São aprofundados um a um, com várias situações vividas pela nossa protagonista. Esta mulher tem tantos defeitos, mas tantos, que acaba por ser engraçada. O que eu ri com este livro, soltava gargalhadas atrás de gargalhadas. E sempre que penso em certas cenas tenho vontade de rir. 

 

O livro “Louca” é vendido como thriller, mas tem apenas 20% de thriller. Demora para começar a ação. São cerca de cem páginas até a Alvie ir para Itália, depois do convite insistente da irmã. Claro que tudo vai encaminhar-se para acontecer o que a autora define. Mas os pensamentos da Alvie são tão engraçados, tão odiosos, tão irritantes que essa parte acaba por ficar em terceiro plano e só queremos saber o que esta mulher é capaz de fazer pelo dinheiro e fama. Nunca vi tantas referências à cultura pop num único livro. Cristiano Ronaldo, Taylor Swift (a artista mais citada neste livro assim como a sua conta de Twitter) e muitos outros.

 

Num tom sarcástico, divertido e sem filtro esta história pode chocar os mais sensíveis. Com uma enorme dose de humor, pensamentos politicamente incorretos, asneiras, cenas de sexo este livro tem de ser lido com a mente bem aberta e descontração total.

 

Passei um fim de semana muito divertido com este livro. Quando não estava a ler estava a pensar nas pausas de leitura para terminar e conhecer o desfecho desta história hilariante. Termina com um final em aberto muito satisfatório, com algumas pontas soltas, para ficarmos à espera do próximo volume. A autora quis colocar tanta coisa que acabou por deixar certos pormenores de fora. Para quem não sabe, este livro é parte de uma trilogia, portanto teremos mais diversão.

 

Como thriller deixa a desejar. O crime que seria o ponto alto da história e o inicio de tudo, acaba por ser uma desilusão, afinal é apenas um acidente. Os momentos de tensão são muito escassos em relação aos momentos de comédia. Existem mortes, cenas de ação, fugas, máfia e contrabando, mas não consigo olhar para este livro como um thriller sufocante. Pelo contrário. Vai depender do que vocês consideram um bom thriller. 

 

Foi uma surpresa total, acredito que será para a maioria. Nota-se que a Chloé Esposito deu asas à imaginação, colocou tudo o que gosta num romance e não teve medo de ser ousada. Está de parabéns por isso! O livro estará disponível dia dois de fevereiro em todas as livrarias. Mas brevemente terei um passatempo nas redes sociais, estejam atentos. Podem ganhar um exemplar deste livro fantástico.

 

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18 ESCRITORAS PORTUGUESAS CONTEMPORÂNEAS

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Quem são as nossas poetisas, cronistas e romancistas? Quem são as portuguesas que precisamos ler? Esta seleção tem o intuito de dar a conhecer algumas escritoras portuguesas.

 

São dezoito portuguesas escolhidos entre vários. Espero que leiam, amem e partilhem mais a literatura portuguesa todos os dias. Alguns nomes figuram a lista das minhas escritoras preferidas. Vamos conhecer?

 

 

Patrícia Portela, vive entre Portugal e Bélgica. Com o romance Banquete foi finalista do Grande Prémio de Romance e novela APE em 2012. Foi a primeira autora a receber uma bolsa literária em Berlim do Instituto Camões em 2016.  É colaboradora do Jornal de Letras.

 

Raquel Nobre Guerra, nasceu em Lisboa. Licenciada em Filosofia. O seu primeiro livro de poesia foi galardoado com Prémio Primeira Obra do PEN Clube Português em 2012 (Groto sato).

 

Patrícia Reis, jornalista e escritora. Nasceu em Lisboa. Editora da Revista Egoísta, já passou pelo Semanário Independente, pela revista Sábado e fez um estágio na Time, em Nova Iorque.

 

Teolinda Gersão, nasceu em Coimbra. É professora universitária e escritora. Recebeu inúmeros prémio ao longo da sua carreira, com destaque para Prémio PEN Clube Português Novelística em 1982 e 1990. Prémio Fernando Namora em 2015.

 

Teresa Veiga, é o seu pseudónimo. Sabemos pouco sobre ela porque não revela a sua identidade. Nasceu em Lisboa. Recebeu em 2008 pela segunda vez o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.

 

Raquel Ribeiro, nasceu no Porto. É colaboradora regular no jornal Público. Viveu em Cuba e Inglaterra.

 

Hélia Correia, nasceu em Lisboa. Recebeu o Prémio Camões em 2015. Recebeu vários prémios pelas suas obras sendo um dos grandes nomes da literatura portuguesa.

 

Filipa Fonseca Silva, nasceu no Barreiro. Foi a primeira autora portuguesa a atingir o Top 100 da Amazon a nível mundial.

 

Ana Teresa Pereira, nasceu no Funchal. Ganhou o Prémio Caminho Policial em 1989. Já publicou inúmeras obras. Colaborou com os jornais Público e Diário de Notícias (Funchal). Em 2017 ganhou o Prémio Oceanos, sendo a primeira mulher a conquistar o prémio principal.

 

Tatiana Faia, uma jovem poetisa portuguesa. Foi recentemente editada pela Editora Tita da China. Vive em Lisboa.

 

Maria Teresa Horta, escritora, jornalista e poetisa portuguesa. Está ligada a movimentos feministas. É um dos nomes mais importantes da literatura portuguesa.

 

Isabela Figueiredo, nasceu em Maputo. Venceu o Prémio Literário Urbano Tavares Rodrigues. Foi jornalista no Diário de Notícias e é professora de Português.

 

Adília Lopes, poetisa, cronista e tradutora portuguesa. A sua obra já fi traduzida em várias línguas.

 

Dulce Maria Cardoso, nasceu em Trás os Montes. Recebeu o Prémio da União Europeia (2009) e o Prémio P.E.N. (2010)

 

Cláudia R. Sampaio, nasceu em Lisboa. É poetisa. Tem colaborado em várias revistas e antologias de poesia.

 

Raquel Gaspar Silva, nasceu em Évora. Publicou o seu primeiro romance em 2017. Licenciada em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

 

Ana Luísa Amaral, nasceu em 1956 em Lisboa. É poetisa, tem um doutoramento sobre a poesia de Emily Dickinson. Organizou o projeto “Cartas Portuguesas – edição comentada”.

 

Inês Pedrosa, nasceu em 1962 em Coimbra. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Foi diretora da Casa Fernando Pessoa entre 2008 e 2014. É autora de vários romances, recebeu inúmeros prémios pela sua obra.

 

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QUATRO PROJETOS GIRL POWER PARA ACOMPANHARES ESTE ANO

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Feminismo é um conjunto de movimentos com um único objetivo:  a igualdade de géneros, não é, nem está perto do conceito criado pela sociedade de colocar a mulher numa posição superior ao homem. O feminismo defende os direitos das mulheres e os seus interesses.

 

Através das lutas feministas conseguimos o direito ao voto, proteção contra a violência doméstica, direito ao aborto, direitos trabalhistas, licença de maternidade entre outros. Conseguem entender a importância? Infelizmente ainda precisamos de lutar contra várias discrepâncias como as diferenças nos salários, oportunidades profissionais e tratamento com base na igualdade de géneros.

 

Ao longo dos anos nasceram diversos projetos na blogoesfera de forma a divulgar o que é feito pelas mulheres em várias áreas. São projetos ligados ao cinema, música, clubes de leitura e literatura com o mesmo objetivo: empoderamento feminista.

 

Venho partilhar convosco quatro projetos para acompanharem este ano.

 

Clarices e Marias

Projeto jornalístico, cultural e literário. Pretende falar sobre mulheres famosas e desconhecidas. Foi criado por uma mulher que acredita que espaços como este são necessários e urgentes. Acompanhe em www.claricesemarias.com

 

Projeto Elas Por Elas

É um projeto literário colaborativo que deseja dar voz e visibilidade às mulheres. A autora Tamires Arsénio pretende aliar literatura, representatividade e empoderamento. Acompanha aqui: www.projetoelasporelas.com

 

Nós Madalenas

É um projeto fotográfico com 100 retratos em preto e branco com o intuito de promover a beleza reais e quebrar estereótipos implementados pela sociedade. As fotos estão no blog nosmadalenas.tumblr.com

 

Mais Mulheres Por Favor

A Alexandra promove com este projeto a literatura escrita por mulheres. Também enaltece a música, cinema e arte no geral criada por mulheres. Nasceu inspirado em dois livros ligados à temática do feminismo. No blog www.maismulheresporfavor.blogs.sapo.pt

*

 

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A VOZ DAS MARIAS E A MULHER NEGRA BRASILEIRA NA LITERATURA

 

 

 

 

 

Por Samantha Monteiro

Degrau de Letras

 

Devido ao seu histórico escravista e patriarcal, o Brasil ainda caminha no combate ao preconceito de cor e de gênero. No cotidiano, em pleno século XXI, é comum ver a luta dos oprimidos para ganhar voz e muitas vezes somos os responsáveis por não querer ouvi-las.

 

Maria Firmina dos Reis foi a primeira romancista brasileira de que se tem notícia, o jornal A Moderação de 1860 anunciava o lançamento de Úrsula, da professora maranhense em questão. O enredo de seu livro traz uma crítica à escravidão vigente na época e é considerado o primeiro livro a tratar das ideias abolicionistas. Maria Firmina inovou ao trazer personificação à figura dos escravos, que até então não eram representados como iguais, dotados de sentimentos e todas as complexidades da vida humana.

 

À frente de seu tempo, a escritora foi a primeira mulher a passar em um concurso público no Maranhão e criou uma escolinha mista para meninos e meninas, que escandalizou a sociedade na época. A educadora negra e registrada por um pai ilegítimo teve dificuldade para ser ouvida, ou por ser mulher ou por ter seus ideais tão diferentes da elite da época, ainda bem que alguns anos depois a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea (1888) abolindo a escravidão (me pergunto se a princesa chegou a ler Úrsula em seu período de desconstrução ideológica) e dando início a um movimento que tem repercussões até hoje.

 

A parte engraçada (ou não) disso tudo é que dessa época os nomes que ainda ressoam nos livros de Literatura estudados nas escolas preservam os nomes masculinos, mas onde fica o pioneirismo na luta de classes da Firmina?

 

Carolina Maria de Jesus publicou os seus diários mostrando as condições da mulher negra moradora da favela e suas dificuldades para sustentar seus filhos trabalhando como catadora de lixo. Num cenário onde haviam poucos alfabetizados, Carolina era vista com maus olhos por seus vizinhos pelo simples fato de ela saber ler e escrever. Ao ser publicada, os editores optaram por preservar seus erros ortográficos e não submeter os manuscritos à revisão, o que gerou grandes questionamentos do tipo: ver na autora uma negra que escreveu publicou um livro e não a figura de mais uma escritora que passa pela revisão como todos os outros.

 

Os sofrimentos do cotidiano de Carolina chocam por não ser o que a sociedade que tem condições de comprar um livro na livraria está acostumada a ver. Uso aqui esses termos pela frase óbvia, “é preciso sair da ilha para ver a ilha”. A autora demostrou com seus diários como é a vida de tantas e tantas mães solteiras da periferia.

 

A condição da mulher negra evoluiu desde Maria Firmina até Carolina Maria, a escrava que sonhava com a sua liberdade e a catadora que sonhava com a vida digna dos filhos não são diferentes, pois esses personagens representam muitas mulheres marginalizadas pela sociedade por ser mulher e por ser negra, como essas duas características tão naturais e tão sem sentido para segregação trazem um peso a mais em suas costas.

 

 

É claro que essas duas mulheres não são as únicas brasileiras a abordarem temas sociais, a exemplo temos Conceição Evaristo, que hoje é doutora em Literatura Comparada e uma das vozes mais influentes na Literatura brasileira contemporânea para falar sobre discriminação de gênero, de raça e de classe, mas teve que conciliar seus estudos ao trabalho de empregada doméstica para se sustentar durante esse período. As vozes estão gritando, basta pararmos para ouvi-las, para lê-las a fim de abrir nossos olhos para as questões humanas que nos rodeiam.

 

 

 

O livro Quarto de Despejo foi traduzido para 13 línguas, sendo referência para os estudos sociais e culturais brasileiros. Nenhum livro foi lançado em Portugal assim como nenhum da escritora Conceição Evaristo. 

 

Obras publicadas de Carolina Maria de Jesus são:

  • Quarto de Despejo (1960)
  • Casa de Alvenaria (1961)
  • Pedaços de Fome (1963)
  • Provérbios (1963)
  • Diário de Bitita (1982)
  • Meu Estranho Diário (1996)
  • Antologia Pessoal (1996)
  • Onde Estaes Felicidade (2014)

 

COLABORAÇÃO

 Samantha | Degrau de Letras

Nasci em 91 e desde sempre moro em uma cidadezinha no interior do nordeste brasileiro. Tento conciliar mil coisas ao mesmo tempo e uma delas é a casadinha leitura e escrita, uma paixão que me levou aos blogs. Atualmente mantenho o Degrau de Letras como um hobby e um veículo para me conectar com outras pessoas que também gostam de livros. Tenho interesse em temas sociais e políticos, sou a favor da causa animal, apaixonada por itens de papelaria, meu signo é café, e caminho para uma vida mais saudável.

 

Diante da oportunidade de falar sobre Literatura Brasileira no blog da Cláudia, vi um espaço propício para estudar e apresentar um pouco sobre esse tema que tanto me interessa.

 

O REINO DE FERAS | GIN PHILLIPS

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Não vamos ignorar esta capa maravilhosa. Preta e vermelha, com cavalos no carrossel, lembro-me imediatamente da música infantil que mais gosto. “Cavalinho cavalinho de papel, a correr trá lá lá, a saltar trá lá lá,…”. 

 

Uma mãe leva o seu filho de quatro anos ao Jardim Zoológico. Uma criança curiosa, inteligente e fã de super-heróis. Na hora do regresso a casa ela repara em corpos espalhados e num homem armado. Num súbito sentimento de proteção, inerente a todas as mães, volta para trás e escondem-se dentro das grandes folhas, como se estivessem numa selva. Não vou revelar o que se passa, é mais interessarem lerem e descobrirem. Nos tempos atuais é bastante possível acontecer. Infelizmente. 

 

O enredo desenvolve-se aliado a um sentimento claustrofóbico. O nervosismo miudinho instala-se, sentimos vontade de entrar na história e calar o miúdo tal é a tensão. Sem saber muito bem o que está a acontecer, ela envia mensagens ao marido e acede à internet para obter algumas respostas. É difícil manter a calma numa situação dessas, entre choro de outros bebés, perguntas insistentes do filho e perigo iminente. A ambientação do enredo é muito bem conseguida através da narrativa.

 

O que faríamos no lugar da mãe desta criança? Seriamos capaz de controlar os nervos e não sucumbir aos nervos? Até onde vai a coragem para proteger alguém? Como são sair desta situação?

 

A narrativa por vezes estende-se em descrições ou pensamentos que não acrescentam. Não há muita diversidade de acontecimentos dentro de um espaço tão limitado. Repete-se ligeiramente. Outra coisa que gostei menos foram as comparações escolhidas pela autora. Página 139, compara uma língua a um pénis, mas depois diz que a protagonista nem consegue ver bem. Tem alguns lances interessantes. Por exemplo, a história sobre o diabo e um relógio. Na forma como cada mulher olha para a maternidade. Qual é o momento perfeito para parar o relógio? 

 

O final em aberto para mim é o melhor deste livro. Gosto de finais deste género, mas normalmente estes finais são pouco consensuais. Deixou-me nervosa, irritada e comovida. Curiosa para ver as reações dos outros leitores. Não vão precisar de esperar muito, o livro sai já dia 2 de Janeiro, pela Suma de Letras. 

 

Sendo o primeiro romance de Gin Phillips, premiada com o Barnes and Noble Discover, publicada em mais de 29 países acho que temos uma promissora escritora dentro do género. Recomendo. 

 

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A EDUCAÇÃO DE ELEANOR | GAIL HONEYMAN

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Foi uma leitura irregular por conta da personalidade da Eleanor que deu conta da minha cabeça. Começa como uma espécie de romance banal ou uma comum história de amor. Fui apanhada na curva pela autora. Enganou-me muito bem. Levou-me pela mão para um lugar relativamente engraçado para me contar uma história dura e cruel. Conseguem sentir o impacto de tudo isso? Mas é um engano, apesar de difícil, bom.

 

O equilibro entre os momentos leves e os momentos pesados não foram do meu agrado. Preferia ter mais momentos pesados. Quando a Gail, a autora deste livro, coloca a emoção e a carga dramática na história deixa-me vidrada. Quando permite os dias bonitos, cheios de graça, com momentos muito similares à conhecida Bridget Jones, perde-me.

 

Conforme os dias passam maior é o impacto da Eleanor na minha vida. Ela é estranha, a estranheza tem encantado. O comum não me fascina. Eu caí no erro de julgar as suas atitudes como uma menina mimada, patética. Claro que não devemos julgar as pessoas de ânimo leve. Não fazemos a mínima ideia das lutas que travam das oito às cinco. Das histórias que guardam por trás das gargalhadas altas. Eleanor deu-me uma espécie de chapada sem mãos, com todas as letras.

 

A depressão pode estar presente e escondida, pode afetar todas as relações. Os sinais gritantes podem passar por dias maus. Solidão. Muita tristeza. Vozes na cabeça.  Dependência. Sei o que ouço por aí, presenciei ou li sobre o tema. Nunca tive depressão, nem estou confortável para escrever sobre a doença devido à falta de conhecimento. A perspetiva deste livro consegue ser angustiante e divertida.

 

Neste livro conhecemos a importância de pedir ajuda, de não julgarmos os outros, de encontrar as nossas próprias respostas e de nos perdoar. Uma grande dose de esperança e tristeza envolvida numa gargalhada e uma pitada de loucura. 

 

Definitivamente este livro daria uma excelente discussão devido às possíveis interpretações. A forma como a autora escolheu para fazer a revelação não foi a coerente com o resto da história. Foi uma espécie de vamos-encerrar-esta-historia-preciso-de-revelar-tudo. Já estava farta de roer as unhas com tanto mistério. Quando aconteceu foi muito rápido. Os próximos livros da Gail Honeyman prometem.

 

Gostei, recomendo, mas tirem da ideia que é um livro fofinho.

 

 

O LIVRO DE EMMA REYES | EMMA REYES

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Emma Reyes é o exemplo de alguém que não mostra rancor perante a sua vida cruel e miserável. Num tom cru, sem amargura, revela através de cartas para o amigo historiador Germán Arciniegas detalhes sobre a sua infância de emocionar qualquer um. Precisei de tempo para digerir tudo, respirar fundo. Senti revolta por ela, sendo tudo tão triste acabei por absorver essa carga durante a leitura. Vidas tão difíceis. Vidas tão miseráveis.

 

Num quarto com a sua irmã e o Menino, todos os dias de manhã precisa de despejar o penico. Cheio de fezes, carrega entre salpicos e agonia até ao depósito. Num lugar despido de móveis, luxos ou comida. A colombiana tem um olhar muito vincado sobre a sua história de menina pobre e ingénua. Sem amor, conforto, roupa e comida, passa pela miséria como quem vê a sua aldeia arder,  mas pensa ser o fogo de artificio mais bonito. O momento mais triste deste livro é tão intenso que ainda escuto os gritos de abandono. Emma pegou na tristeza e transformou em força.

 

Os adultos são sombras altas e pesadas. Indecifráveis. Mais tarde, num convento de freiras conhece o trabalho e os maus tratos. O lugar de amor está cheio de leis cruéis da fé.  Uma menina sem pais não pode ser recebida por Cristo, muito menos sonhar com um vestido branco ou ser freira. Neste convento é onde aprende a ler e a escrever e recebe pequenos gestos de carinho por parte de uma freira. Fui obrigada a questionar os valores da igreja católica perante duas meninas abandonadas. O relato é duro e sufocante. Ser espectadora destas injustiças é um tremendo desafio.

 

No final coloca-se a veracidade desta história após várias pesquisas e entrevistas. Ninguém sabe a verdade sobre a sua origem. Se por um lado temos a minuciosidade dos detalhes, por outro existem poucas provas. Eu acredito. Emma Reyes sempre fugiu da pergunta: quem era o teu pai? Já famosa e casada, sempre que recebia as visitas da irmã pedia para não ser incomodada e só voltava a dar noticias mais tarde. Ela conviveu com artistas conhecidos e teve uma vida muito diferente depois de ter fugido do convento. Verdadeira história de resiliência.

 

Recomendo muito. Este livro foi uma espécie de comboio desenfreado contra mim.

"A PAIXÃO SEGUNDO CONSTANÇA H." | MARIA TERESA HORTA

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Foi uma leitura intensa, entregue às emoções.

 

A história da Constança remexe os sentidos e permanece finalizada a leitura. A loucura assolapada da protagonista entranha-se gradualmente. Através de poemas, pedaços de diários e momentos narrados na terceira pessoa ficamos a conhecer a paixão da Constança por Henrique.

 

A descoberta da sexualidade, no espirito conservador da família. Constança desde cedo que é curiosa, procura respostas nos livros e observa atentamente o que desconhece. Demonstra uma personalidade forte, embrenhada em conflitos interiores.

 

Há uma inexistente ligação com a mãe que parece ter um desgosto relativo à personalidade desafiadora da filha. No hospício a mãe retira-lhe os poemas, alegando que a escrita é causadora pelos transtornos psicológicos. Inferniza, reprime, humilha.

 

"A mãe murmura às vezes quando me vem ver: "Ela está completamente louca", numa voz neutra, tal como agora são os seus cabelos, bem arranjados, as unhas rosadas perto do seu rosto rosado."

 

"... mas aqui longe, por escrito, tenho mais coragem para dizer o que penso, torna-se mais fácil enfrentar certas coisas que por hábito calo."

 

Surpresas trágicas unidas de erotismo são mergulhos absolutos na maravilhosa escrita de Maria Teresa Horta. Os mais atentos vão para além do que é dito, sentirão o peso da paixão na vida da Constança. O amor por um homem à frente do amor pelos filhos perturba e pode determinar os sentimentos do leitor em relação a esta mulher.

 

Constança é uma mulher apaixonante, louca e perturbada. Lê Clarice Lispector, Virgínia Woolf e Sylvia Plath. Escreve, expõe fragilidades. Vê na paixão nua e crua a única condição para viver. Foi surpreendentemente uma leitura visceral que deixou marcas. Fez-me enfrentar fantasmas do passado, entregar-me ao escuro da noite e ter pesadelos.

 

Recomendo muito. Quero ler tudo desta autora fantástica. Este livro foi lançado pela Bertrand, está à venda por apenas cinco euros.

 

(livro para o projeto Ler os Nossos)

 

 

"A CARNE" | ROSA MONTERO

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O contraste de duas pessoas perante o abandono e o amor. 

 

O gigolô Adam é contratado para fazer ciúmes ao ex marido de Solelad num evento de arte. De forma subtil acabar por invadir a vida desta mulher insegura. Durante o prazer e conversas fugidias as histórias entrelaçam-se num sofrido sentimento de solidão. A necessidade de amor ou uma simples companhia acaba por juntar este improvável casal . Solelad é uma mulher madura com extremas inseguranças em relação a si mesma. E na verdade, não é tão madura assim. Desde crises de meia idade a lutas com a razão ela transmite energias negativas durante todo o livro. A nível profissional é segura e muito disciplinada. Mas as aparências iludem. Os seus medos são extremamente expostos após o fim da sua relação, sobretudo com a vida bela das pessoas à sua volta. Ela tem 60, não tem filhos (nem quer), nem aparentemente uma vida amorosa dentro dos padrões.

 

Este livro foi uma experiência de leitura angustiante. Nunca senti simpatia pela Soledad, nem entendi as suas motivações. Também nunca a julguei, apesar das atitudes que demonstram um enorme desequilíbrio emocional. Nem o rumo que a autora decide dar à história me convenceram. O melhor deste livro são os apontamentos relativos aos escritores malditos que faz parte de um projeto da Soledad. Uma ideia absolutamente interessante que merecia todo o protagonismo.

 

Pensei muito no mundo injusto construído para julgar as mulheres. As mulheres que não querem ter filhos e ainda são muito criticadas. Não podem simplesmente dedicar a vida à carreira, nem estar sozinhas. São trocadas por mulheres mais novas por homens que não suportam a ideia de ficarem velhos. A carne marcada pela vida, atingida inevitavelmente pela idade pode transformar o rosto e não transformar a alma. A loucura presa a fantasmas e uma grave necessidade de amor. 

 

O desenvolvimento do casal pouco convencional deixa muito a desejar. Com cenas incoerentes, parecidas com um argumento de uma comédia romantica fiquei um bocadinho desiludida depois de tantos elogios à escritora espanhola Rosa Montero. No entanto, não vou desistir dela. Apesar das personagenas gostei das reflexões consequentes desta história e fiquei imersa na leitura. Nada é bonito neste livro, nem é para ser. A verdade pode provocar repulsa. 

 

Não foi o livro certo para começar a ler Rosa Montero. Tenho ainda na estante "Instruções para salvar o Mundo", editado também pela Porto Editora.

 

(livro cedido pela editora)

"MENINA BOA, MENINA MÁ" | ALI LAND

 

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Ficava ansiosa sempre que pousava o livro e esperava pela próxima pausa para continuar a leitura. Devorei o livro até à última página antes de adormecer e ainda tive direito a pesadelos com as personagens. Já não acontecia há algum tempo com um thriller psicológico.

 

Milly tem quinze anos quando se vê obrigada a denunciar a sua mãe à policia. A mãe dela é uma assassina, mata crianças, obriga-a a assistir e limpar as provas depois do crime. A mãe dela usa o seu cargo numa instituição para mulheres contra a violência doméstica para atrair as vitimas. Mulheres vulneráveis que recorrem a estas instituições para se salvarem. No entanto, com a mãe da Milly por perto é exatamente o contrário o que acontece. Ela fecha as vítimas num quarto chamado de “parque infantil” para as matar. Depois da denuncia a Milly é levava para a casa de uma família de acolhimento. Precisa de lidar com tudo enquanto tenta manter o discernimento e alguma calma.

 

Ali Land trabalha com doentes mentais há vários anos, o que faz com que tenha bases para dar credibilidade ao enredo. É profundo e perturbador com uma narrativa fluida e fragmentada em alguns momentos. A história é desenvolvida através da Milly, uma adolescente bastante traumatizada. As emoções são verossímeis assim como as dúvidas em relação a si mesma. Acreditei nas emoções da Milly, arrepiei-me várias vezes.

 

Ter uma mãe como assassina em série transforma-a numa pessoa má? Como se sente em relação à acusação e ao julgamento? Como lida com os comentários dos outros? Como é ter uma família nova? Como é o regresso à escola? Como é ser testemunha do julgamento da própria mãe?

 

Adorei este livro. Perturbador e envolvente. Algumas vezes pensei que não ia conseguir terminar. A temática é bastante forte, pode chocar os mais sensíveis. Pessoalmente adoro ser chocada e ter contato com realidades absurdas. Este livro é um bom exemplo do que é para mim é um bom thriller psicológico. A única ressalva é a falta de explicação para algumas situações que apesar de ter sido feitas não me convenceram totalmente. Senti necessidade de mais informações. 

 

Super recomendo. Está no top da lista de preferidos deste ano quanto ao género.

 

(livro cedido pela Suma de Letras)

 

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