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amulherqueamalivros

Sex | 06.07.18

ALÇAPÃO | JOÃO LEAL

Cláudia Oliveira

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Data: 2011

Editora: Quetzal 

 

 

Sinopse

Quando Rodrigo chega a S. João, percebe que vai ter de crescer depressa se quiser sobreviver ao violento código que rege a vida dos órfãos. A aparição de um novo e pouco ortodoxo padre traz-lhe uma visão de esperança que promete mudar tudo. Mas uma maldição familiar emerge do passado. Uma série de assassínios brutais vai arrastá-lo, a ele e a Jorge, o seu único amigo, para um lugar sobrenatural escondido atrás de um misterioso alçapão.

Há séculos à deriva, os habitantes de Lothar, a ilha flutuante, pensam que são os únicos sobreviventes do Grande Dilúvio. No centro da ilha, numa árvore gigantesca, vive um anjo caído que é o seu deus. Um acontecimento, contudo, vai agitar o quotidiano e levar a que dois deles decidam partir.

João Leal, nesta sua homenagem plena de imaginação às histórias de aventuras, faz com que as duas narrativas, tão distantes no tempo, se encontrem num momento decisivo para a história da humanidade.

 

Opinião

Se leram a sinopse percebem que têm uma sinopse um bocadinho invulgar. O livro está dividido em duas partes. A primeira é uma narrativa muito crua, até dolorosa, entre violência e maus tratos entre crianças que estão numa espécie de sobrevivência dentro do colégio de São João. 

 

Logo nas primeiras páginas o momento descrito fez-me chorar. Estou mais sensível, mas juro que começa de uma forma que despedaça o coração de qualquer um. E aqui, o autor faz referência à violência doméstica e a tantas famílias disfuncionais neste país. Outros temas, como a divindade, a música, a fé, a solidão, os laços familiares são colocados de forma muito subtil. Quase não damos por eles, mas estão lá.  

 

O autor escreve de forma tão envolvente que uma pessoa não consegue parar. Queremos saber o que vai acontecer ao Rodrigo e descobrir em que tipo de adulto se vai transformar. E mais uma vez, surpresa, o autor dá a volta a tudo. O inesperado é realmente a palavra certa para descrever esta história. Ora estamos a ler um romance sobre um miúdo perdido, como logo de seguida estão num thriller entre mortes e investigação. Mas o melhor ainda está por vir. A segunda parte é tudo o que menos esperamos. E se a maioria não gostou muito da segunda parte, eu achei de uma criatividade abismal e só consegui fechar a boca de espanto mesmo no final quando as duas narrativas se ligam. 

 

Bem, fica o aviso, este livro nunca será nada do que estás à espera mesmo quando estás à espera que seja um livro muito louco. Está a um preço absurdo de bom (5€). Tenho mesmo pena que autores como João Leal não tenham mais reconhecimento e popularidade dentro dos leitores, mas aqui fica a minha parte na sua divulgação. Obrigada ao Hugo que me dá sempre dicas fantásticas, não falha. 

 

Recomendo muito.

Qua | 04.07.18

A MORTE | MARIA FILOMENA MÓNICA

Cláudia Oliveira

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Data: Julho, 2011

Editora: Fundação Francisco Manuel dos Santos

 

Sinopse

É provável que eu morra nos próximos dez, quinze anos. Tenho filhos e netos, amei e fui amada, escrevi livros, ouvi música e viajei. Poderia dar-me por satisfeita, o que não me faz encarar a morte com placidez. Se amanhã um médico me disser que sofro de uma doença incurável, terei um ataque de coração, o que, convenhamos, resolveria o problema. Mas, se isso não acontecer, quero ter a lei do meu lado. Gostaria que o debate sobre as questões aqui abordadas, o testamento vital, o suicídio assistido e a eutanásia, decorresse num clima sereno. Mas teremos de aceitar a discussão com todos os opositores, mesmo com aqueles que, por serem fanáticos, mais repulsa nos causam. Que ninguém se iluda: a análise destes problemas é urgente.

 

Opinião

"Em 1968, um grupo de peritos reuniu-se na Faculdade de medicina de Harvard para repensar no conceito  morte. Com base no critério de ser o cérebro o órgão que define uma pessoa, passou-se a declarar morto qualquer individuo que evidenciasse sinais de paragem cerebral. A decisão foi pacifica, uma vez que a Igreja Católica não se opôs à definição. "

 

O tema é pesado, mas a escritora consegue colocar uma leveza e aquela sensação descomplicada em relação ao assunto. Pensava que ia ficar com um peso enorme nas costas depois de ler este livro, mas pelo contrário. É retratado de forma muito sensível e fez-me refletir bastante sobre as mortes ingratas e tristes nos hospitais portugueses. Parece que a taxa de mortes em hospitais aumentou significativamente ao longo dos anos. 

 

Neste livro, a autora fala na primeira vez que teve contacto com a palavra morte. Acho que também aconteceu o mesmo comigo. Na catequese ou na disciplina Religião e Moral, falam bastante no inferno e no céu como duas opções para a morte. Lembro-me de questionar bastante a professora sobre este assunto e nunca aceitar as palavras como certezas absolutas. Assim como a autora deste livro. Mais tarde, Maria Filomena Mónica é confrontada com a doença de Alzheimer da mãe e a sua morte. Tudo o que ela escreve é de uma sinceridade incrível e alguma comoção. 

 

"...o que sentia não era tristeza, mas alívio. Isto pode parecer - e é-o - difícil de admitir, mas é o que sucede a quem tem pais com doenças psíquicas prolongadas. Os onze anos, em que assistira a uma mente brilhante deteriorando-se, haviam-me conduzido ao desespero."

 

A forma como a sociedade lida com a morte tem vindo a mudar bastante. Os rituais mudaram, assim como a maneira como falamos na morte. Através de várias referências literárias e casos reais somos levados a questionar sobre a eutanásia. Também nos é dado factos sobre a forma como o Estado trata o envelhecimento prolongado.

 

De todas as histórias relatadas neste livro, a mais marcante é a história de amor de dois velhinhos que ocorreu em 2011. Ela com 89 anos, ele com 85. É caso para dizer, "felizes para sempre, até que a morte os separe". Muito comovente. E mais uma vez levamos uma chapada da realidade. 

 

Recomendo muito este livro. É sem dúvida uma leitura completa, que nos vira do avesso e nos mete a refletir sobre a eutanásia, morte, e consequentemente, vida. Escrito de forma bastante acessível e envolvente. Não deixem de ler esta pechincha de livro (custou-me menos de 3,50€) pertencente à editora Fundação Francisco Manuel dos Santos. Tem títulos fabulosos que não me canso de recomendar. 

 

Outro livro sobre o tema, é o romance de Tolstoi, A Morte de Ivan Ilyich. Referido neste ensaio, li há uns anos e foi uma leitura absolutamente marcante. Também recomendo.

 

Saio desta leitura com a certeza que quero ler mais livros desta notável escritora. 

Seg | 02.07.18

SEIS VÍDEOS PARA QUEM PRETENDE LER MAIS AUTORES PORTUGUESES

Cláudia Oliveira

Hoje decidi compartilhar seis vídeos do meu canal no Youtube para vos incentivar na leitura de autores portugueses. O projeto Ler os Nossos começou ontem e nada melhor do que fazer alguns destaque na primeira semana. Recordar alguns autores que me marcaram e rever vídeos que merecem alguma atenção. Espero que gostem e vos faça agarrar num livro escrito por um autor português. 

 

Pensas que José Saramago não é um autor para ti? Neste vídeo tento provar o contrário, há um livro de Saramago para todos. Acredita em mim. Assiste a este vídeo e descobre qual é o título que melhor se encaixa com os teus gostos. 

 

Este vídeo tem cinco anos. Neste vídeo falo no primeiro livro que li de João Tordo e tento convencer os leitores a ler este título. Mudei imenso em frente à câmara, como vão poder ver. 

 

Um dos vídeos mais populares do canal. Dou várias dicas para quem quer ler mais este ano. Uma forma de incentivar os novos leitores. E já, está a decorrer o proejeto Ler os Nossos, nada como começar agora!

 

Neste vídeo falo na grande descoberta da primeira edição do projeto Ler os Nossos. Um autor que me marcou, uma história irreverente e ainda por cima a um preço fabuloso. 

 

E agora, chegou a vez da escritora para a vida toda, Maria Teresa Horta. Não deixem de ver este vídeo e sentir o meu entusiasmo. 

 

Por fim, um dos livros que poucos falam, mas que eu adorei. Saudades, um dia leio outra vez para escrever uma opinião decente. É maravilhoso. 

Dom | 01.07.18

ALICE NO PAÍS DAS SAPATILHAS | SUSANA TAVARES

Cláudia Oliveira

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Data de lançamento : 4 de julho

Editora: Manuscrito Editora

@alice_no_pais_das_sapatilhas

 

Sinopse

 Alice, 15 anos, é a miúda mais popular do colégio. Namora com o Mister Giraço do 12º ano e o seu blogue, Alice no País das Sapatilhas, soma visitantes e seguidores. Like, like, like! o seu sonho de vida é ser uma Fashion Blogger, sempre atenta às últimas tendências. 

Mas, a um mês de fazer 16 anos, o feed da sua vida muda radicalmente quando os pais decidem ir viver para Rolhas, uma pequena e remota aldeia de Trás-os-Montes onde nem sequer há Internet. What? OMG! Vários emojis de espanto! 

E agora? Será possível sobreviver à adolescência sem redes sociais? e como é que ela, habituada a viver permanentemente online, vai traçar o seu caminho offline? Longe da cidade, dos centros comerciais, das amigas e do namorado… São demasiados dramas para uma janela de chat só! 

Alice no País das Sapatilhas - Tirem-me deste filme! é uma história divertida que acompanha as aventuras online e offline de uma adolescente dos dias de hoje, em que os dilemas próprios da idade passam pela existência (ou não) de Wi-Fi.

 

Opinião

Se eu tivesse 15 anos e a minha família tivesse a brilhante ideia de ir viver para Rolhas, uma aldeia de Trás-os-Montes, sem internet, acho que teria um colapso. Uma pessoa viciada em redes sociais, com um blogue, amigas, namorado, não pode ter outra reacção. certo? É um grande drama, sobretudo na adolescência. Adeus vida, olá idade da pedra. 

 

A Alice é uma adolescente super fútil, é blogger de moda, acha-se superior às outras raparigas e tem uma atitude de menina mimada que me fez revirar os olhos várias vezes ao longo da leitura. Mas se pensar na minha pessoa há uns anos atrás, ou em algumas miúdas desta idade, sempre agarradas ao telemóvel, consigo ver que a Alice é o retrato fiel de muitas raparigas. E claro, a idade traz sabedoria e os obstáculos muita aprendizagem. 

 

O livro lê-se de um só fôlego. O enredo é super rápido, não enrola, as situações são engraçadas e apesar do final se facilmente adivinhar a dada altura, acaba por ser muito fofo. Acho que a escritora Susana Tavares conseguiu passar muito bem a mensagem importante nos tempos modernos. É possível sermos felizes em modo offline. A vida tem uma série de coisas para fazer e viver para além das redes sociais. Se calhar, com 15 anos ia ter dificuldades em acreditar nisto, mas juro que é verdade. Pensamos que estamos a perder este mundo e o outro sem wi-fi, mas nada mudou no mundo virtual duas horas depois. 

 

Gostei muito deste livro. Aborda temas que me suscitam algum medo como mãe de pequenos adolescentes. Enquanto, não chega a minha vez, guardo o livro para eles lerem mais tarde. Entretanto,meto já a minha irmã adolescente a ler este livro, é uma forma subtil de lhe passar a mensagem. Outro ponto a favor deste livro são as pequenas ilustrações ao longo do livro e os balões correspondentes às sms trocadas entre as personagens. O trabalho a nível gráfico está muito bom. Espero que o livro vire uma série, seria engraçado aproveitar estas personagens com novas aventuras.

 

Recomendo. Aos pais, que lidam ou vão lidar com adolescente. Aos adolescentes que se acham a última bolacha do pacote e aos futuros adolescentes que não passam sem o seu telemóvel.  

 

Citação:

". Eu e o teu pai passámos demasiado tempo concentrados nas nossas carreiras em dar-te uma vida confortável. Tão confortável que tu nem consegues conceber a ideia de te separares dela por uns tempos... Mas não te preocupes, daqui a uns meses estás de volta à civilização,..."

 

"As mudanças podem ser boas, se estivermos na disposição de as aceitar."

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