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NOVIDADE | "O LIVRO DE EMMA REYES" | EMMA REYES

por Cláudia Oliveira, em 19.10.17

O Livro de Emma Reys_small.jpg

 

Viciada em livros de não fição aguardo ansiosamente por este livro para partilhar convosco a minha experiência de leitura. Espero um grande livro. Já está nas livrarias. 

 

SINOPSE

O Livro de Emma Reyes – Memória por Correspondência relata as memórias da duríssima infância – de abandono e exploração – da pintora colombiana Emma Reyes.  É também uma história de superação de inimagináveis circunstâncias por parte de uma mulher conduzida pela sua vontade férrea de liberdade.

Quando surgiu pela primeira vez na Colômbia, em 2012, quase dez anos após a morte da autora, esta autobiografia epistolar foi imediatamente considerada como um clássico. Em 23 cartas dirigidas ao amigo Germán Arciniegas, Reyes conta a história da sua infância e juventude, sem artifícios nem sentimentalismos, mas com competência e encanto narrativo raros. Publicado em mais de uma dezena de países, o livro conta com introdução de Leila Guerriero e dois textos finais, um por Gérman Arciniegas e outro por Diego Garzón.

Esta é uma correspondência capaz de transcender o tempo em que foi escrita, fixando os contornos de uma vida excecional.

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"O CAMINHO IMPERFEITO" | JOSÉ LUÍS PEIXOTO

por Cláudia Oliveira, em 04.10.17

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Esperava que fosse bom, não contava que superasse todas as expetativas. 

 

José Luís Peixoto leva-nos através do seu olhar a Banquecoque e a Las Vegas. Dividido em duas partes, a primeira parte centra-se nas cores e sabores da capital tailandesa. São revelados factos importantes sobre a cultura do país e os costumes do povo. A segunda parte é uma surpresa. Episódios vários vividos pelo autor, num tom de surpresa e admiração, enchem as páginas do livro. Nunca deixa de ser interessante, nunca deixa de nos prender. São retalhos de viagens enriquecedoras. 

 

Há uma entrega absoluta do autor, foi exatamente isso que eu senti quando terminei a leitura. É num tom intimista que começa a segunda parte, revelando dados em relação à diferença das gerações da sua família. Fala sobre si. As marcas da alma, as feridas, o amor, o desassossego. 

 

"Incomoda-me quando alguém acha que sabe quem sou apenas porque leu um livro escrito por mim - como este - ou, até, porque leu uma frase mal citada ou viu a minha cara numa fotografia. Sinto-me agredido quando tentam reduzir-me a conceitos fechados e intransigentes, construidos por olhares que não se questionam a si próprios, que não admitem qualquer hipótese de falha no seu preconceito."

 

Estamos juntos! Esta passagem representa-me. 

 

Tocou-me imenso a passagem sobre as dúvidas e as certezas dos outros sobre nós. São reveladas também as suas motivações para escrever. Não vos revelo porque gostaria muito que se deixassem tocar pelas suas palavras. Não tenho tatuagens, mas este livro marcou-me. Um lugar cativo no meu coração. Sobretudo por transbordar uma entrega absoluta evidente sobretudo na segunda parte.

 

Não fui até à Tailândia nem a Las Vegas, mas viajar através do olhar do José Luís Peixoto deixou-me cheia de vontade de fazer as malas. Foi especial. Ele é de uma enorme sensibilidade na forma como vê o mundo. É precisamente isso que gosto nos seus livros. São necessários mais livros assim. Realidades diferentes diante dos nossos rostos, para vermos o nosso tamanho ou a nossa grandeza. E desta forma, este titulo torna-se o meu preferido do autor. 

 

"Não sou o meu corpo, não sou o meu nome, não sou esta idade. Não sou o que tenho, não sou estas palavras, não sou o que dizem que sou, não sou o que penso que sou."

 

E a capa? É do próprio José Luís Peixoto. Linda!

 

As diferenças tornam tudo mais fascinante. Numa viagem é esse o impacto que queremos sentir na pele. Respirar outra cultura. Sentir na pele. Se o meu fascínio pela cultura tailandesa era amena depois deste livro fiquei com muita vontade de estar. Ter mais marcas na alma.

 

Este livro fez-me refletir sobre a importância do respeito pelas diferenças. No tamanho do mundo e na variedade, na grandeza de trazer na mala experiências. No conhecimento que os outros trazem à nossa vida. Deixou-me triste por ter começado a viajar tão tarde. Há anos que ando a perder o mundo. Refleti sobre a ignorância limitada pela cultura e a importância do contato com outros costumes. 

 

Livro recomendadíssimo! Leiam, não se vão arrepender. 

 

 

 

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NOVIDADE | O CAMINHO IMPERFEITO | JOSÉ LUÍS PEIXOTO

por Cláudia Oliveira, em 25.09.17

O Caminho Imperfeito_small.jpg

Do autor li Morreste-me, Dentro do Segredo,Galveias, Livro,Todos os Escritores do Mundo Têm a Cabeça Cheia de Piolhos, Em Teu Ventre, Antídoto e Cemitério de Pianos. Gostei de todos, excepto de Cemitério de Pianos. Os meus preferidos são Em Teu Ventre, Dentro do Segredo e Galveias. Este é um dos meus escritores portugueses preferidos e estou extremamente empolgada para ler o seu último livro. Chega às livrarias no dia 29, próxima sexta. A única reclamação é o facto de ter apenas 192 páginas. 

 

SINOPSE

 

Entre Banguecoque e Las Vegas, José Luís Peixoto regressa à não-ficção com um livro surpreendente, repleto de camadas, de relações imprevistas, transitando do relato mais íntimo às descrições mais remotas e exuberantes. O Caminho Imperfeito é, em si próprio, a longa viagem a uma Tailândia para lá dos lugares-comuns do turismo, explorando aspetos menos conhecidos da sua cultura, sociedade, história, religiosidade, entre muitos outros. 

A sinistra descoberta de várias encomendas contendo partes de corpo humano numa estação de correios de Banguecoque fará que, com consequências imprevisíveis, a deambulação se transforme em demanda. Todos os episódios dessa excêntrica investigação formam O Caminho Imperfeito e, ao mesmo tempo, constituem uma busca pelo sentido das próprias viagens, da escrita e da vida.

 

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Este mês tive a oportunidade de ler a grande obra "Ficções" de Jorge Luis Borges. Acredito que existe um leitor antes e depois de Borges. Nada será igual depois de Borges. Acreditam que o livro ainda está muito presente na minha mente? Quero ler mais do autor e reler "Ficções" futuramente.

 

A Quetzal tem vindo a publicar as suas obras numa colecção maravilhosa. Capas simples, em edições primorosas. Vem aí mais um livro do autor, uma Nova Antologia Pessoal organizada pelo próprio Borges. Ainda não conhecemos a capa, voltamos a falar no assunto quando tivermos mais informações. Até lá podem ler um dos títulos disponíveis.

 

Dia 20 de Outubro nas livrarias. 

 

SINOPSE

 

Organizada pelo próprio Jorge Luis Borges no final da vida, a Nova Antologia Pessoal é uma das notáveis reuniões de textos do poeta, que reuniu neste livro alguns dos seus melhores textos de prosa e o essencial da sua obra poética. Mais conhecido como ensaísta e ficcionista, Borges escreveu versos durante toda a vida e essa dimensão da sua obra é tão admirável como as outras. A sua poesia marcou gerações de autores por todo o mundo e conquistou leitores que encontraram nela um lugar de enigma, conforto e mistério.

 

Além de ser o décimo primeiro volume que a Quetzal publica no âmbito da coleção de obras de Jorge Luis Borges, esta é uma edição especial. Não só pelo seu conteúdo, ao reunir a escolha pessoal do grande Mestre, como por se tratar de uma edição com cuidados gráficas adequados à solenidade e importância da obra.

 

 

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"A CONTRALUZ" | RACHEL CUSK

por Cláudia Oliveira, em 25.06.17

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Rachel Cusk já é escreveu nove romances, mas só agora conheci o trabalho da autora com o primeiro livro de uma trilogia recentemente lançado pela Quetzal. Em 2003 foi escolhida pela Granta como uma das melhores jovens romancistas. Na altura tinha apenas 37 anos. Recebeu com este romance rasgados elogios pelos vários meios de comunicação e críticos literários. Foi finalista do Prémio Baileys em 2015.
 
'Se passar algum tempo a ler este romance, ficará convencido de que Rachel Cusk é uma das mais inteligentes escritoras vivas.'
New York Book Review 
 
Uma mulher viaja durante o verão até à Atenas para dar aulas de escrita criativa. Perante esta experiência conhece várias pessoas e recolhe outras histórias. São diálogos que mostram o que a maioria pensa e ninguém revela. Algumas mentiras e falsos moralismos. Várias verdades e cruéis revelações. 
 
Temos a nossa professora de escrita criativa debruçada sobre vários assuntos. Desde a escrita e as diversas formas de escrever. Várias referências literárias. Os pensamentos mais íntimos de quem passa por si ao longo da viagem e desabafa sobre os seus anteriores casamentos. De salientar que a protagonista passa por um processo de divórcio e está a renovar energias. Uma espécie de resumo, do que esteve recalcado ao longo do seu casamento. Mostra as feridas. Questiona qual a forma ideal para manter um casamento, um lar. Como é ser mãe,  como é recomeçar do zero. Uma experiência de perda que não dá para evitar numa situação dessas. 
 
Tem uma das passagens mais bonitas sobre a reconfortante sensação de paz. Entre um mergulho e uma visão sobre o sol e o mar. Já reli a passagem dezenas de vezes e consigo sempre sentir a plenitude daquelas palavras. 
 
Conviver é cada vez mais difícil. Encontrar pessoas interessantes passa a ser um jogo labiríntico. É preciso procurar, ir atrás. Quando tentamos forjar a nossa própria felicidade teremos um castigo dado pelo destino, como um alerta. Adoro a ideia que ela transpõe acerca do casamento. Não somos nunca nós mesmos,  há uma impossibilidade de descobrir por vivermos através de outra pessoa. Há diversas condicionantes alheias que afectam sempre a nossa forma de agir. 
 
A maternidade é outra tema abordado e que mexeu muito comigo. É impossível ficar indiferente às suas palavras sobre a sua mãe e os seus filhos. Foi um livro que me acrescentou. Deu aquele frio na barriga. Apoderou-se dos meus pensamentos. Sacudiu-me, mostrou-me que não estou sozinha. Há melhor missão para a literatura? Não creio. 
 
Anseios, absolutos anseios entre divagações e conversas interessantíssimas. Senti-me num barco, rodeada de boa bebida e excelentes conversas enquanto via o pôr do sol. Desejei ter amigos iguais às personagens. Senti-me ligada.
 
Livro esplendoroso. É um quadro gigante de vozes e pensamentos com pinceladas de realidade. Terminei e quis reler. Hoje quando escrevia este texto, reli várias passagens e perdi-me novamente. 
 
Por favor, anseio pelo segundo e terceiro. 
 

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AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO | MARIANA ENRÍQUEZ

por Cláudia Oliveira, em 22.06.17

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Comparada a Poe e a Bolaño, Mariana Enriquez estreia-se em Portugal com o seu livro de contos e uma capa fabulosa pela Quetzal. Confesso que fui atraída pela capa. É brutal, não é? Comprei assim que saiu. Felizmente não me arrependi, pelo contrário. Valeu a pena cada cêntimo. 

 

São doze contos obscuros e com muita crueldade misturada. A autora dá voz aos rejeitados pela sociedade: prostitutas, crianças pobres e mulheres. Mariana inspirou-se na (sua) Argentina, nas histórias que conhece e nas lendas urbanas. Assumo que não fiquei com vontade de conhecer o país depois deste livro. Fiquei chocada com algumas histórias e isso afastou-me (da mesma forma que me aproximou) das pessoas. Quando somos confrontados com a crueldade perdemos a esperança nos outros. Foi isso que aconteceu. Fiquei revoltada com o mundo e pedi justiça. E as mulheres? São o alvo? Este livro diz que sim, as mulheres e as crianças são (e acreditam ser) os bonecos da sociedade. Maltratados e no centro do ódio. 

 

Cometi o erro de ler o primeiro conto enquanto tomava o pequeno-almoço. Não o façam, se forem sensíveis como eu. Fala num menino sujo que jamais esquecerei. Uma mãe drogada, grávida de outra criança. Um menino pobre só. Apesar do mundo. Das vizinhas. Da mãe drogada. Tive de parar de mastigar e fechar o livro. Estava enojada. Nem consegui voltar a comer. Este menino marcou-me (e fiz questão de reler o conto). É de uma enorme violência. A escrita da autora torna a história mais cruel. É amarga, dura. Não poupa nos detalhes. 

 

Mas não é apenas este conto digno de recomendações. Os outros são espectaculares também. Não acredito que este seja um livro para ler de fio a pavio, mas foi exactamente isso que eu fiz. Vontade de sair do escuro imediatamente. Vamos lá ler o livro de uma só vez para poder respirar fundo. Estão a ver a ideia? Já terminei o livro há cerca de um mês. Quem é que me disse que consegui libertar-me dele? O menino sujo e a menina sem braço ainda continuam muito presentes. Parecem sombras. 

 

Mariana Enriquez passa desta forma para a lista de autoras que quero voltar a ler. Um romance, por favor. Recomendo sobretudo para quem gosta minimamente de contos e/ou ler sobre a sujidade do mundo. 

 

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Não farei uma opinião ao mesmo nível do meu fascínio por este livro. Primeiro, este livro escolheu-me. Escolheu o momento certo e tornou-se um dos meus livros preferidos deste ano. São estes os livros que ficam comigo por longos anos. As histórias transformam-se em memórias boas e recomendações constantes. Por ser uma experiência pessoal (às vezes transmissível) tenho a certeza que não será tão marcante, nem terá a mesma intensidade em futuros leitores. 

 

O narrador pega numa memória de infância e traça um percurso de vida até ao momento presente. Passeia por várias casas, cheiros e retratos foscos guardados na memória. Confunde-nos muitas vezes. Não dá certezas, cria novas memórias. É esse o enigma que me fascina. Criamos memórias, juntamos peças soltas e construimos um puzzle para termos uma história. Esboçamos diálogos e quando os recriamos as palavras estão no lugar certo. 

 

João Jorge morre assassinado com uma faca de matar porcos. O autor pega nesse episódio cruel e começa uma investigação. Uma infância na década de oitenta, na margem sul, com elementos muito semelhantes a tantas outras infâncias. Tive um sentimento de identificação e acabei por ver-me na casa dos meus avós diante daqueles móveis e do prato de comida com muito tempero. Cheiros que só encontrei ali. Passeei pelas minhas memórias através de memórias alheias. Senti perto os meus avós que hoje estão no paraíso. Senti saudades e acabei por questionar as minhas recordações.

 

Enquanto descobrimos a história do narrador, acompanhamos a investigação. As idas à biblioteca, as perguntas aos familiares e as pesquisas nos jornais. Várias histórias cruzam-se num embaralhado de personagens. Os meus momentos preferidos são entre o narrador e o avô, o narrador e o pai e o narrador e o tio. As relações entre as pessoas serão sempre os meus assuntos preferidos na literatura. As conversas, a distância entre os silêncios e a mágoa. Sentimentos tristes e um fascínio do narrador pelos genes herdados. Como nasceu o seu amor pelos livros e pela escrita. As perguntas sem resposta e as respostas encontradas quando procuramos por elas.  

 

Talvez não existam tantas diferenças entre todos. A capacidade de seleccionar criteriosamente os momentos. As imagens fugazes das nossas infâncias. Os primos que nunca chegamos a conhecer. As perguntas, apesar de diferentes, são feitas da mesma matéria. Os livros que passam e ficam. Como os livros do Gabriel Garcia Márquez citado neste livro. Os lugares e os cheiros. Angola e quem sente Angola como um bilhete de identidade. 

 

Não vejo a hora de ler o primeiro romance do autor, "As Primeiras Coisas", Prémio Saramago em 2015. Quero ler tudo o que escreveu, contrariando assim as palavras do autor quanto à sua postura perante a literatura. Quando gosto, gosto muito. E vira uma espécie de obsessão. Leio as entrevistas, oiço os possíveis podcasts, procuro toda a informação possível. Só não tenho coragem para pedir um autógrafo. Mas fiz uma entrevista (podem ler aqui). E claro, este livro será uma recomendação em modo repeat sempre que me pedirem um bom livro de um autor português. 

 

(livro cedido pela editora

 

)

 

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ENTREVISTA A BRUNO VIEIRA AMARAL

por Cláudia Oliveira, em 08.06.17

 

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Li o seu mais recente romance lançado pela Quetzal em Abril deste ano. Um dos melhores livros deste ano certamente. Ainda estou a construir uma opinião digna para escrever neste blog. Brevemente, prometo. Estava muito ansiosa para fazer esta entrevista, e tive uma vontade imensa de questionar tudo. Vocês entendem, existem livros e autores que nos marcam. Quando temos uma oportunidade como esta a alegria apodera-se e uma espécie de histerismo também. Vi o autor na Feira do Livro no dia da abertura mas não fui capaz de pedir um autógrafo ou trocar uma palavra. No entanto, tive esta oportunidade. Eternamente grata à Quetzal

 

Sem mais delongas. O autor foi vencedor do Prémio José Saramago em 2015 com o seu primeiro livro romance, "As Primeiras Coisas", editado em 2013. Não parou de receber prémios: Prémio Literário Fernando Namora 2013; Prémio Time Out Livro do Ano 2013; Prémio P.E.N. Narrativa 2013. Formado em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE é também crítico literário e tradutor. Tem um blog, Circo da Lama

 

O autor está na Feira este fim de semana (10 e 11) e dia no próximo (17) no espaço Porto Editora. 

 

 ***

A Feira do Livro de Lisboa junta leitores e escritores no mesmo espaço durante mais de quinze dias. O Bruno Vieira Amaral estará presente para dar autógrafos. Considera importante estar perto e ouvir as pessoas? Como é a sua relação com os seus leitores? 

 

Gosto do ambiente da feira do livro e de estarmos todos ali, escritores e leitores, por causa dos livros que uns escrevem e os outros lêem, mas não sei se as conversas são assim tão importantes. A minha relação com os leitores é de total liberdade e sem qualquer tipo de compromisso de parte a parte. 

 

Li o seu livro recentemente e adorei. Tenho muita vontade de ler o primeiro. A maioria fez o caminho pela ordem de publicação. Sente que este livro está a ser tão bem recebido como foi o primeiro? 

 

As críticas na imprensa têm sido positivas e este livro, como seria de esperar, chegou a um número superior de leitores mais rapidamente. O outro talvez tenha tido a vantagem de ser uma novidade e este tem a desvantagem de ser analisado em comparação com o outro.

 

O Bruno Vieira Amaral é escritor, tradutor e crítico literário. Como é ser alvo dos críticos literários? Lê tudo o que escrevem sobre si? Passa os olhos pelos blogues ou não sente nenhum interesse? 

 

A partir do momento em que publicamos um livro temos de estar prontos para ser um "alvo", e não apenas dos críticos literários, e não apenas dos críticos literários que escrevem sobre os nossos livros. Sou uma pessoa atenta. 

 

No seu livro existem várias referências a uma infância nos anos 80 passada na margem sul. Senti muita identificação e vivo do outro lado, perto da capital. As diferenças entre a capital e a margem sul são mais evidentes agora? 

 

As diferenças continuam a existir, e ainda bem. Sem o imbecil ,embora habilmente disfarçado, sentimento de superioridade dos lisboetas que valor teria o nosso furioso sentimento de inferioridade?

 

"Herdamos os genes, é certo". Também herdamos os lugares? Também definem que somos? 

 

Nós não somos definidos nem pelos genes, nem pelos lugares, embora uns e outros pesem no que somos e nas escolhas que fazemos. 

 

A relação entre o protagonista e o avô é descrita de forma muito intensa e admiração. O seu avô foi o maior impulsionador no gosto pela leitura,  consequentemente como escritor? 

 

Não. A influência do meu avô foi genética. 

 

"As nossas memórias domina um brilho fulo,  um tanto esbatido,  o tom quente das fotografias,  a cor saturada das recordações". Escrever este livro foi uma viagem às suas memórias? Regressou com novas memórias? 

 

O livro é apresentador como uma investigação em que o narrador, a certa altura, se concentra nas sua memórias de infância. Muito das minhas memórias serviram de base às memórias deste narrador, ainda que haja outras que são puras invenções. Portanto, diria que fui ao mercado da memória e escolhi criteriosamente as que me convinham para compor esta história.

 

Para investigar o assassinato de João Jorge acaba por ir à biblioteca fazer alguma pesquisa em jornais. Ainda costuma ir à biblioteca?  

 

Sim, vou frequentemente à biblioteca.

 

Disse uma vez numa entrevista que antes de escrever um livro já se sentia um escritor. Quando é que percebeu que estava na hora de escrever um livro? 

 

Quando senti que o músculo da escrita estava suficientemente treinado para aguentar uma maratona. 

 

O Bruno Vieira Amaral é leitor . Tem uma rotina diária de leitura ou passa por longos períodos sem tocar num livro (quando escreve, por exemplo)?

 

Não tenho nenhuma rotina enquanto leitor. À excepção dos períodos em que tenho de ler por obrigação profissional, leio com a saudável indisciplina do bom leitor. 

 

Muitos são os leitores que pretendem seguir uma carreira no mundo da literatura. Pode deixar algum conselho para quem sonha editar um livro em Portugal? 

 

Leiam muito, escrevam muito, não tenham pressa em publicar. 

 

 

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"A FLOR AMARELA" | ANABELA MOTA RIBEIRO

por Cláudia Oliveira, em 24.05.17

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Um trabalho académico que virou livro-ensaio relacionado com o romance de Machado de Assis intitulado "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Um clássico há muito tempo na minha lista de livros para ler um dia. 

 

Sem dar respostas, a autora levanta questionamentos através das palavras da personagem emblemática Brás Cubas. Ele revela uma enorme força e franqueza no momento de expor os seus medos e dúvidas. Afinal, não tem nada a perder. Está morto, pode ser sincero quantas vezes quiser. Isso torna-o muito interessante. Entendo porque é o livro da vida de muitos leitores assim como o fascínio por esta personagem. 

 

Teria ganho mais com a leitura do clássico antes de ter lido este. Estaria familiarizada com a história, teria a sensação de reencontro com uma personagem memorável. Desta forma não passou de um leitura de alguém leiga na matéria e com pouco aproveitamento. No entanto, fiquei com vontade de ler a obra clássica de Machado de Assis. Se era um dos objectivos da autora, foi concretizada. 

 

Os meus capítulos preferidos são aqueles focados na relação de Brás Cubas com a mãe e a forma como enfrentou a morte desta. Foi aqui que o livro teve todo o meu interesse. Quem me segue há algum tempo sabe o quanto sou aficionada pelo tema. Também gosto bastante do capitulo sobre a vida, uma excelente divagação em relação à expressão "Era preciso viver".  O que corresponde viver?

 

 "Quando se dá a morte e alguém tão próximo como a mãe, não só se experimenta uma dor aguda que resulta da perda como se compreende que um dia se vai morrer também. Deixam de existir barreiras, outros elos uma cadeia sequencial e lógica. Fica-se órfão."

 

É notável a admiração da autora pelo protagonista de "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Foi subtil na forma como mostrou essa paixão pela obra . É um excelente livro para quem pretende reencontrar ou conhecer Brás Cubas pela visão da jornalista que nasceu no mesmo dia (20 de outubro) que a criação de Machado de Assis.

 

 (livro cedido pela editora)

 

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