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"A CONTRALUZ" | RACHEL CUSK

por Cláudia Oliveira, em 25.06.17

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Rachel Cusk já é escreveu nove romances, mas só agora conheci o trabalho da autora com o primeiro livro de uma trilogia recentemente lançado pela Quetzal. Em 2003 foi escolhida pela Granta como uma das melhores jovens romancistas. Na altura tinha apenas 37 anos. Recebeu com este romance rasgados elogios pelos vários meios de comunicação e críticos literários. Foi finalista do Prémio Baileys em 2015.
 
'Se passar algum tempo a ler este romance, ficará convencido de que Rachel Cusk é uma das mais inteligentes escritoras vivas.'
New York Book Review 
 
Uma mulher viaja durante o verão até à Atenas para dar aulas de escrita criativa. Perante esta experiência conhece várias pessoas e recolhe outras histórias. São diálogos que mostram o que a maioria pensa e ninguém revela. Algumas mentiras e falsos moralismos. Várias verdades e cruéis revelações. 
 
Temos a nossa professora de escrita criativa debruçada sobre vários assuntos. Desde a escrita e as diversas formas de escrever. Várias referências literárias. Os pensamentos mais íntimos de quem passa por si ao longo da viagem e desabafa sobre os seus anteriores casamentos. De salientar que a protagonista passa por um processo de divórcio e está a renovar energias. Uma espécie de resumo, do que esteve recalcado ao longo do seu casamento. Mostra as feridas. Questiona qual a forma ideal para manter um casamento, um lar. Como é ser mãe,  como é recomeçar do zero. Uma experiência de perda que não dá para evitar numa situação dessas. 
 
Tem uma das passagens mais bonitas sobre a reconfortante sensação de paz. Entre um mergulho e uma visão sobre o sol e o mar. Já reli a passagem dezenas de vezes e consigo sempre sentir a plenitude daquelas palavras. 
 
Conviver é cada vez mais difícil. Encontrar pessoas interessantes passa a ser um jogo labiríntico. É preciso procurar, ir atrás. Quando tentamos forjar a nossa própria felicidade teremos um castigo dado pelo destino, como um alerta. Adoro a ideia que ela transpõe acerca do casamento. Não somos nunca nós mesmos,  há uma impossibilidade de descobrir por vivermos através de outra pessoa. Há diversas condicionantes alheias que afectam sempre a nossa forma de agir. 
 
A maternidade é outra tema abordado e que mexeu muito comigo. É impossível ficar indiferente às suas palavras sobre a sua mãe e os seus filhos. Foi um livro que me acrescentou. Deu aquele frio na barriga. Apoderou-se dos meus pensamentos. Sacudiu-me, mostrou-me que não estou sozinha. Há melhor missão para a literatura? Não creio. 
 
Anseios, absolutos anseios entre divagações e conversas interessantíssimas. Senti-me num barco, rodeada de boa bebida e excelentes conversas enquanto via o pôr do sol. Desejei ter amigos iguais às personagens. Senti-me ligada.
 
Livro esplendoroso. É um quadro gigante de vozes e pensamentos com pinceladas de realidade. Terminei e quis reler. Hoje quando escrevia este texto, reli várias passagens e perdi-me novamente. 
 
Por favor, anseio pelo segundo e terceiro. 
 

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AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO | MARIANA ENRÍQUEZ

por Cláudia Oliveira, em 22.06.17

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Comparada a Poe e a Bolaño, Mariana Enriquez estreia-se em Portugal com o seu livro de contos e uma capa fabulosa pela Quetzal. Confesso que fui atraída pela capa. É brutal, não é? Comprei assim que saiu. Felizmente não me arrependi, pelo contrário. Valeu a pena cada cêntimo. 

 

São doze contos obscuros e com muita crueldade misturada. A autora dá voz aos rejeitados pela sociedade: prostitutas, crianças pobres e mulheres. Mariana inspirou-se na (sua) Argentina, nas histórias que conhece e nas lendas urbanas. Assumo que não fiquei com vontade de conhecer o país depois deste livro. Fiquei chocada com algumas histórias e isso afastou-me (da mesma forma que me aproximou) das pessoas. Quando somos confrontados com a crueldade perdemos a esperança nos outros. Foi isso que aconteceu. Fiquei revoltada com o mundo e pedi justiça. E as mulheres? São o alvo? Este livro diz que sim, as mulheres e as crianças são (e acreditam ser) os bonecos da sociedade. Maltratados e no centro do ódio. 

 

Cometi o erro de ler o primeiro conto enquanto tomava o pequeno-almoço. Não o façam, se forem sensíveis como eu. Fala num menino sujo que jamais esquecerei. Uma mãe drogada, grávida de outra criança. Um menino pobre só. Apesar do mundo. Das vizinhas. Da mãe drogada. Tive de parar de mastigar e fechar o livro. Estava enojada. Nem consegui voltar a comer. Este menino marcou-me (e fiz questão de reler o conto). É de uma enorme violência. A escrita da autora torna a história mais cruel. É amarga, dura. Não poupa nos detalhes. 

 

Mas não é apenas este conto digno de recomendações. Os outros são espectaculares também. Não acredito que este seja um livro para ler de fio a pavio, mas foi exactamente isso que eu fiz. Vontade de sair do escuro imediatamente. Vamos lá ler o livro de uma só vez para poder respirar fundo. Estão a ver a ideia? Já terminei o livro há cerca de um mês. Quem é que me disse que consegui libertar-me dele? O menino sujo e a menina sem braço ainda continuam muito presentes. Parecem sombras. 

 

Mariana Enriquez passa desta forma para a lista de autoras que quero voltar a ler. Um romance, por favor. Recomendo sobretudo para quem gosta minimamente de contos e/ou ler sobre a sujidade do mundo. 

 

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"TORNA-TE UM GURU NAS REDES SOCIAIS" | MIGUEL RAPOSO

por Cláudia Oliveira, em 14.06.17

 

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Lançamento do Manuscrito em Maio deste ano, "Torna-te um Guru nas Redes Sociais" é um livro essencial na arte dos tempos modernos. Miguel Raposo tem imensa experiência na área da comunicação e tecnologia. Consequentemente um vasto conhecimento do digital e das potencialidades da internet.

 

Este livro traz informação nova. Aprendi várias coisas e recebi os melhores conselhos que alguém me podia dar como booktuber e bloger. Dicas como "sê genuíno" parecem banais, mas são essenciais para obter resultados. Ninguém quer opiniões com pouca personalidade e sinceridade. Juntamente com outros leitores acabo por percorrer um caminho. Quem segue o blog desde o inicio vê a evolução, consegue prever se vou gostar muito ou pouco de certo livro.  Apesar de virtual, temos uma personalidade e uma imagem formada perante os outros. No meu caso há um rosto porque mantenho um canal no Youtube. Quando decidi criar o canal não havia uma intenção de ganhar dinheiro. Nem sabia da existência de parcerias. Não tinha blog. Com o passar dos anos percebi que podia ter parcerias e beneficiar de alguma forma com a criação de conteúdo. Sem deixar a minha personalidade de lado passei a usufruir de benefícios e a direccionar os meus objectivos noutras direcções. Este blog (e respectivo canal) já me trouxeram momentos especiais (e consequentemente pessoas). Não me arrependo de nada em relação ao caminho feito até ao momento. 

 

Tudo se move no meio virtual. Os mais cépticos começam a migrar e aceitar os tempos modernos. Diziam-me que um canal e blog dedicado aos livros nunca teria capacidades para despertar o interesse do público. Não terá os mesmos ganhos de um Youtuber de maquilhagem, desafios com canela ou danças com barbas. Nem de perto. Os ganhos com publicidade são estrondosos em Portugal. Vi uma reportagem e fiquei de boca aberta. O livro confirma. Os livros serão sempre uma minoria, mas nunca perdemos a esperança. Há várias formas de contornar essa situação. Há técnicas, mas também dá algum trabalho. Os resultados não acontecem milagrosamente. 

 

Houve uma altura em que as propostas eram imensas e senti-me perdida. Teria sido uma grande ajuda se tivesse lido este livro nesse período. Também tive um momento muito chato por causa de um título mal pronunciado. Inexperiente, podia ter falhado redondamente na minha postura. Tive sorte, não o fiz. E ainda cativei mais seguidores. Se puderem ler este livro vão ficar com bases importantes. Este livro também ajuda imenso na resolução de conflitos nas redes sociais. Isto se quiserem fazer das vossas redes sociais algo rentável, dinâmico e em constante crescimento. 

 

Não me tornei uma guru, nem pretendo utilizar todas as sugestões do Miguel Raposo. Os anos de utilização também trazem experiência. Aprendi muitas coisas sozinha. Não existiam livros como este há uns tempos atrás. Para quem não quer perder tempo e pretende aprender a viver num mundo virtual onde qualquer falha pode ditar um percurso de muito trabalho é fundamental a leitura deste livro. Recomendo.

 

 

(livro cedido pela editora)

 

 

 

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Não farei uma opinião ao mesmo nível do meu fascínio por este livro. Primeiro, este livro escolheu-me. Escolheu o momento certo e tornou-se um dos meus livros preferidos deste ano. São estes os livros que ficam comigo por longos anos. As histórias transformam-se em memórias boas e recomendações constantes. Por ser uma experiência pessoal (às vezes transmissível) tenho a certeza que não será tão marcante, nem terá a mesma intensidade em futuros leitores. 

 

O narrador pega numa memória de infância e traça um percurso de vida até ao momento presente. Passeia por várias casas, cheiros e retratos foscos guardados na memória. Confunde-nos muitas vezes. Não dá certezas, cria novas memórias. É esse o enigma que me fascina. Criamos memórias, juntamos peças soltas e construimos um puzzle para termos uma história. Esboçamos diálogos e quando os recriamos as palavras estão no lugar certo. 

 

João Jorge morre assassinado com uma faca de matar porcos. O autor pega nesse episódio cruel e começa uma investigação. Uma infância na década de oitenta, na margem sul, com elementos muito semelhantes a tantas outras infâncias. Tive um sentimento de identificação e acabei por ver-me na casa dos meus avós diante daqueles móveis e do prato de comida com muito tempero. Cheiros que só encontrei ali. Passeei pelas minhas memórias através de memórias alheias. Senti perto os meus avós que hoje estão no paraíso. Senti saudades e acabei por questionar as minhas recordações.

 

Enquanto descobrimos a história do narrador, acompanhamos a investigação. As idas à biblioteca, as perguntas aos familiares e as pesquisas nos jornais. Várias histórias cruzam-se num embaralhado de personagens. Os meus momentos preferidos são entre o narrador e o avô, o narrador e o pai e o narrador e o tio. As relações entre as pessoas serão sempre os meus assuntos preferidos na literatura. As conversas, a distância entre os silêncios e a mágoa. Sentimentos tristes e um fascínio do narrador pelos genes herdados. Como nasceu o seu amor pelos livros e pela escrita. As perguntas sem resposta e as respostas encontradas quando procuramos por elas.  

 

Talvez não existam tantas diferenças entre todos. A capacidade de seleccionar criteriosamente os momentos. As imagens fugazes das nossas infâncias. Os primos que nunca chegamos a conhecer. As perguntas, apesar de diferentes, são feitas da mesma matéria. Os livros que passam e ficam. Como os livros do Gabriel Garcia Márquez citado neste livro. Os lugares e os cheiros. Angola e quem sente Angola como um bilhete de identidade. 

 

Não vejo a hora de ler o primeiro romance do autor, "As Primeiras Coisas", Prémio Saramago em 2015. Quero ler tudo o que escreveu, contrariando assim as palavras do autor quanto à sua postura perante a literatura. Quando gosto, gosto muito. E vira uma espécie de obsessão. Leio as entrevistas, oiço os possíveis podcasts, procuro toda a informação possível. Só não tenho coragem para pedir um autógrafo. Mas fiz uma entrevista (podem ler aqui). E claro, este livro será uma recomendação em modo repeat sempre que me pedirem um bom livro de um autor português. 

 

(livro cedido pela editora

 

)

 

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Este livro fala no primeiro amor. Diria, na primeira paixão. Na existência de química entre duas pessoas. É a história do Henry e da primeira vez em que se apaixona. Do seu primeiro beijo, do primeiro momento mágico e frio na barriga. Ele conhece a Grace no dia em que ambos são escolhidos para coordenar o jornal da escola . Ela é considerada uma miúda estranha, veste roupa muito larga e anda apoiada numa bengala. A Grace é a estrela deste livro. A sua estranheza acaba por conquistar e marcar o seu carácter.  

 

O Henry é um miúdo cheio de dúvidas, com pouca autoconfiança e muito carente. Foi a primeira vez que viu um rapaz com constantes ataques nervosos em relação à sua paixoneta. Normalmente é a menina a fazer esse papel em quase todas as historias de amor . Aqui é tudo invertido e funciona. Afinal os rapazes no mundo inteiro não são todos fortes e confiantes. Mas o que é original no começo, acaba por ser irritante no desenrolar da trama. Ele é extremamente carente. Em alguns momentos pensa que o facto de serem namorados dá-lhe o direito de dizer que a Grace é dele. Não é. Ninguem é de ninguém. Isso não é romântico.

 

Há um momento  mágico, como acontece no cinema, muito bem descrito entre o casalinho . Adorei, é o meu momento preferido neste livro. Tem tudo a ver com os peixes da capa, mas não vou contar. É genuíno, trouxe um bocadinho aqueles momentos de adolescente guardados eternamente na caixinha das recordações. Trouxe do passado o sabor doce das primeiras paixões.  As mensagens trocadas pelos dois são muito fofas. Existem diversas referencias à cultura pop dos adolescentes dos tempos modernos. Redes sociais, cinema e música estão no mote das conversas dos dois e dos amigos. Adorei o facto do talento para a escrita ser abordado. No meu tempo não existiam jornais na escola. Uma pena. 

 

A escrita da autora é cativante.  Muito criativa, existe equilíbrio entre o drama e a leveza do primeiro beijo. Quando a historia da Grace começa a ser desvendada o livro não perde o interesse. Somos confrontados com um assunto muito delicado, a perda, o luto. A forma como as pessoas sofrem e continuam a viver com a dor. Talvez seja um pouco estranho, mas tudo o que é diferente acaba por provocar esse estranhamento. 

 

Não é um livro igual aos outros livros para adolescentes com histórias de amor. Tem vários elementos que o distingue. A carência do rapaz, a objectividade da rapariga. As famílias diferentes de ambos, uma é muito liberal, a outra é confusa e problemática. A capacidade de superação após um desgosto. O primeiro amor, aquele que acreditamos ser eterno.   

 

 Foi uma boa surpresa e estou convencida que muitos adolescentes vão adorar esta história. 

 

(livro cedido pela editora)

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"ESCRITO NA ÁGUA" | PAULA HAWKINS

por Cláudia Oliveira, em 09.06.17

 

Dia 10 e 11 os fãs da autora vão ter a oportunidade de pedir um autografo à autora Paula Hawkins na Feira do Livro de Lisboa. O seu mais recente livro foi lançado pela editora 20|20 e saltou de imediato para 1º lugar do top de vendas. Era de facto um dos livros mais aguardados este ano. 

 

Este livro passa-se numa vila pequena. Nesse lugar existe um rio onde acontecem várias mortes de mulheres. Daí o nome pelo qual é conhecido, "Poço das Afogadas". Logo nas primeiras páginas temos a morte da Nel. Ninguém sabe ao certo se foi um acidente ou um assassinato. Nel era uma mulher deslumbrada com as histórias passadas em torno daquele lugar. E isso fica evidente ao longo da história. Ela escreve e vive intensamente o fenómeno misterioso. 

 

Preparem-se, vão conhecer muitas personagens. Terminada a leitura, duas semana depois, só me lembro de uma  personagem. As personagens são pouco simpáticas. Não senti empatia por nenhuma. Não senti a energia, só a arrogância. Aliás, no inicio pode ser um bocadinho difícil entrar na história devido à constante troca de pontos de vista. No entanto, recordo-me muito bem da história, da investigação e da permanente carga pesada do ambiente.

 

Este é melhor do que o primeiro grande sucesso. A autora cresceu, saiu da sua zona de conforto e arriscou. Prezo muitos essas qualidades num escritor. A escrita é intrincada, mais complexa. Este livro marcou-me um bocadinho mais do que o anterior. Nem devia fazer comparações, mas é só para entenderem que "A Rapariga no Comboio" não faz parte dos meus livros preferidos. Nem de perto. Reconheço as suas qualidades como thriller, mas não provocou impacto na minha vida. 

 

Para um thriller o seu ritmo fica aquém das expectativas, é muito lento. Demorei cerca de cinco dias para ler este livro. Tempo suficiente para criar uma ligação com as personagens. Errado. Não criei. Fiquei fascinada com os suicídios, com a água pura, as vozes das mulheres. As injustiças criadas à volta das mulheres. Que tema absolutamente aterrorizador e actual. Pano para mangas. 

 

O desfecho foi surpreendente q.b.. Temi durante o livro inteiro que a autora fosse preguiçosa nas últimas páginas. Pelo contrário. Foi um final interessante, diferente. Encaixou perfeitamente na história. E a quantidade de teorias que engendrei? Nem vos passa pela cabeça.

 

A autora trouxe uma lufada de ar fresco com o primeiro livro, no entanto o ar adensou-se e já não está tão fresco assim.  

 

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"O PRODÍGIO" | EMMA DONOGHUE

por Cláudia Oliveira, em 07.06.17

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Emma Donoghue apresenta agora um registo diferente no seu último romance. O "O Quarto de Jack" fez imenso sucesso e o filme ainda recebeu uma nomeação ao Oscar como melhor argumento adaptado. Aliás, o filme é brutal. Filme de qualidade e obrigatório. 

 

Desta vez vamos até à Irlanda do século XIX com uma nova protagonista chamada Anna. Ela tem onze anos, afirma que está sem comer desde o dia do seu último aniversario, há quatro meses.Os pais parecem muito calmos com toda a situação. Lib Wright é uma enfermeira inglesa contratada para cuidar dela numa tentativa de desmascarar a situação. Não existem dúvidas que Anna está no meio de uma grande mentira, mas ninguém sabe em que condições. Por outro lado temos o povo que acredita numa espécie de milagre, numa criança prodígio. Como é que a Anna consegue sobreviver nestas circunstâncias? Precisam de ler para descobrir.

 

O mais impressionante neste romance é o facto de ser inspirado em factos reais. O pano histórico também é cativante. Uma Irlanda fragilizada, entre 1845-1849, pela Grande Fome. Um período de fome, doenças e emigração em massa. Um país triste, melancólico. 

 

Há uma linha ténue que separa a ingenuidade da mentira. A fé distingue os indivíduos. A força da religião separa grandes povos. São necessárias crenças e mitos para segurar vidas perdidas. Onde está o limite? As pessoas precisam de acreditar em milagres. Precisam de acreditar em alguma coisa para continuarem. 

 

A história absorveu-me, encheu-me de dúvidas. Estava interessada no que se passava dentro daquela casa. Comecei logo a criar teorias e a ficar nervosa com o fanatismo religioso. Incomoda-me tudo o que seja extremista e sexista. Incomodou-me imenso a atitude dos pais perante a situação.

 

A história estende-se muito na discussão sobre a mentira e a verdade. A enfermeira repete as suas dúvidas exaustivamente. Os diálogos longos dão algum ritmo à história que é bastante lenta. Os capítulos longos não ajudam na dinâmica e no mistério. 

 

Há uma ligeira evolução da autora, gostei mais da narrativa deste apesar dos personagens serem menos cativantes. Estou desconfiada que este romance vai apanhar desprevenidos os fãs do primeiro grande sucesso. A autora mostra habilidade num registo diferente, superou as minhas expectativas e deixou-me a desejar por mais. Agora queremos o filme. 

 

Dia 8 nas livrarias. 

(livro cedido pela editora)

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Augusto Cury vai estar hoje, dia 4, pelas 15.30, na Feira do Livro em Lisboa, no grupo Porto Editora. Psiquiatra, psicoterapeuta, cientista e escritor. Um dos autores mais lidos no Brasil. Portanto, não fiques em casa, aproveita para ires até à Feira do Livro em Lisboa. Eu vou lá estar para aproveitar esta oportunidade única. 

 

Ao contrário do que estava à espera, o livro é narrado de uma forma absolutamente cativante. Prendeu-me do começo ao fim. A escrita é super acessível e não cria dificuldade em transmitir a sua mensagem. Ponto muito importante num livro deste género. Falar do ponto de vista cientifico na grande figura religiosa que é Jesus é um valente desafio. Presumem os meus caros leitores que será um livro somente para crentes ou ateus. Digo-vos, é para ambos.

 

Marco Polo é um ateu convicto, psicólogo e pesquisador. Durante uma palestra rejeita a ideia de discutir religião e a inteligência emocional de Jesus quando é confrontado com a seguinte questão: como é a mente de Jesus do ponto vista cientifico? O cientista sofre um abalo muito grande na sua vida (com outro caso familiar entre mãos) que intensifica a vontade procurar uma resposta em relação à inteligência emocional de Jesus. Mais tarde, vê-se perante um grupo de outros cientistas e dois ilustres teólogos num debate em mesa redonda promovido pela ONU. Augusto Cury transformou esse acontecimento num romance intitulado "O Homem Mais Inteligente da História" recentemente lançado pela Pergaminho.

 

Acompanhar os seus dramas e questionamentos torna Marco Polo mais próximo dos leitores. Senti necessidade de fazer as mesmas perguntas e repensar algumas ideias. Senti-me no meio do debate, pronta para encher os teólogos de perguntas. Quantas vezes, perante situações de injustiça somos levados a perguntar onde está Deus? Este livro trouxe-me outro ponto de vista. Ajudou-me a conhecer os fiéis acompanhantes de Jesus e as suas crenças. No entanto, não mudou a minha posição perante a  religião. Talvez tenha agora uma visão mais clara sobre as motivações dos outros em agarrarem-se à fé como salvação.  

 

"Muitas dessas pessoas que choram no Muro das Lamentações já choraram diante de oncologistas, ortopedistas, psiquiatras, enfim..."

 

 

Marco Polo cresce juntamente com a investigação. Acredito que junto dos outros aprendemos e desafiamos as nossas crenças. É também interessante o desenvolvimento da sua relação com o filho Lucas. Um jovem perdido no mundo das drogas. O retrato de um mundo actual cheio de informações desnecessárias para o crescimento pessoal e da inteligência emocional. Damos aos nossos filhos o essencial? Este livro debruça-se perante a realidade das relações entre pais e filhos. A ausência da confiança entre indivíduos e os seus receios pela rejeição. Aborda o tempo de qualidade como papel fulcral na educação. 

 

Para esta investigação são entregues textos do famoso Novo Testamento a Marco Polo. Para um cientista estudar a Bíblia tem de acreditar na sua existência. Questionei-me sobre isto durante toda a leitura. Espero ver respondida a minha dúvida no próximo volume da série de livros dedicada à gestão da mente.   

 

Este livro acabou por ser uma boa surpresa. Levantou questionamentos sobre a minha relação com os outros. Deu-me algumas nuances para contornar dificuldades sobre o autocontrole e a correria excessiva. A necessidade de estar mais presente de corpo e alma na vida de quem estimo. Como um conselho amigo como costumam ser os livros que nos tocam.

 

"Não precisamos de muito para ser felizes. De que adianta cuidar dos outros se nos esquecemos de nós mesmos?"

 

"Tens cuidado de ti? - Era uma pergunta simples e vital."

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(livro cedido pela editora)

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"HOMENS IMPRUDENTEMENTE POÉTICOS" | VALTER HUGO MÃE

por Cláudia Oliveira, em 25.05.17

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Fico tão feliz por não ter desistido deste escritor. Foram quatro livros antes de me apaixonar por ele. "O Filho de Mil Homens"; "Contos de Cães e Maus Lobos"; "A Desumanização" e "A Máquina de Fazer Espanhóis" fizeram parte das minhas leituras ao longo dos anos, mas ainda não estava convencida. Gostei sem amar. Amei sem saber. 

 

Valter Hugo Mãe tem o dom de conquistar os seus leitores através das inúmeras metáforas e forma poética na hora de contar uma história. Sem precisar de muita acção, ele prova que não é (só) a história que interessa, é a forma como as palavras nos acertam. Foi certeiro. Ou talvez eu estivesse no momento certo para as receber. Ou maturidade. Parece muito espiritual dito desta forma, mas não sei transmitir de outra.

 

Foi um livro que passou muito tempo comigo. O meu sentimento por ele cresceu ao longo dos dias. Tão grande este amor que entrou para a lista dos preferidos deste ano. Estava na hora Valter Hugo Mãe, estava na hora de reconhecer e baixar as defesas. Fui uma leitora desconfiada durante muito anos. Por pensar que não passavam de uma série de frases bonitas escolhidas de propósito para provocar sentimentos tristes e bonitos. Estava redondamente enganada. E ainda bem. 

 

Há uma evolução, uma inovação na sua escrita. A cada livro o autor transforma-se. Cria uma linguagem muito própria. É possível? Respeitei o ritmo lento do livro e consegui mergulhar na história. O escritor é muito poderoso na forma como apresenta a história. Somos levados lentamente para dentro da magistral floresta japonesa mais conhecida como a “Floresta dos Suicidas”. Senti-me muito pequena perante o tamanho e o silêncio desta história. Senti o peso e a leveza nas palavras do Valter Hugo Mãe. Admiro a capacidade de alguém, através das suas palavras, revelar sentimentos desconhecidos. Conheci uma família, bebi da sua cultura e conhecimento. 

 

Aquelas árvores gigantes com cordas a balançar ao vento causa-me uma sentimento de admiração e curiosidade. Um livro capaz de trazer calma aos dias mais agitados e vários murros no estômago para não adormercemos com tanta paz. Não sei como é que o autor faz isto, mas é brilhante. Este é o meu Valter Hugo Mãe preferido. Finalmente. 

 

(comprei este livro, como compro todos os outros do autor)

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Mais um livro YA com representatividade LGBT. Simon tem 16 anos, é gay. Ele sabe, aceita-se, nunca contou a ninguém e não compreende porque tem de anunciar ao mundo. Porque precisa de gritar ao sete ventos que gosta de rapazes? Também não faço a mínima ideia. Ele deixou-me a pensar nisso, colocou todas as minhas certezas sobre o assunto do avesso. Como se eu tivesse alguma coisa com isso (não tenho). Muitas pessoas acham que podem meter o nariz onde não devem ou precisam de saber tudo sobre a sexualidade dos outros. 

 

Simon troca emails com alguém da sua escola. Ele não conhece Blue pessoalmente. Vocês sabem como é emocionante trocar emails com um estranho (simpático e com boas intenções, claro). Simon é um adolescente engraçado, com uma família ainda mais engraçada. Dei tantas gargalhadas com este livro (a minha irmã pode confirmar). Não dava para conter de forma nenhuma. Ele tem saídas muito criativas. Alguém vai descobrir os emails e fazer chantagem. A autora precisava de um conflito para a sua história, ok? A vida real nem sempre corre às mil maravilhas. Mas fica a pergunta. Porque temos de usar os segredos dos outros como armas? O ser humano consegue ser lixo de vez em quando. Fica o conselho. Se estás a sofrer de chantagem por um pateta qualquer não te cales, não tenhas medo, conta. 

 

É muito difícil largar este livro. Acreditem em mim. Queres descobrir quem é o Blue (não posso contar se vai realmente ser revelado), queres saber o que o Simon vai fazer em relação à chantagem (a escolha dele foi altamente). Precisamos de mais livros como este, os adolescentes precisam de livros com personagens como estes. Precisam de conhecer o Simon e o seu grupo de amigos. 

 

E as referências ao Harry Potter? Fofas. E as bolachas em miniatura em cada capitulo? Fofas. E os emails entre o Simon e o Blue? Fofos e divertidos. E a capa? Gira!

 

Vamos romper com os preconceitos e oferecer este livro a toda a gente. No final vamos parar de meter o nariz onde não devemos. Aproveitamos e pedimos à Porto Editora para editar o outro livro da Becky Albertalli.

 

(livro cedido pela editora)

 

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  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D