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MIL VEZES ADEUS | JOHN GREEN

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Os livros para jovens adultos têm uma enorme responsabilidade. Precisam de ser divertidos, envolventes de forma a criar novos leitores. Também precisam de abordar assuntos pertinentes com personagens de empatia fácil. Um adulto não vai sentir o mesmo que um leitor adolescente quando lê um livro do género. Sendo praticamente impossível tento colocar-me numa posição com um olhar adolescente. E olho para o livro como um todo. Mas vamos à pergunta que não quer calar, o último livro do John Green vale a pena?

 

Antes de responder preciso de revelar que já li dois livros do escritor, “A Culpa é das Estrelas” e “Cidades de Papel”. Mais uma vez há uma fuga/viagem nas suas histórias. Alguns escritores sempre a escrever a mesma história, mudam somente as personagens e os problemas psicológicos. Pouco mais. São sempre brancos, dentro dos padrões comuns de beleza. Precisámos de uma menina diferente. Aliás, precisamos de diversidade dentro do género. John Green defende tantas causas e na hora de concretizar fica muito à margem. Sei que ele já abordou com outros assuntos, mas os seus livros são mais do mesmo. Só muda o fator responsável pela criação de empatia com os jovens leitores. 

 

Mais do que uma história sobre transtornos com um romance entre adolescentes temos a dita fuga. Desta vez a fuga é proveniente de uma personagem secundária. Apesar de não ser o assunto central, é essa situação que vai fortalecer os laços entre o casalinho do romance. Aza e o filho do empresário desaparecido. Esta situação achei uma bela sacada por parte do John Green. Apesar dos dois já se conhecerem a situação acaba por ser uma oportunidade para se conhecerem melhor. Toda a gente sabe que os dramas aproximam as pessoas. Às vezes acabamos por confundir os sentimentos no meio de tanta carência. Da minha perspetiva foi isso que aconteceu com a Aza e o seu amigo.

 

Este livro também aborda a questão da amizade. É para mim a melhor parte, quando são ditas as verdades absolutas cara na cara. Tão raro. As pessoas escondem-se das conversas sérias atrás de um telemóvel. Agrada-me que seja diferente, incentivando a conversas sinceras. Também gostei da mensagem envolvida pela amizade delas. Tocou-me sobretudo algumas palavras ditas. O meu olhar adolescente despontou uma pequena lembrança do secundário.

 

A mensagem do livro é bonita. O final é engraçado q.b. Não é de todo uma história marcante. As personagens não são inesquecíveis, pelo contrário. Está cheio de referências literárias para manter algum nível de profundidade, mas é tão forçado que se nota a léguas. John Green não está nos seus melhores momentos a nível criativo, mas pode continuar a tentar.

 

Qual é o teu livro preferido do John Green? Qual foi a melhor parte deste livro? O que menos gostaste?

 

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O HOMEM DO GIZ | C.J. TUDOR

 

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Aplausos para esta capa com destaque para a lombada espetacular. O olho brilhou quando recebi o grande lançamento da Planeta. O título está por todo o lado com uma espécie de “obrigatório” para os fãs do género thriller. Digamos que o título também é bastante sugestivo e a sinopse promete. Quem nunca jogou ao “enforcado”? Tantas vezes.

 

Bem, a história. Não vou relevar quase nada. Prometo.

 

Um grupo de miúdos numa aldeia, (lembrei-me logo do filme A Coisa inspirado no romance do Stephen King, segundo a autora é a sua inspiração) a vida corre normalmente até ao dia em que acontece um grave acidente. Paramos por aqui? Deixem-me adiantar que o livro começa com a descoberta de uma cabeça de uma rapariga. Exatamente. Uma cabeça.

 

A história passa-se entre o presente (2016) e o passado (1986) pela voz do Eddie. A autora sabe diferenciar muito bem as diferentes épocas através de diversos elementos, portanto foi muito fácil situar-me. Ao contrário do que normalmente acontece, nunca me confundi e consegui entrar na história de imediato. O ritmo é perfeito para um thriller, começou lentamente, mas ganha alguma velocidade conforme avançamos. As personagens começam a fazer parte da nossa vida, queremos de facto saber o que aconteceu. Para além existem outras histórias, como é o caso da profissão pouco conservadora da mãe do Eddie ou a doença do pai dele. Há situações de ataques entre adolescentes com cenas muito fortes com referência ao livro “O Deus das Moscas”. A escritora influenciou-se nos melhores.

 

O enredo conta com várias reviravoltas e surpreende como romance de estreia da inglesa C.J.Tudor. A escrita é madura, envolvente e rica. É o melhor do livro, assim como as personagens diversificadas e intrigantes. Tenho de ressaltar negativamente alguns episódios sem o facto surpresa, algumas conversas que não acrescentam nada à história. Apesar do final me ter surpreendido não gostei das motivações dadas para o crime central. Quando lerem o livro contem-me se sentiram o mesmo. 

 

É uma leitura viciante. Lido em dois dias. Só posso recomendar. Dia 16 nas livrarias em todo o país. 

 

OS CEM MELHORES POEMAS PORTUGUESES DOS ÚLTIMOS CEM ANOS | ORGANIZADO POR JOSÉ MÁRIO SILVA

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Quero mais poesia na minha vida. Mais paz na alma, mais aconchego no coração. Quero ser desarmada e atingida com força pelas palavras. Quero que mexam e remexam as minhas emoções à flor da pele. Quero um nó tão grande na garganta que me faça gritar as mágoas. Nada melhor do que começar este ano com poesia lusófona para atrair qualidade nos trabalhosos 365 dias de 2018.

 

Esta seleção de poemas foi feita pelo José Mário Silva. Ele é critico literário no Expresso (o meu preferido, leio tudo, adoro). Esta obra é um convite a todos os leitores e não leitores de poesia. Uma porta de entrada para os que não costumam ler poesia. Uma homenagem a grandes poetas e poetisas. Acredito que muitos ficaram de fora. Mas para quem conhece pouco, como eu, será um prato cheio. 

 

O livro está dividido pela seguinte ordem: Breves Notas; Retratos; Relatos, Desacatos; Hiatos e Autores por Ordem Cronológica. O livro apesar do fraco papel usado, tem uma capa resistente e bonita. Fiquei apaixonada por vários poemas e cheia de vontade embarcar nesta viagem desconhecida da poesia. Alguns conhecia da escola, dos cadernos, por aí. Outros nomes nem por isso e foi uma surpresa encontrar novos nomes para acrescentar na minha lista de "preciso de ler". Acreditem, foi difícil escolher o poema preferido. 

 

Realço os seguintes nomes, Ruy Belo; Almada Negreiros; Maria Teresa Horta; Rui Costa; Rui Lage; Hélia Correia, Nuno Júdice; Herberto Hérder; Joaquim Cardoso Dias; Golgona Anghel; António Maria Lisboa; Mário Dionísio; Adília Lopes; Daniel Jonas; Ana Hatherly; Fernando Pessoa e os seus heterónimos. 

 

Gosto de poemas sobre o obscuro, a dor, a solidão. Gosto de poemas sobre as pessoas e o mundo. Gosto das palavras arrancadas da alma, da pele e de todo o sofrimento capaz de estar nas palavras. Gosto de não entender e reler e voltar a não entender. Gosto de sentir sem entender. Gosto de poesia e nunca pensei que gostasse tanto. 

 

Uma pergunta, porque raio o blogs.sapo.pt não reconhece a palavra "poetisa"? 

 

Escolhi um dos meus poemas preferidos com alguma dor no coração. É de uma poetisa que pretendo explorar mais este ano. 

 

Adília Lopes (p. 155)

"Não gosto tanto

de livro

como Mallarmé

parece que gostava

eu não sou um livro

e quando me dizem 

gosto muito dos seus livros

gostava de poder dizer

como o poeta Cesariny

olha

eu gostava

é que tu gostasses de mim

os livros não são feitos

de carne e osso

e quando tenho

vontade de chorar

abrir um livro

preciso de um abraço

mas graças a Deus

o mundo não é um livro

e o acaso não existe

no entanto gosto muito

de livros

 

 

Mais poesia virá por aqui. Estou com o projeto Ler Poesia em andamento juntamente com a Alexandra. Já mostrei a próxima poetisa a integrar este projeto ainda este mês no Instastories (@ClaudiaOSimoes). Para quem não sabe, o Instastories faz parte da aplicação Instagram e é só carregar na foto do perfil da pessoa em questão para assistir. 

O REINO DE FERAS | GIN PHILLIPS

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Não vamos ignorar esta capa maravilhosa. Preta e vermelha, com cavalos no carrossel, lembro-me imediatamente da música infantil que mais gosto. “Cavalinho cavalinho de papel, a correr trá lá lá, a saltar trá lá lá,…”. 

 

Uma mãe leva o seu filho de quatro anos ao Jardim Zoológico. Uma criança curiosa, inteligente e fã de super-heróis. Na hora do regresso a casa ela repara em corpos espalhados e num homem armado. Num súbito sentimento de proteção, inerente a todas as mães, volta para trás e escondem-se dentro das grandes folhas, como se estivessem numa selva. Não vou revelar o que se passa, é mais interessarem lerem e descobrirem. Nos tempos atuais é bastante possível acontecer. Infelizmente. 

 

O enredo desenvolve-se aliado a um sentimento claustrofóbico. O nervosismo miudinho instala-se, sentimos vontade de entrar na história e calar o miúdo tal é a tensão. Sem saber muito bem o que está a acontecer, ela envia mensagens ao marido e acede à internet para obter algumas respostas. É difícil manter a calma numa situação dessas, entre choro de outros bebés, perguntas insistentes do filho e perigo iminente. A ambientação do enredo é muito bem conseguida através da narrativa.

 

O que faríamos no lugar da mãe desta criança? Seriamos capaz de controlar os nervos e não sucumbir aos nervos? Até onde vai a coragem para proteger alguém? Como são sair desta situação?

 

A narrativa por vezes estende-se em descrições ou pensamentos que não acrescentam. Não há muita diversidade de acontecimentos dentro de um espaço tão limitado. Repete-se ligeiramente. Outra coisa que gostei menos foram as comparações escolhidas pela autora. Página 139, compara uma língua a um pénis, mas depois diz que a protagonista nem consegue ver bem. Tem alguns lances interessantes. Por exemplo, a história sobre o diabo e um relógio. Na forma como cada mulher olha para a maternidade. Qual é o momento perfeito para parar o relógio? 

 

O final em aberto para mim é o melhor deste livro. Gosto de finais deste género, mas normalmente estes finais são pouco consensuais. Deixou-me nervosa, irritada e comovida. Curiosa para ver as reações dos outros leitores. Não vão precisar de esperar muito, o livro sai já dia 2 de Janeiro, pela Suma de Letras. 

 

Sendo o primeiro romance de Gin Phillips, premiada com o Barnes and Noble Discover, publicada em mais de 29 países acho que temos uma promissora escritora dentro do género. Recomendo. 

 

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A EDUCAÇÃO DE ELEANOR | GAIL HONEYMAN

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Foi uma leitura irregular por conta da personalidade da Eleanor que deu conta da minha cabeça. Começa como uma espécie de romance banal ou uma comum história de amor. Fui apanhada na curva pela autora. Enganou-me muito bem. Levou-me pela mão para um lugar relativamente engraçado para me contar uma história dura e cruel. Conseguem sentir o impacto de tudo isso? Mas é um engano, apesar de difícil, bom.

 

O equilibro entre os momentos leves e os momentos pesados não foram do meu agrado. Preferia ter mais momentos pesados. Quando a Gail, a autora deste livro, coloca a emoção e a carga dramática na história deixa-me vidrada. Quando permite os dias bonitos, cheios de graça, com momentos muito similares à conhecida Bridget Jones, perde-me.

 

Conforme os dias passam maior é o impacto da Eleanor na minha vida. Ela é estranha, a estranheza tem encantado. O comum não me fascina. Eu caí no erro de julgar as suas atitudes como uma menina mimada, patética. Claro que não devemos julgar as pessoas de ânimo leve. Não fazemos a mínima ideia das lutas que travam das oito às cinco. Das histórias que guardam por trás das gargalhadas altas. Eleanor deu-me uma espécie de chapada sem mãos, com todas as letras.

 

A depressão pode estar presente e escondida, pode afetar todas as relações. Os sinais gritantes podem passar por dias maus. Solidão. Muita tristeza. Vozes na cabeça.  Dependência. Sei o que ouço por aí, presenciei ou li sobre o tema. Nunca tive depressão, nem estou confortável para escrever sobre a doença devido à falta de conhecimento. A perspetiva deste livro consegue ser angustiante e divertida.

 

Neste livro conhecemos a importância de pedir ajuda, de não julgarmos os outros, de encontrar as nossas próprias respostas e de nos perdoar. Uma grande dose de esperança e tristeza envolvida numa gargalhada e uma pitada de loucura. 

 

Definitivamente este livro daria uma excelente discussão devido às possíveis interpretações. A forma como a autora escolheu para fazer a revelação não foi a coerente com o resto da história. Foi uma espécie de vamos-encerrar-esta-historia-preciso-de-revelar-tudo. Já estava farta de roer as unhas com tanto mistério. Quando aconteceu foi muito rápido. Os próximos livros da Gail Honeyman prometem.

 

Gostei, recomendo, mas tirem da ideia que é um livro fofinho.

 

 

DEPOIS DA ESCURIDÃO A LUZ | FILIPE PITEIRA

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Filipe Piteira reinventou a forma de escrever uma autobiografia. Surpreendente e criativa. "Depois da Escuridão a Luz" é o seu mais recente trabalho lançado pelas Edições Vieira da Silva. 

 

Banhado em episódios reais e ficionados, raramente sabemos qual das duas é. Cada capitulo tem uma carta de tarot a representar uma determinada fase da vida do narrador. Começa com a carta Os Enamorados para falar sobre a sua infância e desenvolve sempre com a intenção de cruzar os seus significados. Capta o significado das cartas de forma inteligente e envolvente. Para quem tem um certo fascínio acaba por ter interesse em acompanhar a vida do narrador e em simultâneo fazer a mesma associação. Dei por mim a pensar na carta de tarot para o momento atual da minha vida.

 

Aborda as dúvidas, a relação com os outros e fama, as decisões e erros. Uma vida envolvida pela paixão pelo teatro e cinema.  Um menino decidido a abandonar a vida pacata e lutar pelos seus sonhos. Enfrenta medos, determinado segue os seus ideais. Inspirador! Comete erros e procura a rendição. A busca pelo perdão e um recomeço. Será que consegue? E como lá chega? 

 

 

"O quarto está cheio de livros espalhados, montanhas e montanhas de papéis, que se acumulam com o passar do tempo. Mas esta disposição das coisas, numa magistral desorganização, fez parte de uma opção. Era cómodo ter tudo jogado sobre a cama para substituir a presença de quem não voltaria jamais. Com o tempo, foi uma opção não desfazer as malas e, depois, outra opção não fazer mais nada. A disposição das coisas não deixa dúvida sobre os erros ao longo da vida."

 

Senti uma ligação com a história e as dúvidas expostas. O narrador toca em feridas abertas, expostas sem nenhuma máscara. No entanto, senti um toque dramático, característica preciosa para quem enfrenta os palcos e trabalha com as emoções. A narrativa recheada de contornos suaves e desviada pelos momentos amargos deixou-me emocionada até ao fim. Noto uma imensa maturidade e um desejo em crescer. Acredito que Filipe Piteira podia estar à frente de outros autores editados recentemente sem a mesma qualidade.  

 

Desejo muito sucesso e um vasto mundo de oportunidades ao Filipe Piteira.  

 

NU, DE BOTAS | ANTÓNIO PRATA

 

Pai e mãe me beijavam, apagavam a luz: o mundo desaparecia. Como ter certeza de que voltaria a existir? De que os dois não sumiriam no breu? Que garantia tinha de que não seria levado pelos monstros que, vez ou outra, apareciam nos pesadelos — eu, que ainda não sabia o que eram monstros ou pesadelos?

 

Apaixonada por este pequeno livro de crónicas não podia deixar de vos recomendar. Episódios de uma infância feliz através do olhar de Antônio Prata que conseguiu trazer do passado as memórias.

 

O menino, os cheiros e os lugares numa escrita singela e tocante. Identifiquei-me inevitavelmente com vários episódios. O medo do monstro no quarto escuro depois da minha mãe sair. Lembro-me de mim tapada até ao nariz com medo de abrir os olhos, tenho de rir.  As luzes acesas pela casa. O fogo no chão, saltos de tapete em tapete até chegar à cama com medo que o monstro me puxasse com uma mão. Saudade imensa de voltar ao esconderijo quando era a última a ser descoberta pelos amigos na rua. Subir à nespereira e ouvir ralhar da janela do vizinho.

 

As perguntas, as palavras levadas à letra. A curiosidade pelo mundo e os outros. A admiração pela mãe que consegue fazer tudo ao mesmo tempo e lhe dá segurança. A experimentação que faz parte do crescimento e da aprendizagem.

 

Este livro foi editado pela Tinta da China este ano e tem recebido rasgados elogios por parte das críticas. Um dos maiores cronistas brasileiros com mais um livro editado em Portugal intitulado "Meio Intelectual Meio de Esquerda". Sem dúvida um autor que pretendo acompanhar.

 

 

 

 (li em ebook)

 

O BIBLIOTECÁRIO DE PARIS | MARK PYROR

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Hugo, chefe de segurança da embaixada norte americana, encontra o diretor da Biblioteca Americana morto numa sala fechada. Desconfiado em relação à morte por causas naturais acaba por começar numa investigação. Vários acontecimentos desenrolam-se após a primeira morte de forma lenta, mas interessante. Apesar de não simpatizar com o protagonista devido à apática forma de levar o relacionamento com a Cláudia, acabei por ficar interessada em seguir as suas intuições e conhecer o desenlace da história. Acabei por ficar curiosa em relação ao desfecho e intrigada com tudo o que estava a acontecer. 

 

Fiquei ligeiramente desiludida com o facto de a história não abordar o tema da segunda guerra. Sinto-me enganada em relação à capa, sabem? No entanto, Paris está bem representada, adorei voltar à cidade através do livro.

 

É um livro com uma narrativa fluida, simples e uma investigação que raramente me surpreendeu.  No entanto, para intercalar entre leituras fortes e pesadas foi a melhor experiência possível. É um livro que recomendo se queres um livro sem grandes artifícios, com mistério e mortes à mistura. 

O LIVRO DE EMMA REYES | EMMA REYES

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Emma Reyes é o exemplo de alguém que não mostra rancor perante a sua vida cruel e miserável. Num tom cru, sem amargura, revela através de cartas para o amigo historiador Germán Arciniegas detalhes sobre a sua infância de emocionar qualquer um. Precisei de tempo para digerir tudo, respirar fundo. Senti revolta por ela, sendo tudo tão triste acabei por absorver essa carga durante a leitura. Vidas tão difíceis. Vidas tão miseráveis.

 

Num quarto com a sua irmã e o Menino, todos os dias de manhã precisa de despejar o penico. Cheio de fezes, carrega entre salpicos e agonia até ao depósito. Num lugar despido de móveis, luxos ou comida. A colombiana tem um olhar muito vincado sobre a sua história de menina pobre e ingénua. Sem amor, conforto, roupa e comida, passa pela miséria como quem vê a sua aldeia arder,  mas pensa ser o fogo de artificio mais bonito. O momento mais triste deste livro é tão intenso que ainda escuto os gritos de abandono. Emma pegou na tristeza e transformou em força.

 

Os adultos são sombras altas e pesadas. Indecifráveis. Mais tarde, num convento de freiras conhece o trabalho e os maus tratos. O lugar de amor está cheio de leis cruéis da fé.  Uma menina sem pais não pode ser recebida por Cristo, muito menos sonhar com um vestido branco ou ser freira. Neste convento é onde aprende a ler e a escrever e recebe pequenos gestos de carinho por parte de uma freira. Fui obrigada a questionar os valores da igreja católica perante duas meninas abandonadas. O relato é duro e sufocante. Ser espectadora destas injustiças é um tremendo desafio.

 

No final coloca-se a veracidade desta história após várias pesquisas e entrevistas. Ninguém sabe a verdade sobre a sua origem. Se por um lado temos a minuciosidade dos detalhes, por outro existem poucas provas. Eu acredito. Emma Reyes sempre fugiu da pergunta: quem era o teu pai? Já famosa e casada, sempre que recebia as visitas da irmã pedia para não ser incomodada e só voltava a dar noticias mais tarde. Ela conviveu com artistas conhecidos e teve uma vida muito diferente depois de ter fugido do convento. Verdadeira história de resiliência.

 

Recomendo muito. Este livro foi uma espécie de comboio desenfreado contra mim.

COM O MAR POR MEIO | JOSÉ SARAMAGO E JORGE AMADO

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Quanto vale uma amizade distanciada por um oceano? A amizade entre estes dois grandes nomes sonantes da literatura, José Saramago e Jorge Amado, tem uma enorme dose de admiração e apreço. Podemos confirmar através das cartas trocadas entre eles durante o período de 1992-1998. É uma amizade composta de confidências e sinceridade. É notório o carinho entre eles e a comum paixão pela escrita. Para além de um sentido de humor bastante refinado e audaz. 

Estava ansiosa para ler este livro recentemente lançado pela Companhia das Letras. Sou uma leitora apaixonada pela obra dos dois. Jorge Amado veio primeiro, na adolescência, li vários títulos. José Saramago veio mais tarde, numa fase transformadora. Ambos marcaram o meu percurso literário e são fortes influências na minha vida. Não consegui evitar as lágrimas durante a leitura. 

 

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A edição de primorosa e muito bonita. Contém fotografia, cartas digitalizadas e devidas referências. A letra do texto está azul em homenagem à cor do mar e à tinta da caneta usada nas cartas. A organização ficou a cargo da filha de Jorge Amado, Paloma Jorge Amado, Bete Capinan e Ricardo Viel. O livro foi lançado na Flip de 2017 na Flip após a extraordinária ideia de Pilar del Río de criarem a Casa Amado-Saramago. Finalmente chegou a Portugal e já podemos ler as palavras trocadas entre os dois. Que privilégio! 

 

"Já se sabe que todos os dias são bons para desejar felicidades aos amigos, mas nesta época, no limiar de um novo ano apetece rodeá-los de todos os votos benéficos e de todos os abraços carinhosos."

 

Entre alegrias e tristezas, entre conquistas e derrotas acabamos por invadir a privacidade da correspondência dos dois e transformar a experiência numa aprendizagem profunda. Não há distância possível entre uma amizade verdadeira e baseada no respeito. No final, ficou uma saudade apertada. 

 

Acabei por ler várias vezes alguns trechos e levo comigo palavras que jamais esquecerei. Recomendo muito.

leitora beta * divulgação * literatura *

contacta-me para mais informações contactoclaudiaoliveira@gmail.com

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