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AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO | MARIANA ENRÍQUEZ

por Cláudia Oliveira, em 22.06.17

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Comparada a Poe e a Bolaño, Mariana Enriquez estreia-se em Portugal com o seu livro de contos e uma capa fabulosa pela Quetzal. Confesso que fui atraída pela capa. É brutal, não é? Comprei assim que saiu. Felizmente não me arrependi, pelo contrário. Valeu a pena cada cêntimo. 

 

São doze contos obscuros e com muita crueldade misturada. A autora dá voz aos rejeitados pela sociedade: prostitutas, crianças pobres e mulheres. Mariana inspirou-se na (sua) Argentina, nas histórias que conhece e nas lendas urbanas. Assumo que não fiquei com vontade de conhecer o país depois deste livro. Fiquei chocada com algumas histórias e isso afastou-me (da mesma forma que me aproximou) das pessoas. Quando somos confrontados com a crueldade perdemos a esperança nos outros. Foi isso que aconteceu. Fiquei revoltada com o mundo e pedi justiça. E as mulheres? São o alvo? Este livro diz que sim, as mulheres e as crianças são (e acreditam ser) os bonecos da sociedade. Maltratados e no centro do ódio. 

 

Cometi o erro de ler o primeiro conto enquanto tomava o pequeno-almoço. Não o façam, se forem sensíveis como eu. Fala num menino sujo que jamais esquecerei. Uma mãe drogada, grávida de outra criança. Um menino pobre só. Apesar do mundo. Das vizinhas. Da mãe drogada. Tive de parar de mastigar e fechar o livro. Estava enojada. Nem consegui voltar a comer. Este menino marcou-me (e fiz questão de reler o conto). É de uma enorme violência. A escrita da autora torna a história mais cruel. É amarga, dura. Não poupa nos detalhes. 

 

Mas não é apenas este conto digno de recomendações. Os outros são espectaculares também. Não acredito que este seja um livro para ler de fio a pavio, mas foi exactamente isso que eu fiz. Vontade de sair do escuro imediatamente. Vamos lá ler o livro de uma só vez para poder respirar fundo. Estão a ver a ideia? Já terminei o livro há cerca de um mês. Quem é que me disse que consegui libertar-me dele? O menino sujo e a menina sem braço ainda continuam muito presentes. Parecem sombras. 

 

Mariana Enriquez passa desta forma para a lista de autoras que quero voltar a ler. Um romance, por favor. Recomendo sobretudo para quem gosta minimamente de contos e/ou ler sobre a sujidade do mundo. 

 

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