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"O JARDIM DAS BORBOLETAS" | DOT HUTCHISON

por Cláudia Oliveira, em 14.08.17

 

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Este é o primeiro de uma trilogia intitulada "Coleccionador". Começa com o pé direito, com fortes indicações de se tornar numa escritora reconhecida no seu meio. E até parece que existe uma disputa entre duas produtoras para a sua adaptação. Certamente um filme arrepiante.

 

Neste livro o nosso vilão adora coleccionar meninas. Assim que chegam ao Jardim, tatua as costas de todas com asas lindas e brilhantes. São violadas, massacradas e depois mortas. Quando mortas são embalsamadas e expostas num corredor no meio de resina. Assustador e macabro. No Jardim vivem um mundo muito próprio e com fracas hipóteses de escapar. Mas uma das raparigas foge e agora é interrogada pela policia.

 

A história é revelada aos poucos. A rapariga interrogada faz questão de contar tudo a conta gotas o que pode criar algum desconforto no leitor. Não via a hora de obter mais informação daquele lugar, o que me fez virar páginas sem parar. Confesso que sou muito ansiosa neste tipo de coisas. Fez-me estar à beira do desespero enquanto prendia a minha atenção. Bela jogada. 

 

Consegui acreditar no que me era contado. É o mais importante numa história tão estranha, não é verdade? Consegui imaginar todos os cenários e ficar enojada em alguns momentos. Certamente que este livro provoca diferentes emoções em diferentes leitores. Eu tive uma experiência de leitura muito irregular. Senti-me envolvida até metade do livro, mas a minha atenção afastou-se em determinados momentos. Tive dificuldade em conectar-me com a história e não gostei muito do final. No entanto, fascinou-me este Jardim com livros como uma espécie de escape. Podem esperar várias referências. 

 

"À noite, o Jardim era um lugar de sombras e luar, onde se podia ouvir com mais clareza todas as ilusões que o transformavam naquilo que era. Durante o dia havia conversas e movimento, às vezes jogos ou canções, e isso disfarçava o som dos canos a transportarem água e nutrientes através dos canteiros, das ventoinhas que faziam circular o ar. À noite, a criatura que era o Jardim largava a sua pele sintética para revelar o esqueleto por debaixo."

 

A beleza de uma frágil borboleta e a monstruosidade de um homem num thriller que não te vai deixar indiferente. Recomendo.

 

(livro cedido pela editora Suma de Letras)

(estejam atentos, esta semana teremos um passatempo)

 

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"DIAS ÚTEIS" | PATRÍCIA PORTELA

por Cláudia Oliveira, em 31.07.17

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Há dois anos que ando para ler algo da Patrícia Portela. Foi desta. 

 

Recentemente lançado pela Caminho, "Dias Úteis" tem pouco mais de cem páginas. Numa edição linda levou-me a uma compra por impulso. E mais uma vez não errei. Pelo contrário, é maravilhoso. Assumo que tenho algum receio em recomendar este livro. Tem pouco de linear e tradicional. Precisamos de sair da zona de conforto e dar lugar a novas vozes na literatura portuguesa.

 

Antes de começar a semana, temos um conto espectacular sobre o dia do GRANDE jogo. O mundo pára para ver o grande jogo. A ironia é presente nas palavras inquietantes que nos representam. Uma linguagem recriada, estendida para a filosofia, várias metáforas e alegorias.  Dias que perdemos aqui e acolá, e assim se passa mais uma semana. 

 

Um livro para reler. Um livro que acrescenta, nos vira do avesso e nos deixa a pensar. Que mais queremos nós da literatura? Foi uma leitura intensa e curta. Sobre isto de ocupar os dias, (in)conformados. Um conto por cada dia da semana. 

 

"somos todos zombies, nem carne, nem peixe, nem vivos, nem mortos, e não há plano de contingência para tamanha catástrofe natural."

 

Recomendado. Vou ler certamente mais livros da autora.

 

(livro comprado com algum risco)

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"AS IMPERTINÊNCIAS DO CUPIDO" | ANA GIL CAMPOS

por Cláudia Oliveira, em 31.07.17

 

Foi a capa que despertou o meu interesse por este livro. Uma coisa leva a outra, acabei a virar do avesso o blog da autora Ana Gil Campos e consequentemente o interesse aumentou. Este não é o seu primeiro romance, já editou outros dois, todos com títulos bastante sugestivos e capas bonitas. "As Impertinências do Cupido" foi lançado pela Coolbooks em junho. 

 

Episódios amorosos em tempos modernos. Num ambiente familiar, num bairro Itaim Bibi, em São Paulo, onde as personagens acabam por se cruzar. Certamente que reconhecemos um ou outro casal próximo ou sentimos alguma identificação com algum diálogo. Acabamos a sorrir com algumas histórias e incomodadas com outras.

 

Curto, conciso e escrito de forma leve como uma bebida fresca no verão à beira da piscina. A autora não dá espaço para o leitor mergulhar nas histórias nem criar uma ligação com as personagens. 13 histórias muito breves que se lê numa tarde de verão. 

 

Mulheres inseguras e decididas, homens ciumentos e namoradeiros. Encontros e desencontros. Mensagens e convites para jantar. Redes sociais pelo meio, escolhas erradas e desejos casuais. Pessoas um bocadinho loucas, talvez demasiado concentras no amor e nas paixões perdidas. Será o amor sobrestimado?

 

Gostei, mas não é memorável. 

 

(livro cedido pela autora)

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Memorizem este nome, Raquel Gaspar Silva. Ainda vamos ouvir falar muito nela. O seu primeiro livro editado recentemente pela Elsinore intitula-se "Fábrica de Melancolias Suportáveis". Que título maravilhoso é este? E esta edição fantástica? A primeira vez que ouvi falar na autora foi numa visita à editora, sabia que uma mulher portuguesa seria editada brevemente pela Elsinore. Sabia o seu nome e que a história do seu livro se passava no Alentejo. Esperei expectante durante algumas semanas. Quando meti os olhos no livro, num passeio inesperado, comprei-o por impulso. 

 

Vamos fazer assim, não vos vou entregar a história. Vou revelar apenas a experiência de leitura. Podem aproveitar, clicar no play do vídeo e ouvir um excerto. Uma passagem que define claramente a escrita da autora.

 

Este livro é pequeno, lamentei o número de páginas de tão maravilhoso, mas tem o tamanho certo. No fim reli as minhas passagens preferidas, andei com o livro de um lado para o outro mais uma quantidade de dias. Adiei este texto na expectativa de descobrir a dimensão do impacto deste livro na minha vida. 

 

Um livro pequeno pode guardar muitas histórias. É este o caso. Revelou-se uma enorme surpresa, talvez a maior surpresa do meu ano. Raquel Gaspar Silva revela uma enorme maturidade na sua prosa poética. Foi exactamente o texto rebuscado que mais me fascinou. Uma história que revela pouco, com várias interpretações.

 

Carlota é o nome da nossa protagonista. É a história da própria Carlota contada através das imagens que guarda dos outros. Fotografias mentais que parecem distantes e nubladas. A interpretação é nossa e aposto que será diferente para cada leitor. Meias palavras, histórias nas entrelinhas. A história não é entregue aos leitores na totalidade. Fica a sensação que a Carlota tem uma fábrica extensa de memórias melancólicas  (como indica o título) e cativantes (na minha perspectiva). 

 

"A mãe era pequena, de troço no cabelo e vestidos de flores miudinhas, personalidade simples e ambições leves como um coelho. Suportava sem embaraço o sabor da autoridade paterna, não participando dos cálculos de gestão domésticos, pois a sua tarefa era zelar pelos filhos em recatada manifestação de amor. Assim aprendera: não ser abertamente expressiva para que ninguém a julgasse excêntrica. Toda ela era a complacência do jugo matrimonial."

 

Vi muito do nosso país,  das nossas tradições. Das famílias numerosas e das suas casas ao cheiro da terra debaixo do sol tórrido. Para além de visceral, foi uma leitura quase visual. Foi inevitável ir ao baú das minhas memórias enquanto lia este livro. 

 

Na medida certa, com uma narrativa surpreendente e capaz de emocionar, este livro deixa a sua marca. Recomendo imenso.  

 

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"DOCE CANÇÃO" | LEILA SLIMANI

por Cláudia Oliveira, em 13.07.17

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Requisitado na biblioteca, com o privilegio de ser a primeira, este livro foi uma leitura surpreendente e agoniante. 

 

Infanticídio. Baseado numa história verídica, uma ama mata duas crianças. Começamos pelo final logo nas primeiras páginas, já sabemos como a história termina. E isso não estraga a leitura, queremos saber o que se passou e o que despontou aquele crime.Não sei como é que a autora fez isto, mas não consegui parar de ler. Presa à crueldade, ao realismo dos acontecimentos. E o título? Fui tão bem enganada, senhores. 

 

Mãe de dois filhos, Myriam quando volta a trabalhar precisa de contratar uma ama. Ela e o marido contratam a Louise, uma mulher muito simpática e habilidosa com as crianças.  Tudo parece perfeito, a Louise faz parte da família, é uma peça indispensável naquela família. Conforme a história avança, vemos que não é bem assim. Alias, já conhecemos o desfecho. 

 

Leiam, sinceramente acho que a sinopse já é motivo mais do que suficiente. É envolvente e visceral. Conhecemos histórias de violência contra as crianças diariamente, no entanto este tema sensível é pouco abordado na literatura de forma tão crua e brutal. É também abordada a forma como a mãe destas duas crianças vive a maternidade e o desejo de ser profissionalmente activa. A pressão da sociedade. A forma como os parentes e pessoas próximos se afastam. A maternidade é de facto um turbilhão de emoções. Infelizmente estas situações são mais frequentes do que podemos imaginar. 

 

A maternidade exige pais presentes e dedicados. A sociedade exige sucesso e profissionalismo. É uma luta interior constante em busca uma perfeição impossivel e esgotante. 

 

"A pílula nunca é cem por cento infalivel", dizia, rindo diante das amigas, Na verdade, planeara aquela gravidez. "

 

"Tinha inveja do marido. Ao fim do dia, esperava-o febrilmente atrás da porta. Passava uma hora a queixar-se dos gritos dos meninos, do tamanho do apartamento, da sua falta de tempo livre."

 

" A solidão agia como uma droga da qual ela não tinha a certeza de se querer privar. Louise errava pelas ruas, pasmada, com os olhos tão arregalados, que até doíam."

 

A história real no qual a autora baseia este romance aconteceu em 2002, em NY. Yoselyne esfaqueou duas crianças que estavam ao seu cuidado, uma de seis e outra de dois anos. A ama ficou com raiva da patroa por lhe ter pedido para fazer trabalhos domésticos. Arrepiante. 

 

Uma canção doce cantada ao ouvido de uma criança em contraste com o que de pior tem o ser humano. Pais desta vida, preparem o vosso coração. 

 

Recomendo imenso. 

 

(livro requisitado na biblioteca)

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"Café Amargo" é uma saga familiar passada na Sicília nos finais do século XIX e inicio do século XX. Atravessa períodos históricos importantes como a entrada da Itália para a segunda guerra mundial. Este livro é muito rico em informações sobre o contexto político e social, é um prato cheio para os amantes do romance histórico. É uma leitura muito agradável, as páginas voam e somos levemente transportados para o ambiente siciliano. 

 

A histórica vai focar-se na história de Maria. Acompanhamos a sua vida desde o momento em que o Pietro se apaixona perdidamente por ela, a pede em casamento, até à fase adulta. Maria é uma mulher com vontade de aprender a ler e escrever e adora música. Paixões que não quer abrir mão após o casamento. Entre outras condições que anuncia antes de aceitar o pedido. 

 

Não sendo eu uma grande apreciadora do género fiquei presa ao enredo e acabei por ligar-me às personagens. Confesso que não gostei de algumas escolhas da protagonista, nem adorei o romance central. Não posso revelar detalhes para não escapar informações fulcrais sobre o desenvolvimento do enredo. É tão bom quando somos surpreendidos, não é? O meu interesse foi de facto o contexto político-social e toda a informação que absorvi. Desde o papel da mulher dentro e fora de casa, assim como a maternidade, temas com uma abordagem histórica interessante e pouco maçuda. No entanto, bem explorados, na quantidade certa. 

 

Fiquei ligeiramente triste porque a personagem mais interessante aparece três vezes no máximo. A primeira cena é tão maravilhosa que fiquei a desejar por mais. É uma mulher louca, internada num hospício. Gostaria de ter lido mais sobre ela. Em relação às restantes personagens, consegui imaginar cada uma. São personagens com caracteristicas muito realistas, palpaveis. A Maria tem defeitos e qualidades, o que a torna mais próximas dos leitores. Tem sonhos que considero importantes e pouco comuns para mulheres na sua posição. 

 

"Haveria de criar uma escola onde os serviçais pudessem estudar. A começar pelos da sua própria casa. Sim, aquela era a sua missão: ensinar os adultos a ler e a escrever."

 

Ao longo da vida, em silêncio, bebemos alguns cafés amargos com a certeza de um dia adoçarmos a amargura dos momentos. Nem sempre quem está calado, aceita. Nem sempre quem aceita pretende continuar a aceitar o resto da vida. É um livro para saborear de duas formas. De um só trago, como um café amargo ou devagar, se gosta de um bom café quente. 

 

Recomendo. 

 

(livro cedido pela editora)

 

 

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"O CASTELO DE VIDRO" | JEANNETTE WALLS (texto + vídeo)

por Cláudia Oliveira, em 10.07.17
 

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Quantos anos tem a nossa memória mais antiga? Acho que a minha memória mais antiga foi guardada quando tinha seis anos. Alguém recorda os primeiros anos da sua vida? Dificilmente, não é? Na gaveta das memórias quantas recordações escondes e preferias apagar? 
 
Jeannette Walls é neste momento uma jornalista famosa, neste livro acompanhamos a sua vida, sobretudo a forma como foi educada. Enquanto cresce, passa por várias experiências de negligência por parte dos pais. São adultos problemáticos, roubam, bebem, não trabalham. Permitem que os seus filhos passem fome. Mudam de casa frequentemente, arrastam consigo as três crianças (mais tarde quatro) na esperança de encontrar ouro e construir um castelo de vidro. 
 
Este livro começa quando a Jeannette têm três anos. O seu vestido cor de rosa pega fogo enquanto cozinha salsichas no fogão em cima de um banco. Ela é transportada para o hospital com queimaduras graves. No hospital é tratada com muito cuidado por toda a equipa médica. Sente-se tão feliz que  não se importava de ficar ali para sempre. Ali a comida não acaba e pode comer pastilhas elásticas.  A Jeannette recebe as visitas dos pais e irmãos frequentemente até ao dia que regressa a casa pronta para voltar a cozinhar. 
 
É difícil gostar dos pais da autora. É uma família fascinante ligada por laços afectivos e ao mesmo tempo com reacções egoístas. Com traços de ternura e de crueldade. As pessoas não são apenas uma coisa. São feitas de defeitos, recortes de sofrimento e delicados sonhos. O que mais me fascinou foi o misto de emoções ao longo de todas as páginas. As lágrimas apareceram já na fase final do romance durante uma conversa entre a Jeannette e o pai. Antes, várias vezes, interrompi a leitura para processar o que tinha acabado de ler. É incrível a coragem da autora em expor a sua infância dura de forma tão crua. Ela acaba por atingir os seus sonhos e tornar-se escritora. Foi fruto da educação?
 
"Eu tinha apenas três vestidos, todos usados, de uma loja de artigos em segunda mão, o que significava que todas as semanas tinha de usar dois deles duas vezes."
 
Adorei a irmã dela mais velha, a Lori. Uma menina madura, capaz de aceitar a vida que lhe é dada. Inteligente, ficada nos objectivos e uma enorme capacidade de protecção. É a primeira a proteger os irmão da realidade. Os irmãos têm uma ligação bonita, fiquei arrepiada nos momentos onde a cumplicidade é mais evidente. 
 
"Lori era a leitora mais obsessiva. Fantasia e ficção cientifica, em especial O Senhor dos Anéis. Quando não estava a ler, estava a desenhar orcs ou hobbits. Tentava pôr toda a gente da família a ler livros."
(não é maravilhoso?)
 
O castelo de vidro representa os sonhos. A capacidade de sonhar, apesar das dificuldades da vida. Uma vontade de fugir dos padrões, de não pertencer ao sistema e encontrar um mundo sem regras e condicionantes. Uma família unida, sem o final feliz que gostaríamos. A realidade sem floreados apesar de pequenos apontamentos de esperança e amor. 
 
Ri e chorei. Recomendo, sem dúvida. 
 
(livro cedido pela editora)
 

 

 
 

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"A CONTRALUZ" | RACHEL CUSK

por Cláudia Oliveira, em 25.06.17

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Rachel Cusk já é escreveu nove romances, mas só agora conheci o trabalho da autora com o primeiro livro de uma trilogia recentemente lançado pela Quetzal. Em 2003 foi escolhida pela Granta como uma das melhores jovens romancistas. Na altura tinha apenas 37 anos. Recebeu com este romance rasgados elogios pelos vários meios de comunicação e críticos literários. Foi finalista do Prémio Baileys em 2015.
 
'Se passar algum tempo a ler este romance, ficará convencido de que Rachel Cusk é uma das mais inteligentes escritoras vivas.'
New York Book Review 
 
Uma mulher viaja durante o verão até à Atenas para dar aulas de escrita criativa. Perante esta experiência conhece várias pessoas e recolhe outras histórias. São diálogos que mostram o que a maioria pensa e ninguém revela. Algumas mentiras e falsos moralismos. Várias verdades e cruéis revelações. 
 
Temos a nossa professora de escrita criativa debruçada sobre vários assuntos. Desde a escrita e as diversas formas de escrever. Várias referências literárias. Os pensamentos mais íntimos de quem passa por si ao longo da viagem e desabafa sobre os seus anteriores casamentos. De salientar que a protagonista passa por um processo de divórcio e está a renovar energias. Uma espécie de resumo, do que esteve recalcado ao longo do seu casamento. Mostra as feridas. Questiona qual a forma ideal para manter um casamento, um lar. Como é ser mãe,  como é recomeçar do zero. Uma experiência de perda que não dá para evitar numa situação dessas. 
 
Tem uma das passagens mais bonitas sobre a reconfortante sensação de paz. Entre um mergulho e uma visão sobre o sol e o mar. Já reli a passagem dezenas de vezes e consigo sempre sentir a plenitude daquelas palavras. 
 
Conviver é cada vez mais difícil. Encontrar pessoas interessantes passa a ser um jogo labiríntico. É preciso procurar, ir atrás. Quando tentamos forjar a nossa própria felicidade teremos um castigo dado pelo destino, como um alerta. Adoro a ideia que ela transpõe acerca do casamento. Não somos nunca nós mesmos,  há uma impossibilidade de descobrir por vivermos através de outra pessoa. Há diversas condicionantes alheias que afectam sempre a nossa forma de agir. 
 
A maternidade é outra tema abordado e que mexeu muito comigo. É impossível ficar indiferente às suas palavras sobre a sua mãe e os seus filhos. Foi um livro que me acrescentou. Deu aquele frio na barriga. Apoderou-se dos meus pensamentos. Sacudiu-me, mostrou-me que não estou sozinha. Há melhor missão para a literatura? Não creio. 
 
Anseios, absolutos anseios entre divagações e conversas interessantíssimas. Senti-me num barco, rodeada de boa bebida e excelentes conversas enquanto via o pôr do sol. Desejei ter amigos iguais às personagens. Senti-me ligada.
 
Livro esplendoroso. É um quadro gigante de vozes e pensamentos com pinceladas de realidade. Terminei e quis reler. Hoje quando escrevia este texto, reli várias passagens e perdi-me novamente. 
 
Por favor, anseio pelo segundo e terceiro. 
 

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AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO | MARIANA ENRÍQUEZ

por Cláudia Oliveira, em 22.06.17

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Comparada a Poe e a Bolaño, Mariana Enriquez estreia-se em Portugal com o seu livro de contos e uma capa fabulosa pela Quetzal. Confesso que fui atraída pela capa. É brutal, não é? Comprei assim que saiu. Felizmente não me arrependi, pelo contrário. Valeu a pena cada cêntimo. 

 

São doze contos obscuros e com muita crueldade misturada. A autora dá voz aos rejeitados pela sociedade: prostitutas, crianças pobres e mulheres. Mariana inspirou-se na (sua) Argentina, nas histórias que conhece e nas lendas urbanas. Assumo que não fiquei com vontade de conhecer o país depois deste livro. Fiquei chocada com algumas histórias e isso afastou-me (da mesma forma que me aproximou) das pessoas. Quando somos confrontados com a crueldade perdemos a esperança nos outros. Foi isso que aconteceu. Fiquei revoltada com o mundo e pedi justiça. E as mulheres? São o alvo? Este livro diz que sim, as mulheres e as crianças são (e acreditam ser) os bonecos da sociedade. Maltratados e no centro do ódio. 

 

Cometi o erro de ler o primeiro conto enquanto tomava o pequeno-almoço. Não o façam, se forem sensíveis como eu. Fala num menino sujo que jamais esquecerei. Uma mãe drogada, grávida de outra criança. Um menino pobre só. Apesar do mundo. Das vizinhas. Da mãe drogada. Tive de parar de mastigar e fechar o livro. Estava enojada. Nem consegui voltar a comer. Este menino marcou-me (e fiz questão de reler o conto). É de uma enorme violência. A escrita da autora torna a história mais cruel. É amarga, dura. Não poupa nos detalhes. 

 

Mas não é apenas este conto digno de recomendações. Os outros são espectaculares também. Não acredito que este seja um livro para ler de fio a pavio, mas foi exactamente isso que eu fiz. Vontade de sair do escuro imediatamente. Vamos lá ler o livro de uma só vez para poder respirar fundo. Estão a ver a ideia? Já terminei o livro há cerca de um mês. Quem é que me disse que consegui libertar-me dele? O menino sujo e a menina sem braço ainda continuam muito presentes. Parecem sombras. 

 

Mariana Enriquez passa desta forma para a lista de autoras que quero voltar a ler. Um romance, por favor. Recomendo sobretudo para quem gosta minimamente de contos e/ou ler sobre a sujidade do mundo. 

 

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Este livro fala no primeiro amor. Diria, na primeira paixão. Na existência de química entre duas pessoas. É a história do Henry e da primeira vez em que se apaixona. Do seu primeiro beijo, do primeiro momento mágico e frio na barriga. Ele conhece a Grace no dia em que ambos são escolhidos para coordenar o jornal da escola . Ela é considerada uma miúda estranha, veste roupa muito larga e anda apoiada numa bengala. A Grace é a estrela deste livro. A sua estranheza acaba por conquistar e marcar o seu carácter.  

 

O Henry é um miúdo cheio de dúvidas, com pouca autoconfiança e muito carente. Foi a primeira vez que viu um rapaz com constantes ataques nervosos em relação à sua paixoneta. Normalmente é a menina a fazer esse papel em quase todas as historias de amor . Aqui é tudo invertido e funciona. Afinal os rapazes no mundo inteiro não são todos fortes e confiantes. Mas o que é original no começo, acaba por ser irritante no desenrolar da trama. Ele é extremamente carente. Em alguns momentos pensa que o facto de serem namorados dá-lhe o direito de dizer que a Grace é dele. Não é. Ninguem é de ninguém. Isso não é romântico.

 

Há um momento  mágico, como acontece no cinema, muito bem descrito entre o casalinho . Adorei, é o meu momento preferido neste livro. Tem tudo a ver com os peixes da capa, mas não vou contar. É genuíno, trouxe um bocadinho aqueles momentos de adolescente guardados eternamente na caixinha das recordações. Trouxe do passado o sabor doce das primeiras paixões.  As mensagens trocadas pelos dois são muito fofas. Existem diversas referencias à cultura pop dos adolescentes dos tempos modernos. Redes sociais, cinema e música estão no mote das conversas dos dois e dos amigos. Adorei o facto do talento para a escrita ser abordado. No meu tempo não existiam jornais na escola. Uma pena. 

 

A escrita da autora é cativante.  Muito criativa, existe equilíbrio entre o drama e a leveza do primeiro beijo. Quando a historia da Grace começa a ser desvendada o livro não perde o interesse. Somos confrontados com um assunto muito delicado, a perda, o luto. A forma como as pessoas sofrem e continuam a viver com a dor. Talvez seja um pouco estranho, mas tudo o que é diferente acaba por provocar esse estranhamento. 

 

Não é um livro igual aos outros livros para adolescentes com histórias de amor. Tem vários elementos que o distingue. A carência do rapaz, a objectividade da rapariga. As famílias diferentes de ambos, uma é muito liberal, a outra é confusa e problemática. A capacidade de superação após um desgosto. O primeiro amor, aquele que acreditamos ser eterno.   

 

 Foi uma boa surpresa e estou convencida que muitos adolescentes vão adorar esta história. 

 

(livro cedido pela editora)

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