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"A CONTRALUZ" | RACHEL CUSK

por Cláudia Oliveira, em 25.06.17

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Rachel Cusk já é escreveu nove romances, mas só agora conheci o trabalho da autora com o primeiro livro de uma trilogia recentemente lançado pela Quetzal. Em 2003 foi escolhida pela Granta como uma das melhores jovens romancistas. Na altura tinha apenas 37 anos. Recebeu com este romance rasgados elogios pelos vários meios de comunicação e críticos literários. Foi finalista do Prémio Baileys em 2015.
 
'Se passar algum tempo a ler este romance, ficará convencido de que Rachel Cusk é uma das mais inteligentes escritoras vivas.'
New York Book Review 
 
Uma mulher viaja durante o verão até à Atenas para dar aulas de escrita criativa. Perante esta experiência conhece várias pessoas e recolhe outras histórias. São diálogos que mostram o que a maioria pensa e ninguém revela. Algumas mentiras e falsos moralismos. Várias verdades e cruéis revelações. 
 
Temos a nossa professora de escrita criativa debruçada sobre vários assuntos. Desde a escrita e as diversas formas de escrever. Várias referências literárias. Os pensamentos mais íntimos de quem passa por si ao longo da viagem e desabafa sobre os seus anteriores casamentos. De salientar que a protagonista passa por um processo de divórcio e está a renovar energias. Uma espécie de resumo, do que esteve recalcado ao longo do seu casamento. Mostra as feridas. Questiona qual a forma ideal para manter um casamento, um lar. Como é ser mãe,  como é recomeçar do zero. Uma experiência de perda que não dá para evitar numa situação dessas. 
 
Tem uma das passagens mais bonitas sobre a reconfortante sensação de paz. Entre um mergulho e uma visão sobre o sol e o mar. Já reli a passagem dezenas de vezes e consigo sempre sentir a plenitude daquelas palavras. 
 
Conviver é cada vez mais difícil. Encontrar pessoas interessantes passa a ser um jogo labiríntico. É preciso procurar, ir atrás. Quando tentamos forjar a nossa própria felicidade teremos um castigo dado pelo destino, como um alerta. Adoro a ideia que ela transpõe acerca do casamento. Não somos nunca nós mesmos,  há uma impossibilidade de descobrir por vivermos através de outra pessoa. Há diversas condicionantes alheias que afectam sempre a nossa forma de agir. 
 
A maternidade é outra tema abordado e que mexeu muito comigo. É impossível ficar indiferente às suas palavras sobre a sua mãe e os seus filhos. Foi um livro que me acrescentou. Deu aquele frio na barriga. Apoderou-se dos meus pensamentos. Sacudiu-me, mostrou-me que não estou sozinha. Há melhor missão para a literatura? Não creio. 
 
Anseios, absolutos anseios entre divagações e conversas interessantíssimas. Senti-me num barco, rodeada de boa bebida e excelentes conversas enquanto via o pôr do sol. Desejei ter amigos iguais às personagens. Senti-me ligada.
 
Livro esplendoroso. É um quadro gigante de vozes e pensamentos com pinceladas de realidade. Terminei e quis reler. Hoje quando escrevia este texto, reli várias passagens e perdi-me novamente. 
 
Por favor, anseio pelo segundo e terceiro. 
 

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AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO | MARIANA ENRÍQUEZ

por Cláudia Oliveira, em 22.06.17

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Comparada a Poe e a Bolaño, Mariana Enriquez estreia-se em Portugal com o seu livro de contos e uma capa fabulosa pela Quetzal. Confesso que fui atraída pela capa. É brutal, não é? Comprei assim que saiu. Felizmente não me arrependi, pelo contrário. Valeu a pena cada cêntimo. 

 

São doze contos obscuros e com muita crueldade misturada. A autora dá voz aos rejeitados pela sociedade: prostitutas, crianças pobres e mulheres. Mariana inspirou-se na (sua) Argentina, nas histórias que conhece e nas lendas urbanas. Assumo que não fiquei com vontade de conhecer o país depois deste livro. Fiquei chocada com algumas histórias e isso afastou-me (da mesma forma que me aproximou) das pessoas. Quando somos confrontados com a crueldade perdemos a esperança nos outros. Foi isso que aconteceu. Fiquei revoltada com o mundo e pedi justiça. E as mulheres? São o alvo? Este livro diz que sim, as mulheres e as crianças são (e acreditam ser) os bonecos da sociedade. Maltratados e no centro do ódio. 

 

Cometi o erro de ler o primeiro conto enquanto tomava o pequeno-almoço. Não o façam, se forem sensíveis como eu. Fala num menino sujo que jamais esquecerei. Uma mãe drogada, grávida de outra criança. Um menino pobre só. Apesar do mundo. Das vizinhas. Da mãe drogada. Tive de parar de mastigar e fechar o livro. Estava enojada. Nem consegui voltar a comer. Este menino marcou-me (e fiz questão de reler o conto). É de uma enorme violência. A escrita da autora torna a história mais cruel. É amarga, dura. Não poupa nos detalhes. 

 

Mas não é apenas este conto digno de recomendações. Os outros são espectaculares também. Não acredito que este seja um livro para ler de fio a pavio, mas foi exactamente isso que eu fiz. Vontade de sair do escuro imediatamente. Vamos lá ler o livro de uma só vez para poder respirar fundo. Estão a ver a ideia? Já terminei o livro há cerca de um mês. Quem é que me disse que consegui libertar-me dele? O menino sujo e a menina sem braço ainda continuam muito presentes. Parecem sombras. 

 

Mariana Enriquez passa desta forma para a lista de autoras que quero voltar a ler. Um romance, por favor. Recomendo sobretudo para quem gosta minimamente de contos e/ou ler sobre a sujidade do mundo. 

 

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Este livro fala no primeiro amor. Diria, na primeira paixão. Na existência de química entre duas pessoas. É a história do Henry e da primeira vez em que se apaixona. Do seu primeiro beijo, do primeiro momento mágico e frio na barriga. Ele conhece a Grace no dia em que ambos são escolhidos para coordenar o jornal da escola . Ela é considerada uma miúda estranha, veste roupa muito larga e anda apoiada numa bengala. A Grace é a estrela deste livro. A sua estranheza acaba por conquistar e marcar o seu carácter.  

 

O Henry é um miúdo cheio de dúvidas, com pouca autoconfiança e muito carente. Foi a primeira vez que viu um rapaz com constantes ataques nervosos em relação à sua paixoneta. Normalmente é a menina a fazer esse papel em quase todas as historias de amor . Aqui é tudo invertido e funciona. Afinal os rapazes no mundo inteiro não são todos fortes e confiantes. Mas o que é original no começo, acaba por ser irritante no desenrolar da trama. Ele é extremamente carente. Em alguns momentos pensa que o facto de serem namorados dá-lhe o direito de dizer que a Grace é dele. Não é. Ninguem é de ninguém. Isso não é romântico.

 

Há um momento  mágico, como acontece no cinema, muito bem descrito entre o casalinho . Adorei, é o meu momento preferido neste livro. Tem tudo a ver com os peixes da capa, mas não vou contar. É genuíno, trouxe um bocadinho aqueles momentos de adolescente guardados eternamente na caixinha das recordações. Trouxe do passado o sabor doce das primeiras paixões.  As mensagens trocadas pelos dois são muito fofas. Existem diversas referencias à cultura pop dos adolescentes dos tempos modernos. Redes sociais, cinema e música estão no mote das conversas dos dois e dos amigos. Adorei o facto do talento para a escrita ser abordado. No meu tempo não existiam jornais na escola. Uma pena. 

 

A escrita da autora é cativante.  Muito criativa, existe equilíbrio entre o drama e a leveza do primeiro beijo. Quando a historia da Grace começa a ser desvendada o livro não perde o interesse. Somos confrontados com um assunto muito delicado, a perda, o luto. A forma como as pessoas sofrem e continuam a viver com a dor. Talvez seja um pouco estranho, mas tudo o que é diferente acaba por provocar esse estranhamento. 

 

Não é um livro igual aos outros livros para adolescentes com histórias de amor. Tem vários elementos que o distingue. A carência do rapaz, a objectividade da rapariga. As famílias diferentes de ambos, uma é muito liberal, a outra é confusa e problemática. A capacidade de superação após um desgosto. O primeiro amor, aquele que acreditamos ser eterno.   

 

 Foi uma boa surpresa e estou convencida que muitos adolescentes vão adorar esta história. 

 

(livro cedido pela editora)

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"ESCRITO NA ÁGUA" | PAULA HAWKINS

por Cláudia Oliveira, em 09.06.17

 

Dia 10 e 11 os fãs da autora vão ter a oportunidade de pedir um autografo à autora Paula Hawkins na Feira do Livro de Lisboa. O seu mais recente livro foi lançado pela editora 20|20 e saltou de imediato para 1º lugar do top de vendas. Era de facto um dos livros mais aguardados este ano. 

 

Este livro passa-se numa vila pequena. Nesse lugar existe um rio onde acontecem várias mortes de mulheres. Daí o nome pelo qual é conhecido, "Poço das Afogadas". Logo nas primeiras páginas temos a morte da Nel. Ninguém sabe ao certo se foi um acidente ou um assassinato. Nel era uma mulher deslumbrada com as histórias passadas em torno daquele lugar. E isso fica evidente ao longo da história. Ela escreve e vive intensamente o fenómeno misterioso. 

 

Preparem-se, vão conhecer muitas personagens. Terminada a leitura, duas semana depois, só me lembro de uma  personagem. As personagens são pouco simpáticas. Não senti empatia por nenhuma. Não senti a energia, só a arrogância. Aliás, no inicio pode ser um bocadinho difícil entrar na história devido à constante troca de pontos de vista. No entanto, recordo-me muito bem da história, da investigação e da permanente carga pesada do ambiente.

 

Este é melhor do que o primeiro grande sucesso. A autora cresceu, saiu da sua zona de conforto e arriscou. Prezo muitos essas qualidades num escritor. A escrita é intrincada, mais complexa. Este livro marcou-me um bocadinho mais do que o anterior. Nem devia fazer comparações, mas é só para entenderem que "A Rapariga no Comboio" não faz parte dos meus livros preferidos. Nem de perto. Reconheço as suas qualidades como thriller, mas não provocou impacto na minha vida. 

 

Para um thriller o seu ritmo fica aquém das expectativas, é muito lento. Demorei cerca de cinco dias para ler este livro. Tempo suficiente para criar uma ligação com as personagens. Errado. Não criei. Fiquei fascinada com os suicídios, com a água pura, as vozes das mulheres. As injustiças criadas à volta das mulheres. Que tema absolutamente aterrorizador e actual. Pano para mangas. 

 

O desfecho foi surpreendente q.b.. Temi durante o livro inteiro que a autora fosse preguiçosa nas últimas páginas. Pelo contrário. Foi um final interessante, diferente. Encaixou perfeitamente na história. E a quantidade de teorias que engendrei? Nem vos passa pela cabeça.

 

A autora trouxe uma lufada de ar fresco com o primeiro livro, no entanto o ar adensou-se e já não está tão fresco assim.  

 

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"O PRODÍGIO" | EMMA DONOGHUE

por Cláudia Oliveira, em 07.06.17

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Emma Donoghue apresenta agora um registo diferente no seu último romance. O "O Quarto de Jack" fez imenso sucesso e o filme ainda recebeu uma nomeação ao Oscar como melhor argumento adaptado. Aliás, o filme é brutal. Filme de qualidade e obrigatório. 

 

Desta vez vamos até à Irlanda do século XIX com uma nova protagonista chamada Anna. Ela tem onze anos, afirma que está sem comer desde o dia do seu último aniversario, há quatro meses.Os pais parecem muito calmos com toda a situação. Lib Wright é uma enfermeira inglesa contratada para cuidar dela numa tentativa de desmascarar a situação. Não existem dúvidas que Anna está no meio de uma grande mentira, mas ninguém sabe em que condições. Por outro lado temos o povo que acredita numa espécie de milagre, numa criança prodígio. Como é que a Anna consegue sobreviver nestas circunstâncias? Precisam de ler para descobrir.

 

O mais impressionante neste romance é o facto de ser inspirado em factos reais. O pano histórico também é cativante. Uma Irlanda fragilizada, entre 1845-1849, pela Grande Fome. Um período de fome, doenças e emigração em massa. Um país triste, melancólico. 

 

Há uma linha ténue que separa a ingenuidade da mentira. A fé distingue os indivíduos. A força da religião separa grandes povos. São necessárias crenças e mitos para segurar vidas perdidas. Onde está o limite? As pessoas precisam de acreditar em milagres. Precisam de acreditar em alguma coisa para continuarem. 

 

A história absorveu-me, encheu-me de dúvidas. Estava interessada no que se passava dentro daquela casa. Comecei logo a criar teorias e a ficar nervosa com o fanatismo religioso. Incomoda-me tudo o que seja extremista e sexista. Incomodou-me imenso a atitude dos pais perante a situação.

 

A história estende-se muito na discussão sobre a mentira e a verdade. A enfermeira repete as suas dúvidas exaustivamente. Os diálogos longos dão algum ritmo à história que é bastante lenta. Os capítulos longos não ajudam na dinâmica e no mistério. 

 

Há uma ligeira evolução da autora, gostei mais da narrativa deste apesar dos personagens serem menos cativantes. Estou desconfiada que este romance vai apanhar desprevenidos os fãs do primeiro grande sucesso. A autora mostra habilidade num registo diferente, superou as minhas expectativas e deixou-me a desejar por mais. Agora queremos o filme. 

 

Dia 8 nas livrarias. 

(livro cedido pela editora)

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ENTREVISTA À AUTORA ANABELA MOTA RIBEIRO

por Cláudia Oliveira, em 01.06.17

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 Foto de: Clara Azevedo

 

A primeira vez nunca esquecemos. Iniciamos em junho um novo espaço no blog "A Mulher que Ama Livros" dedicado às entrevistas breves e concisas, de forma a dar conhecer um pouco mais do trabalho feito em Portugal pelos nossos. Sempre foi um foco, "ler os nossos". Partilhar os nossos.

 

É um privilégio começar com uma autora portuguesa, talentosa, criativa e dinâmica. Fez rádio, é jornalista, coordena e modera debates sobre livros. Assina juntamente com o escritor Agualusa o programa da Feira do Livro do Porto (já viram o programa fabuloso para este ano?). O seu mais recente livro "A Flor Amarela" foi editado pela Quetzal em Fevereiro deste ano. Anabela Mota Ribeiro estará na Feira do Livro no dia 4 e 17 de junho. Foi um privilégio enorme fazer esta entrevista e conhecer um pouco mais a autora. Entretanto descobri que fiz o caminho ao contrário, devia ter lido "Memórias Póstumas de Brás Cubas" primeiro e a sua Flor depois.

 

 

A Feira do Livro de Lisboa está a chegar. Anabela Mota Ribeiro estará presente no dia 4 de junho. O que significa para si a Feira do Livro? Como olha para este evento? 


Gosto da Feira do Livro, gosto de espaços de encontro e descoberta, gosto de iniciativas que podem tocar públicos diversos, democráticas, gosto da misturada. Gosto, evidentemente, da possibilidade de comprar bons livros com preço especial, para mim e para oferecer. Vou estar a assinar livros em dois fins de semana: no primeiro, "Paula Rego por Paula Rego" e no domingo seguinte "A Flor Amarela - ímpeto e melancolia em Machado de Assis." 

 

A Feira do Livro do Porto dá aos leitores a possibilidade de conhecerem grandes estrelas como Han Kang, Laurent Binet e Teju Cole. Sente que ainda existe interesse dos leitores conhecerem e ouvirem os escritores?


Penso que o público tem uma grande apetência pelas conversas, pela possibilidade de diálogo, quer ser interpelado, ver com ouvidos, ouvir com o corpo todo. Ou seja, procura qualquer coisa que é única, diz respeito a um momento, a uma intensidade, qualquer coisa que implica aquele que assiste e o envolve com o corpo todo. De certa maneira, o virtual, a instantaneidade, o fragmento, nada disto rouba espaço às feiras do livro ou festivais literários. Eles complementam-se e potenciam-se.   

 

Existem livros que nos escolhem e outros que escolhemos. "Memórias de Brás Cubas" encaixa em alguma das situações? 


Li pela primeira vez MPBC na faculdade, numa disciplina de opção que fiz com o Prof. Abel Barros Baptista. Já tinha lido Machado, mas ele deu-mo a ler de outra maneira. O livro é uma constante escolha e um feitiço: somos agarrados por ele, lemos e lemos e nunca o achamos. Um clássico é também isso.

 

Ao ler "A Flor Amarela" fiquei deslumbrada e interessada no clássico. É sua intenção cativar novos leitores para Machado de Assis ao transformar o que começou por ser um trabalho académico de Filosofia neste livro?


Se houver pessoas a descobrir Machado de Assis a partir do meu livro, ou pelo que eu possa dizer sobre o autor, fico contentíssima. Lê-lo é um prazer imenso. Aliás, o que faz sentido é ler o livro do Machado e depois ler a minha Flor. Devo dizer que este trabalho académico mereceu mínimas alterações. A minha dissertação era heterodoxa... Procurei ler de um ponto de vista filosófico o livro. O meu lugar de partida era a Filosofia. Por isso também tive dois orientadores: um de Filosofia e outro de Literatura Brasileira, João Constâncio e Abel Barros Baptista, respectivamente.  

 

No seu blog disponibiliza várias entrevistas muito organizadas. O blog é reflexo da sua personalidade ou apenas uma ferramenta de trabalho? 


Talvez eu seja demasiado organizada (do estilo de pôr os cabides todos virados para o mesmo lado). O que me espanta é a possibilidade de viver na desordem e na sujeira (que são coisas diferentes, mas que aparecem juntas nesta minha mania). Por isso, sim, talvez esta organização que encontra no blog seja um reflexo da minha personalidade. O blog foi desenhado pelo Pedro Neves do Sapo a partir de conversas que tivemos e daquilo que lhe pedi. Ao mesmo tempo, o blog é apenas uma ferramenta de trabalho, uma expressão do que venho fazendo desde há uns anos. Gosto de pensar nele como uma casa onde está o essencial do meu trabalho; e eu, que não guardo nada, guardo tudo, afinal, ali.  

 

Já fez rádio, programas de televisão, coordena e modera debates de livros, é escritora e jornalista. O que lhe falta fazer? 


Falta sempre fazer tudo, não é? E falta tempo de digestão. As coisas precisam de tempo para ser pensadas, integradas, criadas. Faço essas coisas todas, às vezes todas ao mesmo tempo, mas acredito cada vez mais na importância do vazio, de não fazer nada, de não entender, de isso ser um motor para voltar a fazer tudo outra vez. 

 

"Se houver pessoas a descobrir Machado de Assis a partir do meu livro, ou pelo que eu possa dizer sobre o autor, fico contentíssima. Lê-lo é um prazer imenso."

 

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"A FLOR AMARELA" | ANABELA MOTA RIBEIRO

por Cláudia Oliveira, em 24.05.17

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Um trabalho académico que virou livro-ensaio relacionado com o romance de Machado de Assis intitulado "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Um clássico há muito tempo na minha lista de livros para ler um dia. 

 

Sem dar respostas, a autora levanta questionamentos através das palavras da personagem emblemática Brás Cubas. Ele revela uma enorme força e franqueza no momento de expor os seus medos e dúvidas. Afinal, não tem nada a perder. Está morto, pode ser sincero quantas vezes quiser. Isso torna-o muito interessante. Entendo porque é o livro da vida de muitos leitores assim como o fascínio por esta personagem. 

 

Teria ganho mais com a leitura do clássico antes de ter lido este. Estaria familiarizada com a história, teria a sensação de reencontro com uma personagem memorável. Desta forma não passou de um leitura de alguém leiga na matéria e com pouco aproveitamento. No entanto, fiquei com vontade de ler a obra clássica de Machado de Assis. Se era um dos objectivos da autora, foi concretizada. 

 

Os meus capítulos preferidos são aqueles focados na relação de Brás Cubas com a mãe e a forma como enfrentou a morte desta. Foi aqui que o livro teve todo o meu interesse. Quem me segue há algum tempo sabe o quanto sou aficionada pelo tema. Também gosto bastante do capitulo sobre a vida, uma excelente divagação em relação à expressão "Era preciso viver".  O que corresponde viver?

 

 "Quando se dá a morte e alguém tão próximo como a mãe, não só se experimenta uma dor aguda que resulta da perda como se compreende que um dia se vai morrer também. Deixam de existir barreiras, outros elos uma cadeia sequencial e lógica. Fica-se órfão."

 

É notável a admiração da autora pelo protagonista de "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Foi subtil na forma como mostrou essa paixão pela obra . É um excelente livro para quem pretende reencontrar ou conhecer Brás Cubas pela visão da jornalista que nasceu no mesmo dia (20 de outubro) que a criação de Machado de Assis.

 

 (livro cedido pela editora)

 

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Mais um livro YA com representatividade LGBT. Simon tem 16 anos, é gay. Ele sabe, aceita-se, nunca contou a ninguém e não compreende porque tem de anunciar ao mundo. Porque precisa de gritar ao sete ventos que gosta de rapazes? Também não faço a mínima ideia. Ele deixou-me a pensar nisso, colocou todas as minhas certezas sobre o assunto do avesso. Como se eu tivesse alguma coisa com isso (não tenho). Muitas pessoas acham que podem meter o nariz onde não devem ou precisam de saber tudo sobre a sexualidade dos outros. 

 

Simon troca emails com alguém da sua escola. Ele não conhece Blue pessoalmente. Vocês sabem como é emocionante trocar emails com um estranho (simpático e com boas intenções, claro). Simon é um adolescente engraçado, com uma família ainda mais engraçada. Dei tantas gargalhadas com este livro (a minha irmã pode confirmar). Não dava para conter de forma nenhuma. Ele tem saídas muito criativas. Alguém vai descobrir os emails e fazer chantagem. A autora precisava de um conflito para a sua história, ok? A vida real nem sempre corre às mil maravilhas. Mas fica a pergunta. Porque temos de usar os segredos dos outros como armas? O ser humano consegue ser lixo de vez em quando. Fica o conselho. Se estás a sofrer de chantagem por um pateta qualquer não te cales, não tenhas medo, conta. 

 

É muito difícil largar este livro. Acreditem em mim. Queres descobrir quem é o Blue (não posso contar se vai realmente ser revelado), queres saber o que o Simon vai fazer em relação à chantagem (a escolha dele foi altamente). Precisamos de mais livros como este, os adolescentes precisam de livros com personagens como estes. Precisam de conhecer o Simon e o seu grupo de amigos. 

 

E as referências ao Harry Potter? Fofas. E as bolachas em miniatura em cada capitulo? Fofas. E os emails entre o Simon e o Blue? Fofos e divertidos. E a capa? Gira!

 

Vamos romper com os preconceitos e oferecer este livro a toda a gente. No final vamos parar de meter o nariz onde não devemos. Aproveitamos e pedimos à Porto Editora para editar o outro livro da Becky Albertalli.

 

(livro cedido pela editora)

 

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"UMA MAGIA MAIS ESCURA" | V. E. SCHWAB

por Cláudia Oliveira, em 16.05.17

 

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Victoria Schwab, ou V. E. Schwab, é a autora do mais recente sucesso de literatura fantástica editado em Portugal pela Editora Minotauro. Uma série direccionada para o público de Young Adult. Ainda sem conclusão, a trilogia tem recebido imensos elogios por parte dos leitores do género. A autora lançou o segundo volume em 2016 e está a escrever o terceiro. Precisamos dos seguintes, não suporto a ideia de começar uma série e não terminar.  

 

Este história passa-se em 1819, em Londres. A cidade está dividida em quatro mundos paralelos: Cinzenta, Vermelha, Branca e Preta. Cada uma tem um diferente grau de magia, sendo que a Londres Negra desapareceu na escuridão e a Vermelha é governada pelo principie Rhy.  É na Londres Vermelha que a história deste volume está centrada. Como protagonista temos o Kell, embaixador do império de Maresh, ele viaja entre os diversos universos para entregar correspondência entre os governantes. Traz objectos de um mundo para o outro, vende-os de forma ilegal e proibida. No meio dessas visitas, entre um mundo e outro, vai acontecer algo muito grave devido a um erro do Kell. 

 

Kell é uma personagem muito interessante. A história dele não é entregue ao leitor de uma só vez, é desvendada ao longo da trama através dos seus relacionamentos e ligações. Mas para mim a melhor personagem é a Delilah. Apesar de irritante, é muito forte, tem a capacidade de roubar muitas vezes o protagonismo do Kell ( e não só, visto que ela faz do roubo o seu passatempo preferido). Tem uma enorme sede de vida e poder. Não olha a meios para atingir os fins. Aceita-se, admite que rouba porque gosta. Ela vai ser uma chave importante para o decorrer da história.

 

Adorei o facto deste livro não ter romance. Viva os livros sem romance forçado entre as personagens. Sério, até fico emocionada com tal facto. É possível um bom livro não viver de um romance banal ou de um triângulo amoroso. Também gostei muito do final do livro, promete uma boa continuação. Fiquei curiosa e pretendo ler o próximo volume. Espero que a autora tenha dado mais profundidade às cidades. Senti uma enorme ausência da presença de Londres nesta história. O destaque foi para as personagens ( o que não é necessariamente mau), mas podia ter aproveitado mais estas Londres. Há um infindável mundo para explorar. Será no próximo volume?

 

Fiquei agarrada à história até ao fim. Os elementos mágicos são complexos, sobretudo a ideia da magia estar no sangue. A narrativa e os diálogos também são bons. Uma autora para ficar debaixo de olho. Os leitores de fantasia têm aqui uma mão cheia de criatividade e talento.

 

(livro cedido pela editora)

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"HISTÓRIA DA MENINA PERDIDA" | ELENA FERRANTE

por Cláudia Oliveira, em 09.05.17

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Lila e Elena. Minhas queridas. São as protagonistas de uma história contada pelo ponto de vista de uma. Dividem o protagonismo entre os diversos livros da série.  Elena escreve sobre ela e sobre a sua grande amiga Lila. Portanto, não podemos confiar totalmente na sua história. Vemos as pessoas como queremos, não como elas são realmente. Existem momentos em que sinto raiva ou tristeza de uma, às vezes da outra. Nesta série nunca sabemos o que vai acontecer. Tudo é inesperado. Este fim foi inesperado. Não é um final fechado, sem pontas soltas, pelo contrário. Deixa algumas perguntas sem resposta. 

 

É uma história sobre Nápoles, sobre a construção de uma cidade pós guerra. É sobretudo a construção de uma vida de sonhos num lugar pequeno, cheio de condicionantes impeditivas para obter bons estudos ou uma boa vida. Amores reais e difíceis, famílias corajosas e tempestuosas. É sobre a vida onde mora a amizade e o amor. 

 

É a melhor série de livros que já li em 32 anos, com milhares de quilómetros de letras no meu curriculum como leitora. São as personagens mais parecidas comigo, apesar de fictícias e estarem num ambiente completamente diferente do meu. As oportunidades delas, a sede pela vida e estudos, a relação de amizade das duas protagonistas é bastante próxima da relação de amizade que mantive (ou mantenho, o fim de uma amizade continua a ser uma amizade, não existe ex-amigo, de amigo passamos a coisa nenhuma). Senti cada palavra, e consegui viver com estas personagens durante muitos meses depois de terminada a leitura dos outros volumes. O mesmo acontecerá com este. Estas personagens vão comigo para sempre porque sou eu (às vezes a Lila, às vezes a Elena, não posso revelar onde sou uma, onde sou a outra, às vezes sou as duas). Talvez seja muito prepotente da minha parte dizer que esta escritora escreveu-me, mas a realidade é esta. Encontrei as minhas fragilidades nesta série e reconheci os meus defeitos nas personagens. Quando sinto raiva das suas atitudes também as sinto como minhas. 

 

Na fase adulta, ficamos mais próximos da morte. As pessoas começam a desaparecer, por doença ou morte inesperada. No último livros há muito sofrimento. A carga dramática começa na vida amorosa da Elena, devido a uma grande reviravolta é transportada para a vida da Lila. Continua a existir a habitual competição entre elas. Na cabeça da Elena, acho que ela compete sozinha sem saber. Neste livro vamos ter atitudes surpreendentes por parte de várias personagens. Um turbilhão de emoções. Preparem-se. O título é perfeito para este volume, mal sabia eu. 

 

Não ficamos indiferentes à escrita da Elena Ferrante. É visceral e emotiva, fria e doce. Tudo junto e misturado. Estou completamente apaixonada  pela sua narrativa. Gostava tanto de escrever assim. Sem filtros, no entanto nada é deixado ao acaso.  E apesar de ser impossível reconhecermos a escrita de uma mulher, estes livros só podiam ter sido escritos por uma. Uma das minhas escritoras preferidas. Vou ler tudo o que tenha sido escrito por ela. Infelizmente, faltam-me poucos. Mas sempre posso reler, não é verdade? 

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