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O LIVRO DE EMMA REYES | EMMA REYES

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Emma Reyes é o exemplo de alguém que não mostra rancor perante a sua vida cruel e miserável. Num tom cru, sem amargura, revela através de cartas para o amigo historiador Germán Arciniegas detalhes sobre a sua infância de emocionar qualquer um. Precisei de tempo para digerir tudo, respirar fundo. Senti revolta por ela, sendo tudo tão triste acabei por absorver essa carga durante a leitura. Vidas tão difíceis. Vidas tão miseráveis.

 

Num quarto com a sua irmã e o Menino, todos os dias de manhã precisa de despejar o penico. Cheio de fezes, carrega entre salpicos e agonia até ao depósito. Num lugar despido de móveis, luxos ou comida. A colombiana tem um olhar muito vincado sobre a sua história de menina pobre e ingénua. Sem amor, conforto, roupa e comida, passa pela miséria como quem vê a sua aldeia arder,  mas pensa ser o fogo de artificio mais bonito. O momento mais triste deste livro é tão intenso que ainda escuto os gritos de abandono. Emma pegou na tristeza e transformou em força.

 

Os adultos são sombras altas e pesadas. Indecifráveis. Mais tarde, num convento de freiras conhece o trabalho e os maus tratos. O lugar de amor está cheio de leis cruéis da fé.  Uma menina sem pais não pode ser recebida por Cristo, muito menos sonhar com um vestido branco ou ser freira. Neste convento é onde aprende a ler e a escrever e recebe pequenos gestos de carinho por parte de uma freira. Fui obrigada a questionar os valores da igreja católica perante duas meninas abandonadas. O relato é duro e sufocante. Ser espectadora destas injustiças é um tremendo desafio.

 

No final coloca-se a veracidade desta história após várias pesquisas e entrevistas. Ninguém sabe a verdade sobre a sua origem. Se por um lado temos a minuciosidade dos detalhes, por outro existem poucas provas. Eu acredito. Emma Reyes sempre fugiu da pergunta: quem era o teu pai? Já famosa e casada, sempre que recebia as visitas da irmã pedia para não ser incomodada e só voltava a dar noticias mais tarde. Ela conviveu com artistas conhecidos e teve uma vida muito diferente depois de ter fugido do convento. Verdadeira história de resiliência.

 

Recomendo muito. Este livro foi uma espécie de comboio desenfreado contra mim.

"A PAIXÃO SEGUNDO CONSTANÇA H." | MARIA TERESA HORTA

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Foi uma leitura intensa, entregue às emoções.

 

A história da Constança remexe os sentidos e permanece finalizada a leitura. A loucura assolapada da protagonista entranha-se gradualmente. Através de poemas, pedaços de diários e momentos narrados na terceira pessoa ficamos a conhecer a paixão da Constança por Henrique.

 

A descoberta da sexualidade, no espirito conservador da família. Constança desde cedo que é curiosa, procura respostas nos livros e observa atentamente o que desconhece. Demonstra uma personalidade forte, embrenhada em conflitos interiores.

 

Há uma inexistente ligação com a mãe que parece ter um desgosto relativo à personalidade desafiadora da filha. No hospício a mãe retira-lhe os poemas, alegando que a escrita é causadora pelos transtornos psicológicos. Inferniza, reprime, humilha.

 

"A mãe murmura às vezes quando me vem ver: "Ela está completamente louca", numa voz neutra, tal como agora são os seus cabelos, bem arranjados, as unhas rosadas perto do seu rosto rosado."

 

"... mas aqui longe, por escrito, tenho mais coragem para dizer o que penso, torna-se mais fácil enfrentar certas coisas que por hábito calo."

 

Surpresas trágicas unidas de erotismo são mergulhos absolutos na maravilhosa escrita de Maria Teresa Horta. Os mais atentos vão para além do que é dito, sentirão o peso da paixão na vida da Constança. O amor por um homem à frente do amor pelos filhos perturba e pode determinar os sentimentos do leitor em relação a esta mulher.

 

Constança é uma mulher apaixonante, louca e perturbada. Lê Clarice Lispector, Virgínia Woolf e Sylvia Plath. Escreve, expõe fragilidades. Vê na paixão nua e crua a única condição para viver. Foi surpreendentemente uma leitura visceral que deixou marcas. Fez-me enfrentar fantasmas do passado, entregar-me ao escuro da noite e ter pesadelos.

 

Recomendo muito. Quero ler tudo desta autora fantástica. Este livro foi lançado pela Bertrand, está à venda por apenas cinco euros.

 

(livro para o projeto Ler os Nossos)

 

 

"A CARNE" | ROSA MONTERO

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O contraste de duas pessoas perante o abandono e o amor. 

 

O gigolô Adam é contratado para fazer ciúmes ao ex marido de Solelad num evento de arte. De forma subtil acabar por invadir a vida desta mulher insegura. Durante o prazer e conversas fugidias as histórias entrelaçam-se num sofrido sentimento de solidão. A necessidade de amor ou uma simples companhia acaba por juntar este improvável casal . Solelad é uma mulher madura com extremas inseguranças em relação a si mesma. E na verdade, não é tão madura assim. Desde crises de meia idade a lutas com a razão ela transmite energias negativas durante todo o livro. A nível profissional é segura e muito disciplinada. Mas as aparências iludem. Os seus medos são extremamente expostos após o fim da sua relação, sobretudo com a vida bela das pessoas à sua volta. Ela tem 60, não tem filhos (nem quer), nem aparentemente uma vida amorosa dentro dos padrões.

 

Este livro foi uma experiência de leitura angustiante. Nunca senti simpatia pela Soledad, nem entendi as suas motivações. Também nunca a julguei, apesar das atitudes que demonstram um enorme desequilíbrio emocional. Nem o rumo que a autora decide dar à história me convenceram. O melhor deste livro são os apontamentos relativos aos escritores malditos que faz parte de um projeto da Soledad. Uma ideia absolutamente interessante que merecia todo o protagonismo.

 

Pensei muito no mundo injusto construído para julgar as mulheres. As mulheres que não querem ter filhos e ainda são muito criticadas. Não podem simplesmente dedicar a vida à carreira, nem estar sozinhas. São trocadas por mulheres mais novas por homens que não suportam a ideia de ficarem velhos. A carne marcada pela vida, atingida inevitavelmente pela idade pode transformar o rosto e não transformar a alma. A loucura presa a fantasmas e uma grave necessidade de amor. 

 

O desenvolvimento do casal pouco convencional deixa muito a desejar. Com cenas incoerentes, parecidas com um argumento de uma comédia romantica fiquei um bocadinho desiludida depois de tantos elogios à escritora espanhola Rosa Montero. No entanto, não vou desistir dela. Apesar das personagenas gostei das reflexões consequentes desta história e fiquei imersa na leitura. Nada é bonito neste livro, nem é para ser. A verdade pode provocar repulsa. 

 

Não foi o livro certo para começar a ler Rosa Montero. Tenho ainda na estante "Instruções para salvar o Mundo", editado também pela Porto Editora.

 

(livro cedido pela editora)

"MENINA BOA, MENINA MÁ" | ALI LAND

 

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Ficava ansiosa sempre que pousava o livro e esperava pela próxima pausa para continuar a leitura. Devorei o livro até à última página antes de adormecer e ainda tive direito a pesadelos com as personagens. Já não acontecia há algum tempo com um thriller psicológico.

 

Milly tem quinze anos quando se vê obrigada a denunciar a sua mãe à policia. A mãe dela é uma assassina, mata crianças, obriga-a a assistir e limpar as provas depois do crime. A mãe dela usa o seu cargo numa instituição para mulheres contra a violência doméstica para atrair as vitimas. Mulheres vulneráveis que recorrem a estas instituições para se salvarem. No entanto, com a mãe da Milly por perto é exatamente o contrário o que acontece. Ela fecha as vítimas num quarto chamado de “parque infantil” para as matar. Depois da denuncia a Milly é levava para a casa de uma família de acolhimento. Precisa de lidar com tudo enquanto tenta manter o discernimento e alguma calma.

 

Ali Land trabalha com doentes mentais há vários anos, o que faz com que tenha bases para dar credibilidade ao enredo. É profundo e perturbador com uma narrativa fluida e fragmentada em alguns momentos. A história é desenvolvida através da Milly, uma adolescente bastante traumatizada. As emoções são verossímeis assim como as dúvidas em relação a si mesma. Acreditei nas emoções da Milly, arrepiei-me várias vezes.

 

Ter uma mãe como assassina em série transforma-a numa pessoa má? Como se sente em relação à acusação e ao julgamento? Como lida com os comentários dos outros? Como é ter uma família nova? Como é o regresso à escola? Como é ser testemunha do julgamento da própria mãe?

 

Adorei este livro. Perturbador e envolvente. Algumas vezes pensei que não ia conseguir terminar. A temática é bastante forte, pode chocar os mais sensíveis. Pessoalmente adoro ser chocada e ter contato com realidades absurdas. Este livro é um bom exemplo do que é para mim é um bom thriller psicológico. A única ressalva é a falta de explicação para algumas situações que apesar de ter sido feitas não me convenceram totalmente. Senti necessidade de mais informações. 

 

Super recomendo. Está no top da lista de preferidos deste ano quanto ao género.

 

(livro cedido pela Suma de Letras)

 

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"SWING TIME" | ZADIE SMITH

 

Nunca é muito justo para uma escritora ser comparada a outra. Sobretudo a uma escritora com o sucesso de Elena Ferrante. E houve uma altura que muitos livros eram indicados para os fãs da escritora ou as autoras era chamadas de "próxima Ferrante". Talvez seja gratificante para alguns escritores, frustrante para outros. Para os leitores cria uma tendência, uma enorme expectativa quando o assunto é a sua escritora preferida. Foi exactamente isso que me aconteceu, mas felizmente soube separar o trabalho da Zadie Smith e ter uma gratificante experiência de leitura. 

 

Swing Time debruça-se sobre uma relação de amizade de duas meninas mestiças com talento para a dança e canto. Ambas com esferas familiares distintas e condições financeiras vão cruzar as suas vidas e criar uma ligação para a vida. Como ambas lutam por um lugar no meio artístico há competição e algumas situações envoltas em ciume.

 

É um livro com um ritmo muito próprio, com passagens marcantes. Emocionei-me varias vezes, a minha imaginação conseguiu ler este livro enquanto assistia a tudo da primeira fila tal é a escrita realista e crua da autora. Apesar de termos apenas o ponto de vista de uma das meninas, acabamos por conhecer todas as personagens de igual forma. 

 

O crescimento no corpo de uma menina, mais tarde mulher, enquanto tenta entender o mundo e o que a rodeia. A mãe, a maternidade é outro assunto muito abordado. Sem floreados, com toda a sinceridade do mundo. O mundo dos adultos enquanto uma menina em fase de crescimento. As respostas ao nevoeiro dos seus pensamentos em fase adulta que se juntam como peças. 

 

"Oh, é muito bonito e racional e respeitável dizer que uma mulher tem todo o direito à sua vida, às suas ambições, às suas necessidades, e por aí fora - é aquilo que eu sempre exigi - mas em criança, não, a verdade é que é uma guerra de atrito, a racionalidade não entra nas contas, nem um bocadinho, tudo o que queremos da nossa mãe é que reconheça de uma vez por todas que é nossa mãe e só nossa mãe, e que a sua batalha com o resto da vida acabou. Tem de depor as armas e dedicar-se a nós. E se não o fizer, então sim, é uma guerra de verdade, e entre a minha mãe e eu foi uma guerra. Só na idade adulta aprendi a admirá-la realmente..."

 

São mulheres, sobretudo mulheres lutadores e com objectivos marcantes como a igualdade. A mãe de uma delas é fantástica. Quer estudar e lutar pelos seus direitos e entrar na política. Também temos uma actriz de sucesso que vive uma vida completamente diferente daquilo que as aparências mostram. Uma mulher sofrida, solitária e com algum mau feitio. O único homem deste livro passa uma imagem miserável, com pobreza de espírito e algo amargurada.

 

Passagens sobre o sucesso, a amizade, as lutas, a ambição. A música sempre presente na arte do sapateado ou nos videoclips do Mickael Jackson. Adorei a descoberta do talento e os olhos vidrados de entusiasmo. Enquanto escrevo este texto fiquei com saudades das personagens, acreditam? Uma história cativante que me marcou de alguma forma. 

 

Recomendo. Voz própria, diferente e encantadora.   

"O JARDIM DAS BORBOLETAS" | DOT HUTCHISON

 

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Este é o primeiro de uma trilogia intitulada "Coleccionador". Começa com o pé direito, com fortes indicações de se tornar numa escritora reconhecida no seu meio. E até parece que existe uma disputa entre duas produtoras para a sua adaptação. Certamente um filme arrepiante.

 

Neste livro o nosso vilão adora coleccionar meninas. Assim que chegam ao Jardim, tatua as costas de todas com asas lindas e brilhantes. São violadas, massacradas e depois mortas. Quando mortas são embalsamadas e expostas num corredor no meio de resina. Assustador e macabro. No Jardim vivem um mundo muito próprio e com fracas hipóteses de escapar. Mas uma das raparigas foge e agora é interrogada pela policia.

 

A história é revelada aos poucos. A rapariga interrogada faz questão de contar tudo a conta gotas o que pode criar algum desconforto no leitor. Não via a hora de obter mais informação daquele lugar, o que me fez virar páginas sem parar. Confesso que sou muito ansiosa neste tipo de coisas. Fez-me estar à beira do desespero enquanto prendia a minha atenção. Bela jogada. 

 

Consegui acreditar no que me era contado. É o mais importante numa história tão estranha, não é verdade? Consegui imaginar todos os cenários e ficar enojada em alguns momentos. Certamente que este livro provoca diferentes emoções em diferentes leitores. Eu tive uma experiência de leitura muito irregular. Senti-me envolvida até metade do livro, mas a minha atenção afastou-se em determinados momentos. Tive dificuldade em conectar-me com a história e não gostei muito do final. No entanto, fascinou-me este Jardim com livros como uma espécie de escape. Podem esperar várias referências. 

 

"À noite, o Jardim era um lugar de sombras e luar, onde se podia ouvir com mais clareza todas as ilusões que o transformavam naquilo que era. Durante o dia havia conversas e movimento, às vezes jogos ou canções, e isso disfarçava o som dos canos a transportarem água e nutrientes através dos canteiros, das ventoinhas que faziam circular o ar. À noite, a criatura que era o Jardim largava a sua pele sintética para revelar o esqueleto por debaixo."

 

A beleza de uma frágil borboleta e a monstruosidade de um homem num thriller que não te vai deixar indiferente. Recomendo.

 

(livro cedido pela editora Suma de Letras)

(estejam atentos, esta semana teremos um passatempo)

 

"DIAS ÚTEIS" | PATRÍCIA PORTELA

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Há dois anos que ando para ler algo da Patrícia Portela. Foi desta. 

 

Recentemente lançado pela Caminho, "Dias Úteis" tem pouco mais de cem páginas. Numa edição linda levou-me a uma compra por impulso. E mais uma vez não errei. Pelo contrário, é maravilhoso. Assumo que tenho algum receio em recomendar este livro. Tem pouco de linear e tradicional. Precisamos de sair da zona de conforto e dar lugar a novas vozes na literatura portuguesa.

 

Antes de começar a semana, temos um conto espectacular sobre o dia do GRANDE jogo. O mundo pára para ver o grande jogo. A ironia é presente nas palavras inquietantes que nos representam. Uma linguagem recriada, estendida para a filosofia, várias metáforas e alegorias.  Dias que perdemos aqui e acolá, e assim se passa mais uma semana. 

 

Um livro para reler. Um livro que acrescenta, nos vira do avesso e nos deixa a pensar. Que mais queremos nós da literatura? Foi uma leitura intensa e curta. Sobre isto de ocupar os dias, (in)conformados. Um conto por cada dia da semana. 

 

"somos todos zombies, nem carne, nem peixe, nem vivos, nem mortos, e não há plano de contingência para tamanha catástrofe natural."

 

Recomendado. Vou ler certamente mais livros da autora.

 

(livro comprado com algum risco)

"AS IMPERTINÊNCIAS DO CUPIDO" | ANA GIL CAMPOS

 

Foi a capa que despertou o meu interesse por este livro. Uma coisa leva a outra, acabei a virar do avesso o blog da autora Ana Gil Campos e consequentemente o interesse aumentou. Este não é o seu primeiro romance, já editou outros dois, todos com títulos bastante sugestivos e capas bonitas. "As Impertinências do Cupido" foi lançado pela Coolbooks em junho. 

 

Episódios amorosos em tempos modernos. Num ambiente familiar, num bairro Itaim Bibi, em São Paulo, onde as personagens acabam por se cruzar. Certamente que reconhecemos um ou outro casal próximo ou sentimos alguma identificação com algum diálogo. Acabamos a sorrir com algumas histórias e incomodadas com outras.

 

Curto, conciso e escrito de forma leve como uma bebida fresca no verão à beira da piscina. A autora não dá espaço para o leitor mergulhar nas histórias nem criar uma ligação com as personagens. 13 histórias muito breves que se lê numa tarde de verão. 

 

Mulheres inseguras e decididas, homens ciumentos e namoradeiros. Encontros e desencontros. Mensagens e convites para jantar. Redes sociais pelo meio, escolhas erradas e desejos casuais. Pessoas um bocadinho loucas, talvez demasiado concentras no amor e nas paixões perdidas. Será o amor sobrestimado?

 

Gostei, mas não é memorável. 

 

(livro cedido pela autora)

"FÁBRICA DE MELANCOLIAS SUPORTÁVEIS" | RAQUEL GASPAR SILVA

 

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Memorizem este nome, Raquel Gaspar Silva. Ainda vamos ouvir falar muito nela. O seu primeiro livro editado recentemente pela Elsinore intitula-se "Fábrica de Melancolias Suportáveis". Que título maravilhoso é este? E esta edição fantástica? A primeira vez que ouvi falar na autora foi numa visita à editora, sabia que uma mulher portuguesa seria editada brevemente pela Elsinore. Sabia o seu nome e que a história do seu livro se passava no Alentejo. Esperei expectante durante algumas semanas. Quando meti os olhos no livro, num passeio inesperado, comprei-o por impulso. 

 

Vamos fazer assim, não vos vou entregar a história. Vou revelar apenas a experiência de leitura. Podem aproveitar, clicar no play do vídeo e ouvir um excerto. Uma passagem que define claramente a escrita da autora.

 

Este livro é pequeno, lamentei o número de páginas de tão maravilhoso, mas tem o tamanho certo. No fim reli as minhas passagens preferidas, andei com o livro de um lado para o outro mais uma quantidade de dias. Adiei este texto na expectativa de descobrir a dimensão do impacto deste livro na minha vida. 

 

Um livro pequeno pode guardar muitas histórias. É este o caso. Revelou-se uma enorme surpresa, talvez a maior surpresa do meu ano. Raquel Gaspar Silva revela uma enorme maturidade na sua prosa poética. Foi exactamente o texto rebuscado que mais me fascinou. Uma história que revela pouco, com várias interpretações.

 

Carlota é o nome da nossa protagonista. É a história da própria Carlota contada através das imagens que guarda dos outros. Fotografias mentais que parecem distantes e nubladas. A interpretação é nossa e aposto que será diferente para cada leitor. Meias palavras, histórias nas entrelinhas. A história não é entregue aos leitores na totalidade. Fica a sensação que a Carlota tem uma fábrica extensa de memórias melancólicas  (como indica o título) e cativantes (na minha perspectiva). 

 

"A mãe era pequena, de troço no cabelo e vestidos de flores miudinhas, personalidade simples e ambições leves como um coelho. Suportava sem embaraço o sabor da autoridade paterna, não participando dos cálculos de gestão domésticos, pois a sua tarefa era zelar pelos filhos em recatada manifestação de amor. Assim aprendera: não ser abertamente expressiva para que ninguém a julgasse excêntrica. Toda ela era a complacência do jugo matrimonial."

 

Vi muito do nosso país,  das nossas tradições. Das famílias numerosas e das suas casas ao cheiro da terra debaixo do sol tórrido. Para além de visceral, foi uma leitura quase visual. Foi inevitável ir ao baú das minhas memórias enquanto lia este livro. 

 

Na medida certa, com uma narrativa surpreendente e capaz de emocionar, este livro deixa a sua marca. Recomendo imenso.  

 

"DOCE CANÇÃO" | LEILA SLIMANI

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Requisitado na biblioteca, com o privilegio de ser a primeira, este livro foi uma leitura surpreendente e agoniante. 

 

Infanticídio. Baseado numa história verídica, uma ama mata duas crianças. Começamos pelo final logo nas primeiras páginas, já sabemos como a história termina. E isso não estraga a leitura, queremos saber o que se passou e o que despontou aquele crime.Não sei como é que a autora fez isto, mas não consegui parar de ler. Presa à crueldade, ao realismo dos acontecimentos. E o título? Fui tão bem enganada, senhores. 

 

Mãe de dois filhos, Myriam quando volta a trabalhar precisa de contratar uma ama. Ela e o marido contratam a Louise, uma mulher muito simpática e habilidosa com as crianças.  Tudo parece perfeito, a Louise faz parte da família, é uma peça indispensável naquela família. Conforme a história avança, vemos que não é bem assim. Alias, já conhecemos o desfecho. 

 

Leiam, sinceramente acho que a sinopse já é motivo mais do que suficiente. É envolvente e visceral. Conhecemos histórias de violência contra as crianças diariamente, no entanto este tema sensível é pouco abordado na literatura de forma tão crua e brutal. É também abordada a forma como a mãe destas duas crianças vive a maternidade e o desejo de ser profissionalmente activa. A pressão da sociedade. A forma como os parentes e pessoas próximos se afastam. A maternidade é de facto um turbilhão de emoções. Infelizmente estas situações são mais frequentes do que podemos imaginar. 

 

A maternidade exige pais presentes e dedicados. A sociedade exige sucesso e profissionalismo. É uma luta interior constante em busca uma perfeição impossivel e esgotante. 

 

"A pílula nunca é cem por cento infalivel", dizia, rindo diante das amigas, Na verdade, planeara aquela gravidez. "

 

"Tinha inveja do marido. Ao fim do dia, esperava-o febrilmente atrás da porta. Passava uma hora a queixar-se dos gritos dos meninos, do tamanho do apartamento, da sua falta de tempo livre."

 

" A solidão agia como uma droga da qual ela não tinha a certeza de se querer privar. Louise errava pelas ruas, pasmada, com os olhos tão arregalados, que até doíam."

 

A história real no qual a autora baseia este romance aconteceu em 2002, em NY. Yoselyne esfaqueou duas crianças que estavam ao seu cuidado, uma de seis e outra de dois anos. A ama ficou com raiva da patroa por lhe ter pedido para fazer trabalhos domésticos. Arrepiante. 

 

Uma canção doce cantada ao ouvido de uma criança em contraste com o que de pior tem o ser humano. Pais desta vida, preparem o vosso coração. 

 

Recomendo imenso. 

 

(livro requisitado na biblioteca)