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"O LUTO DO ELIAS GRO" | JOÃO TORDO

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Alguém disse que comprou este livro na Feira do Livro porque a livreira afirmou que tinha sido escrito por um anjo de tão perfeito. Eu ouvi aquilo e fiquei a pensar no meu exemplar em casa a ganhar pó. Mas estava guardado para o momento ideal. Foi agora. O livro estava à minha espera também. Nada me preparou para esta história. 

 

Sabemos à partida que Elias está de luto, mas ainda não fazemos ideia do resto da história. Somos completamente apanhados de surpresa. A história é costurada pelas mãos do escritor com camadas, em pequenos diversos episódios que complementam cada pedaço anterior. De forma corrida, não dá para largar este livro sem respirar fundo. Também o protagonista está atravessar um processo de luto, daí o escape para a ilha totalmente sozinho. Talvez não queira estar sozinho, talvez queira encontrar nos outros quem perdeu.

 

Mais do que uma história sobre a forma como perdemos as pessoas que mais amamos é um livro sobre empatia. Numa ilha as pessoas revelam-se, entregam-se a afectos. Deus parece ser o escape num meio do caminho, a busca por uma fé desajustada. As relações estreitam-se, escapam por entre os dedos, passamos a vida com medo de perder. A nossa tristeza é fruto de quem perdemos ao longo da vida? Numa ilha queremos fugir mas não temos mais do que a natureza, o silêncio e a própria solidão.

 

Nota-se ligeiras influencias de grandes obras e autores. Borges está por todo o lado, a grande baleia Moby Dick também. Reconheço o gosto pessoal do escritor porque já o ouvi falar nestas obras como sendo as suas preferidas. Ao desejar escrever algo diferente, parece-me que desta vez encontrou a sua voz. Não conheço todos os seus livros, mas este supera o que conheci. Há uma evolução imensa na narrativa. Um livro que diz mais quando não diz tudo e nos faz principalmente sentir. Aquele final. Chorei tanto. 

 

Este livro tem camadas de tristeza resolutas em pensamentos melancólicos. Provoca e incomoda. Marca, sobretudo lido no momento certo. Foi o meu caso. Preciso do segundo volume urgentemente. 

"O Ano Sabático" de João Tordo

Hugo está a passar por uma fase difícil. Não consegue criar, não consegue avançar e precisa urgentemente de encontrar um caminho. Decide partir de França com a ideia de passar um ano sabático junto da família em Portugal. Parte, instala-se na casa da sua irmã gémea, conhece o seu sobrinho Mateus, o cunhado e a empregada de ambos. Consigo leva apenas o contrabaixo Nutella. Ele está há anos a compor uma música que tem por nome Dulcineia mas não sabe como terminá-la.Numa ida a um  concerto de um pianista conhecido e famoso, Luís Stockman, reconhece a melodia Dulcineia no meio de outras, a mesma música que vive na sua cabeça por terminar. Depois desse momento, Hugo quer saber como é que o famoso Luís Stockman sabe da existência da melodia na qual ele trabalha há anos.

 

Este livro confunde, consegue juntar realidade e ficçao. Consegue tocar o nosso intimo. Ainda estou a digerir a história, ainda mantenho a história presente tendo terminado a leitura há há seis dias. Não consegui largar o livro, estava agarrada a ele quando tinha tempo livre. O personagem Hugo é complexo, angustiante e triste. Como os dias de inverno, em que não apetece ver ninguém. A história está dividida, primeiro Hugo, depois o escritor amigo de Luís Stockman. Pontos de vistas diferentes, talvez iguais.

 

Este livro aborda de forma fria a história de um homem que nunca superou a morte do seu  irmão gémeo horas depois de ter nascido. No final, fica um vazio. Comigo ficou. E com este último romance nasceu a necessidade de conhecer as outras obras de João Tordo.

 

Ainda esta semana espero fazer um vídeo sobre o livro para o canal.