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"O CASTELO DE VIDRO" | JEANNETTE WALLS (texto + vídeo)

por Cláudia Oliveira, em 10.07.17
 

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Quantos anos tem a nossa memória mais antiga? Acho que a minha memória mais antiga foi guardada quando tinha seis anos. Alguém recorda os primeiros anos da sua vida? Dificilmente, não é? Na gaveta das memórias quantas recordações escondes e preferias apagar? 
 
Jeannette Walls é neste momento uma jornalista famosa, neste livro acompanhamos a sua vida, sobretudo a forma como foi educada. Enquanto cresce, passa por várias experiências de negligência por parte dos pais. São adultos problemáticos, roubam, bebem, não trabalham. Permitem que os seus filhos passem fome. Mudam de casa frequentemente, arrastam consigo as três crianças (mais tarde quatro) na esperança de encontrar ouro e construir um castelo de vidro. 
 
Este livro começa quando a Jeannette têm três anos. O seu vestido cor de rosa pega fogo enquanto cozinha salsichas no fogão em cima de um banco. Ela é transportada para o hospital com queimaduras graves. No hospital é tratada com muito cuidado por toda a equipa médica. Sente-se tão feliz que  não se importava de ficar ali para sempre. Ali a comida não acaba e pode comer pastilhas elásticas.  A Jeannette recebe as visitas dos pais e irmãos frequentemente até ao dia que regressa a casa pronta para voltar a cozinhar. 
 
É difícil gostar dos pais da autora. É uma família fascinante ligada por laços afectivos e ao mesmo tempo com reacções egoístas. Com traços de ternura e de crueldade. As pessoas não são apenas uma coisa. São feitas de defeitos, recortes de sofrimento e delicados sonhos. O que mais me fascinou foi o misto de emoções ao longo de todas as páginas. As lágrimas apareceram já na fase final do romance durante uma conversa entre a Jeannette e o pai. Antes, várias vezes, interrompi a leitura para processar o que tinha acabado de ler. É incrível a coragem da autora em expor a sua infância dura de forma tão crua. Ela acaba por atingir os seus sonhos e tornar-se escritora. Foi fruto da educação?
 
"Eu tinha apenas três vestidos, todos usados, de uma loja de artigos em segunda mão, o que significava que todas as semanas tinha de usar dois deles duas vezes."
 
Adorei a irmã dela mais velha, a Lori. Uma menina madura, capaz de aceitar a vida que lhe é dada. Inteligente, ficada nos objectivos e uma enorme capacidade de protecção. É a primeira a proteger os irmão da realidade. Os irmãos têm uma ligação bonita, fiquei arrepiada nos momentos onde a cumplicidade é mais evidente. 
 
"Lori era a leitora mais obsessiva. Fantasia e ficção cientifica, em especial O Senhor dos Anéis. Quando não estava a ler, estava a desenhar orcs ou hobbits. Tentava pôr toda a gente da família a ler livros."
(não é maravilhoso?)
 
O castelo de vidro representa os sonhos. A capacidade de sonhar, apesar das dificuldades da vida. Uma vontade de fugir dos padrões, de não pertencer ao sistema e encontrar um mundo sem regras e condicionantes. Uma família unida, sem o final feliz que gostaríamos. A realidade sem floreados apesar de pequenos apontamentos de esperança e amor. 
 
Ri e chorei. Recomendo, sem dúvida. 
 
(livro cedido pela editora)
 

 

 
 

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