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foto: Porto Editora

 

Ao longo do mês de junho passaram por aqui os autores, leitores e até ficámos a saber como é trabalhar na Feira do Livro de Lisboa. Entrevistas AQUI, AQUI E AQUI. Também fiz a contagem decrescente até ao dia da inauguração, podem ver AQUI. O Clube dos Clássicos Vivos também não faltou, podem ver AQUI. Dei a conhecer o lado de quem ama a feira e espera por ela todos os anos. Também era importante  dar a conhecer o outro lado, o trabalho de equipa da Porto Editora. Encerramos desta forma, e muito bem, com as palavras de quem trabalha diariamente com os livros e prepara anualmente a FLL. 

 

Paulo Rebelo Gonçalves, responsável de comunicação e imagem do grupo Porto Editora há cerca de dezoito anos, aceitou dar uma entrevista ao blog "A Mulher Que Ama Livros" para revelar algumas informações sobre a preparação e o balanço da Feira do Livro deste ano. Tive o prazer de conhecer o Paulo Rebelo Gonçalves num evento exclusivo para bloggers. Um evento que me permitiu verificar o enorme entusiasmo por parte de todos os presentes em relação à chegada da feira. Para além de conhecer antecipadamente algumas confirmações de presenças e eventos. Foram abordados nesta entrevista vários assuntos: o trabalho antes da feira, os escritores, os eventos, as vendas, a concorrência e a relação com os bloggers. Estou muito grata pela disponibilidade demonstrada pela editora em cooperar de forma tão dedicada nesta entrevista e dar-me a possibilidade de chegar a alguns autores e leitores (através da iniciativa de livro sugerido presente na Feira do Livro de Lisboa - fotos no final da entrevista).  

 

A Feira do Livro de 2017 encerrou no dia 18 com um balanço muito positivo. A 87ª edição contou com cerca de meio milhão de visitantes e mais de mil sessões de autografos.  Foi muito bom, não foi? Agora só nos resta esperar pelo próximo ano. 

 

 

Quando chega a Feira do Livro há uma enorme euforia por parte dos leitores e amantes da grande festa do livro.  A editora partilha desse entusiasmo?

O nosso entusiasmo começa muito antes, quando iniciamos a preparação de todos os detalhes da nossa participação na Feira do Livro. A dada altura, ao entusiasmo junta-se a expetativa pelo dia de abertura – por alguma razão colocámos um “countdown” no site Autores que nos unem semanas antes do início da feira. 

 

Com quanto tempo de antecedência preparam a Feira do Livro?

Respondo assim: ainda não tinha terminada esta edição e já estávamos com ideias para 2018. 

 

É dada formação aos livreiros? Precisam de conhecer o catálogo e/ou o nome dos autores?

Os nossos livreiros conhecem bem o nosso catálogo, os nossos autores e os livros. Tem-se o cuidado de fazer reuniões de equipa antes do arranque da feira para partilhar os cuidados a ter, as regras de funcionamento considerando o regulamento da própria feira, a mecânica de promoções, partilhando naturalmente informação sobre a nossa agenda de eventos, que autores vão estar presentes, etc.

 

José Luís Peixoto anunciou o novo livro na FLL no fim de semana passado. Guardam estas novidades para esta altura de forma a surpreender os leitores? É impressão minha ou nesta altura são lançados mais livros do que o habitual?

José Luís Peixoto e a editora entenderam que seria bom aproveitar a Feira para fazer essa surpresa aos seus muitos leitores. A Feira do Livro faz-se muito destes momentos de partilha especiais entre os autores e os leitores – aliás, é isso que define a nossa presença neste evento.

É natural que as editoras aproveitem a Feira do Livro para lançarem novos livros, mas não é líquido que seja o momento com maior incidência de lançamentos.

 

O Grupo Porto Editora fica sempre no mesmo lugar na Feira do Livro de Lisboa. Os leitores já se habituaram ou é uma questão de espaço?

 É uma questão de organização do evento. Estamos há vários anos naquele espaço e lá vamos continuar.

 

Este ano tiveram as presenças de Luís Sepúlveda, Augusto Cury e  Sveva Casati Modignani. Augusto Cury foi uma loucura. Como escolhem as presenças mais marcantes? Como é feita essa gestão? Contavam com tantas pessoas?

Refere autores que têm enormes legiões de fãs em Portugal. Mas é justo que fale de José Luís Peixoto, José Eduardo Agualusa, Richard Zimler ou Gonçalo M. Tavares, que tiverem largas dezenas de leitores a quererem autógrafos. Ou da Luísa Ducla Soares, que recebeu tanto carinho dos pequenos leitores. Mas há muitos outros autores e todos eles sentiram o afeto dos leitores e os menos conhecidos tiveram oportunidade de se darem a conhecer. Acreditamos que é essa nossa visão, de que a feira é um espaço para todos os autores e leitores, que faz com que tenhamos invariavelmente muitos milhares de pessoas connosco.

 

Existe algum autor muito pedido pelos leitores que ainda não esteve na FLL? Quem gostariam que estivesse presente, mas infelizmente ainda não foi viável?

Há sempre autores que, por esta ou aquela razão, não puderam estar presentes, mas haverá mais oportunidades. De qualquer forma, estamos mesmo muito contentes por termos tido tantos e tão bons autores nesta edição.

 

Como é a vossa relação com as outras editoras? Saudável ou competitiva? Vão espreitar a concorrência?

A nossa relação é saudável e competitiva. Apesar da crise que afeta o setor editorial português, a verdade é que se trata de uma indústria cultural muito profissional e dinâmica que em muito contribui para a riqueza do nosso país. Há excelentes editoras, que trabalham muito bem e gostamos que assim seja. O país, para evoluir e afirmar-se, precisa de um setor editorial forte, que promove a nossa cultura, a nossa língua, os nossos valores.

 

Nota-se uma preocupação crescente das editoras em colaborar com os bloggers. No Brasil é mais evidente esse trabalho. Em Portugal ainda estão a caminhar nesse sentido. Os bloggers têm um papel importante na divulgação e incentivo à leitura? Pretendem estreitar essa ligação?

O Grupo Porto Editora relaciona-se com os bloggers há muitos anos e sempre procuramos encontrar caminhos para reforçar os laços criados. É o que vamos continuar a fazer. 

 

O Grupo Porto Editora teve este ano uma iniciativa muito interessante: as sugestões dos bloggers através de frases junto dos seus livros preferidos. De quem partiu a ideia?

Surgiu durante as reuniões de planeamento que a equipa foi fazendo e, claro, foi aprovada por unanimidade.

 

Como se despedem da Feira do Livro? Cansados ou tristes?

Naturalmente cansados, mas contentes com o trabalho realizado e com o reconhecimento da parte dos leitores.

 

Qual é o próximo grande evento para preparar em seguida? 

Como a Feira do Livro de Lisboa não há comparação. Mas posso dizer que os lançamentos que se avizinham serão tratados com o mesmo grau de entusiasmo e de profissionalismo.

 

 

 

 

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Hoje a entrevista é outra. Queremos saber tudo o que se passa na Feira do Livro, não é verdade? Lancei a proposta à Sandra Pinto Barata, autora do blog "Say Hello To My Books" (visitem!), e ela aceitou de imediato. 
 
A Sandra este ano esteve a trabalhar como colaboradora na Feira do Livro de Lisboa, no grupo Porto Editora (inclui Bertrand, Coolbooks, Quetzal, Pergaminho, Círculo de Leitores, etc...) e é uma apaixonada por livros como podem comprovar de seguida. Tive o prazer de a conhecer este ano no segundo encontro do Clube dos Clássicos Vivos. Uma simpatia, inteligente  e comunicadora nata. Gosta de Truman Capote, Charles Bukowski, Saramago, entre outros (a lista está sempre a aumentar). Este ano criou a iniciativa Março Feminino, uma iniciativa para divulgar literatura escrita por mulheres.
 
Alguns dias depois do encerramento da Feira do Livro fazemos uma espécie de balanço e ficamos a conhecer alguns segredos dos bastidores. Venham daí. 
 

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- O que te motivou para trabalhar este ano na feira do livro? 
 
Já queria ter trabalhado o ano passado, mas não fui a tempo das inscrições. Este ano, como tinha disponibilidade decidi inscrever-me. Mais que ganhar uns trocos, o que me motivou foi a experiência de trabalhar no meio dos livros, perceber como funciona a Feira (que frequento desde miúda) por dentro, fazer parte do evento mesmo a sério. Fazer valer o "estar" e não só "passar", entendes? 
 
 
- Onde fizeste a inscrição? 
 
Online, no site da Bertrand. Depois chamaram-me para uma entrevista, como fizeram a todos os inscritos e, felizmente, fui chamada. 
 
 
- Fazem contrato de trabalho? As condições que oferecem são aliciantes? 
 
Sendo um trabalho provisório, não fazem contrato. Mas quem aceita trabalhar lá, sabe ao que vai. Sabe que são, no máximo, 18 dias, com várias horas de trabalho. São as condições normais para trabalhos do género. Eles ajudam nas refeições, o que é muito bom. Mas como não era tanto o dinheiro que me motivava, não tenho nada a apontar. 
 
 
- O que pensaste quando viste o grupo editoral onde ias trabalhar? 
 
Já sabia para onde ia, porque me inscrevi no site da Bertrand. Na Feira o espaço é conjunto entre a Bertrand e a Porto Editora. Tanto que os nossos coletes de trabalho diziam "Grupo Porto Editora", o que confundia a cabeça de muita gente. Já era um grupo que respeitava, fiquei a conhecer a fundo o portefólio da Porto, da Bertrand, da Quetzal, da Pergaminho, etc. Foi ótimo!
 
 
- Como é o ambiente de trabalho? Existe competitividade? 
 
Nada de nada. Foi tão bom. Das melhores coisas que tiro desta experiência são as pessoas, principalmente os colegas. Criou-se um espírito de equipa muito grande, estávamos todos ali para o mesmo. Ajudavamo-nos sempre, em qualquer situação. Um dia que me senti mal e precisei sair mais cedo, aguentaram as pontas por mim, tal como fiz com outros colegas em situações idênticas. Fartámo-nos de rir em situações caricatas, nos dias de calor borrifávamo-nos uns aos outros com água, fazíamos pausas para ir comprar Calipos e combater o calor, trocámos muuuitas opiniões sobre livros, sobre a Feira, sobre a vida em geral. Quando um não sabia onde estava um livro, o outro ajudava. Quando um não conseguia ajudar um cliente, o outro estava ali ao lado e intervinha. Mesmo os responsáveis - os chefinhos - eram todos pessoas excelentes, acessíveis, simpáticas, compreensivas, com quem tínhamos muito boa relação, com quem criámos private jokes, que nos fizeram sentir importantes enquanto ali estávamos. Aceitávamos tudo o que nos pediam e fazíamos sem pestanejar, porque eles estavam ali connosco quase de igual para igual - trabalhavam muito mais que nós até. Foi uma grande aprendizagem a nível humano e profissional. 
 
- Têm formação antes da feira do livro? -  Há alguma entrevista com pré selecção?
 
Sim, há uma entrevista. E depois uma pequena formação sobre o que é necessário fazer e como tem que ser feito. Claro que os que já trabalham em livrarias têm esse know-how, mas os externos, como eu, precisam entrar dentro do sistema todo. 
 
- O que fazes durante o horário de trabalho? Também repões livros e colocas preços? 
 
Tudo o que for necessário. Reposição de livros sempre que é necessário, colocar preços, arrumar as prateleiras e ter sempre as "frentes" dos livros organizadas e completas, ajudar os clientes a encontrar livros, a esclarecer dúvidas, preparar os locais de sessões de autógrafos, enfim... Tudo o que vocês vêem quando passam num espaço como aquele, somos nós que arrumamos, organizamos e mantemos ao longo do dia. 
 
 
- Como foi assistir aos eventos na primeira fila? Tiveste esse oportunidade ou não foi possível? 
 
Alguns sim. Estive a um palmo do Presidente Marcelo quando foi apresentar o novo livro sobre Mário Soares. Acompanhei várias sessões de autógrafos do Agualusa, do Peixoto, do Raminhos, do Bruno Vieira Amaral, do Agusto Cury, teatros infantis, etc. 
 
 
- Como são os bastidores da feira do livro? Ambiente saudável ou muito rigoroso? 
 
Há rigor, claro. Aquilo é um negócio, tem que correr bem, tem que haver profissionalismo. Durante o dia íamos trabalhando entre pavilhões, onde fosse necessário, onde víssemos que alguém precisava de ajuda, onde reparassemos que estava alguma desarrumação. Mas na Hora H, por exemplo, era uma loucura. Tínhamos que estar fixos num pavilhão, porque há muita gente com dúvidas e a precisar de ajuda nessa hora. É, literalmente, non stop. Se precisássemos pesquisar algo no computador, havia um colega que estava a fazer apenas isso durante aquela hora e encaminhávamos o cliente para ele. Todos tínhamos um papel e uma função. Todos estávamos totalmente focados nos clientes e nas suas necessidades. Nas horas em que a Feira estava mais morta, obviamente que o ambiente era mais descontraído. Há tempo para "brincar" e tempo para trabalhar. 
Muitas vezes, quando a feira fechava, depois de desligarmos as luzas e fecharmos tudo, ainda ficávamos a conversar. Estávamos cansados, sim, mas o ambiente entre nós era tão bom que nessa altura relaxávamos um bocadinho com a companhia uns dos outros. 
 
 
- Qual foi a maior dificuldade durante estes dezoito dias? 
 
O cansaço fisico e o calor. Houve vários dias seguidos em que trabalhei entre 9h a 11h. Apenas com uma hora de paragem para comer. O que significa sempre 8h a 10h em pé. Já experimentaram estar esse tempo todo em pé? Custa. Principalmente quando começou a ficar muito calor e deixei de conseguir ir de ténis. Levava sandálias para aguentar melhor a temperatura, mas toda a gente sabe que sandálias rasas não são a coisa mais confortável para estar parada em pé. Ás vezes fazia pausas de 2 minutos só para me sentar um bocadinho e descansar os pés. Todos nós passámos por isso. Quando chegou o calor intenso piorou. Cansa o triplo. Tínhamos que estar ao ar livre sem ter para onde fugir. Os pavilhões absorvem o calor como estufas. Até meio da tarde tirávamos à sorte quem ia para os pavilhões do lado direito que estavam a apanhar com o sol de chapa. A sorte é que tínhamos borrifadores (aqueles das plantas) que enchíamos com água e gelo e assim andámos nos últimos dias de feira. Só assim era suportável. Molhávamos os braços, a cara, o pescoço, as pernas, tudo. Os clientes passavam por nós e riam-se. Alguns pediam para os borrifarmos também. Chegava a casa exausta. Dorida. E só três dias depois da Feira acabar é que senti que recuperei as forças e que voltei a ter pés. 
 
 
- Como são os clientes da feira do livro? Queres contar alguma situação engraçada (ou sem graça nenhuma)? 
 
A maioria, felizmente, são educados, simpáticos, sabem que estamos ali para ajudá-los. Depois há outros muito, muito antipáticos, rudes até. Pessoas que não dizem obrigado depois de lhes darmos a informação que pedem (o que é que custa?), pessoas que respondem de forma torta e mal educada, virando-nos a cara só porque dissemos que o livro que queriam já não havia na Feira. Uma senhora ficou até chateada comigo porque a Isabel Allende não lançou um livro novo. Que culpa tenho eu? Outros que me atribuem a culpa de na Hora H apenas terem desconto os de etiqueta laranja. E aquelas que insistem que um livro é da Bertrand só porque o viram na loja ou no site? E lá tínhamos que explicar que aquilo é uma Feira de editoras e não de livreiros. Só acreditavam quando lhes mostrava, no nosso sistema de pesquisa no computador, que tal livro era da editora X. Lá acreditavam e a pergunta seguinte "onde é que isso está na Feira?". Além de sabermos de livros, tínhamos que ser mapas ambulantes. Felizmente, a maior parte eu sabia responder. Houve um senhor, já velhinho, que tinha perdido a mulher há pouco tempo, o amor de uma vida, e procurava um livro para aprender a lidar com a morte, enquanto se emocionava a contar a sua história. Houve muuuuitas pessoas a sugerirem-me livros que nunca vou ler. E outras a pedirem-me sugestões de coisas tipo "olhe, diga-me lá um bom livro sobre puberdade!". 
 
 
- E os autores? Houve algum autor que te captou a atenção e te fez comprar o livro dele? Conseguiste conversar com algum? 
 
Conversar não, porque estávamos em horário de trabalho e tinha que manter a postura. Mas o José Luis Peixoto impressionou-me. Foi o autor que mais tempo lá ficou a conversar com os leitores. Ok, o Cury teve 4h em sessão de autógrafos, mas mandava um "você é o piloto da sua vida", assinava o livro e 'tá a andar. O Peixoto "perdia" mesmo tempo com cada pessoa. Talvez uns 15 a 20 minutos de conversa com cada leitor que estava ali para conseguir um autógrafo dele. Começou às 15h, quando voltei da minha hora de jantar às 21h ainda lá estava. Já em pé, numa postura mais descontraída, a falar com alguns fãs sobre as suas obras, como se de velhos amigos se tratassem. Trouxe um livro dele comigo: Dentro do segredo. Postei foto das minhas compras no Instagram, onde se inclui esse e ele, sem me conhecer, foi lá comentar. Adoro. Fiquei fã, mesmo antes de o ler. 
 
 
- Com quem gostavas de ter trocado uma palavra mas não conseguiste? 
 
Com ninguém em especial. 
 
 
- Há preocupação com a concorrência? 
 
O que senti foi foco em fazermos nós um bom trabalho, sem olhar para o que os outros andam a fazer. 
 
 
- No último dia começaste logo a sentir saudades? Como foi esse dia? 
 
No último dia, queria que chegasse logo o final da tarde, para ficar um tempo mais fresquinho. Quando a feira fechou, às 23h, e fechámos tudo, senti assim um friozinho, tipo "acabou mesmo...". Mas estava tão cansada que só pensava em dormir. No dia seguinte bateu uma nostalgia. Passei o dia a pensar "a esta hora estava a entrar, a esta hora estava a fazer isto, a esta hora estava a fazer aquilo". Ficam as boas memórias. Esta experiência já ninguém me tira. 
 
 
- Venderam muitos livros? Sentes que as pessoas lêem pouco? 
 
Fiquei parva com a quantidade de gente na Feira todos os dias! Mesmo nos dias com 41º graus, as pessoas não faltavam (a partir mais do final da tarde). Muita, muita gente mesmo. Vi muitos livros a irem para casa com as pessoas, muitas delas a levar pilhas de cinco ou mais. Dá-me ideia que a Feira do Livro está na moda. Ler está na moda. E isso é tão bom. Senti que a maior parte das pessoas não comprava por comprar. Iam com ideias fixas, sabiam o que queriam, tinham uma opinião formada. Os livros não estão a morrer. 
 
 
- Qual foi o livro que mais recomendaste? Quais são os autores mais procurados? 
 
Não fazia ideia, mas a nova tradução da Biblia é muito, muito procurada. De resto, de tudo um pouco... Muita gente a comprar livros de autoajuda ou desenvolvimento pessoal, muita gente que é fã de livros de bolso, policiais, romances, literatura portuguesa ou estrangeira...há leitores para todos os gostos. 
 
 
- Recomendas a experiência? Vais repetir?
 
Recomendo muito. Não sei como é nas outras editoras, mas ali foi melhor até do que imaginava. Vou repetir, sem dúvida, se a vida permitir, se tiver disponibilidade nesta altura para o ano. 
 
 
- Por fim, ficaste com vontade de ir trabalhar para uma livraria? 
 
Não. Tinha vários colegas lá que vinham de livrarias e todos diziam que a Feira é, sem duvida, um sitio especial. Fui mesmo pela Feira em si. 
 

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ENTREVISTA A BRUNO VIEIRA AMARAL

por Cláudia Oliveira, em 08.06.17

 

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Li o seu mais recente romance lançado pela Quetzal em Abril deste ano. Um dos melhores livros deste ano certamente. Ainda estou a construir uma opinião digna para escrever neste blog. Brevemente, prometo. Estava muito ansiosa para fazer esta entrevista, e tive uma vontade imensa de questionar tudo. Vocês entendem, existem livros e autores que nos marcam. Quando temos uma oportunidade como esta a alegria apodera-se e uma espécie de histerismo também. Vi o autor na Feira do Livro no dia da abertura mas não fui capaz de pedir um autógrafo ou trocar uma palavra. No entanto, tive esta oportunidade. Eternamente grata à Quetzal

 

Sem mais delongas. O autor foi vencedor do Prémio José Saramago em 2015 com o seu primeiro livro romance, "As Primeiras Coisas", editado em 2013. Não parou de receber prémios: Prémio Literário Fernando Namora 2013; Prémio Time Out Livro do Ano 2013; Prémio P.E.N. Narrativa 2013. Formado em História Moderna e Contemporânea pelo ISCTE é também crítico literário e tradutor. Tem um blog, Circo da Lama

 

O autor está na Feira este fim de semana (10 e 11) e dia no próximo (17) no espaço Porto Editora. 

 

 ***

A Feira do Livro de Lisboa junta leitores e escritores no mesmo espaço durante mais de quinze dias. O Bruno Vieira Amaral estará presente para dar autógrafos. Considera importante estar perto e ouvir as pessoas? Como é a sua relação com os seus leitores? 

 

Gosto do ambiente da feira do livro e de estarmos todos ali, escritores e leitores, por causa dos livros que uns escrevem e os outros lêem, mas não sei se as conversas são assim tão importantes. A minha relação com os leitores é de total liberdade e sem qualquer tipo de compromisso de parte a parte. 

 

Li o seu livro recentemente e adorei. Tenho muita vontade de ler o primeiro. A maioria fez o caminho pela ordem de publicação. Sente que este livro está a ser tão bem recebido como foi o primeiro? 

 

As críticas na imprensa têm sido positivas e este livro, como seria de esperar, chegou a um número superior de leitores mais rapidamente. O outro talvez tenha tido a vantagem de ser uma novidade e este tem a desvantagem de ser analisado em comparação com o outro.

 

O Bruno Vieira Amaral é escritor, tradutor e crítico literário. Como é ser alvo dos críticos literários? Lê tudo o que escrevem sobre si? Passa os olhos pelos blogues ou não sente nenhum interesse? 

 

A partir do momento em que publicamos um livro temos de estar prontos para ser um "alvo", e não apenas dos críticos literários, e não apenas dos críticos literários que escrevem sobre os nossos livros. Sou uma pessoa atenta. 

 

No seu livro existem várias referências a uma infância nos anos 80 passada na margem sul. Senti muita identificação e vivo do outro lado, perto da capital. As diferenças entre a capital e a margem sul são mais evidentes agora? 

 

As diferenças continuam a existir, e ainda bem. Sem o imbecil ,embora habilmente disfarçado, sentimento de superioridade dos lisboetas que valor teria o nosso furioso sentimento de inferioridade?

 

"Herdamos os genes, é certo". Também herdamos os lugares? Também definem que somos? 

 

Nós não somos definidos nem pelos genes, nem pelos lugares, embora uns e outros pesem no que somos e nas escolhas que fazemos. 

 

A relação entre o protagonista e o avô é descrita de forma muito intensa e admiração. O seu avô foi o maior impulsionador no gosto pela leitura,  consequentemente como escritor? 

 

Não. A influência do meu avô foi genética. 

 

"As nossas memórias domina um brilho fulo,  um tanto esbatido,  o tom quente das fotografias,  a cor saturada das recordações". Escrever este livro foi uma viagem às suas memórias? Regressou com novas memórias? 

 

O livro é apresentador como uma investigação em que o narrador, a certa altura, se concentra nas sua memórias de infância. Muito das minhas memórias serviram de base às memórias deste narrador, ainda que haja outras que são puras invenções. Portanto, diria que fui ao mercado da memória e escolhi criteriosamente as que me convinham para compor esta história.

 

Para investigar o assassinato de João Jorge acaba por ir à biblioteca fazer alguma pesquisa em jornais. Ainda costuma ir à biblioteca?  

 

Sim, vou frequentemente à biblioteca.

 

Disse uma vez numa entrevista que antes de escrever um livro já se sentia um escritor. Quando é que percebeu que estava na hora de escrever um livro? 

 

Quando senti que o músculo da escrita estava suficientemente treinado para aguentar uma maratona. 

 

O Bruno Vieira Amaral é leitor . Tem uma rotina diária de leitura ou passa por longos períodos sem tocar num livro (quando escreve, por exemplo)?

 

Não tenho nenhuma rotina enquanto leitor. À excepção dos períodos em que tenho de ler por obrigação profissional, leio com a saudável indisciplina do bom leitor. 

 

Muitos são os leitores que pretendem seguir uma carreira no mundo da literatura. Pode deixar algum conselho para quem sonha editar um livro em Portugal? 

 

Leiam muito, escrevam muito, não tenham pressa em publicar. 

 

 

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ENTREVISTA À AUTORA ANABELA MOTA RIBEIRO

por Cláudia Oliveira, em 01.06.17

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 Foto de: Clara Azevedo

 

A primeira vez nunca esquecemos. Iniciamos em junho um novo espaço no blog "A Mulher que Ama Livros" dedicado às entrevistas breves e concisas, de forma a dar conhecer um pouco mais do trabalho feito em Portugal pelos nossos. Sempre foi um foco, "ler os nossos". Partilhar os nossos.

 

É um privilégio começar com uma autora portuguesa, talentosa, criativa e dinâmica. Fez rádio, é jornalista, coordena e modera debates sobre livros. Assina juntamente com o escritor Agualusa o programa da Feira do Livro do Porto (já viram o programa fabuloso para este ano?). O seu mais recente livro "A Flor Amarela" foi editado pela Quetzal em Fevereiro deste ano. Anabela Mota Ribeiro estará na Feira do Livro no dia 4 e 17 de junho. Foi um privilégio enorme fazer esta entrevista e conhecer um pouco mais a autora. Entretanto descobri que fiz o caminho ao contrário, devia ter lido "Memórias Póstumas de Brás Cubas" primeiro e a sua Flor depois.

 

 

A Feira do Livro de Lisboa está a chegar. Anabela Mota Ribeiro estará presente no dia 4 de junho. O que significa para si a Feira do Livro? Como olha para este evento? 


Gosto da Feira do Livro, gosto de espaços de encontro e descoberta, gosto de iniciativas que podem tocar públicos diversos, democráticas, gosto da misturada. Gosto, evidentemente, da possibilidade de comprar bons livros com preço especial, para mim e para oferecer. Vou estar a assinar livros em dois fins de semana: no primeiro, "Paula Rego por Paula Rego" e no domingo seguinte "A Flor Amarela - ímpeto e melancolia em Machado de Assis." 

 

A Feira do Livro do Porto dá aos leitores a possibilidade de conhecerem grandes estrelas como Han Kang, Laurent Binet e Teju Cole. Sente que ainda existe interesse dos leitores conhecerem e ouvirem os escritores?


Penso que o público tem uma grande apetência pelas conversas, pela possibilidade de diálogo, quer ser interpelado, ver com ouvidos, ouvir com o corpo todo. Ou seja, procura qualquer coisa que é única, diz respeito a um momento, a uma intensidade, qualquer coisa que implica aquele que assiste e o envolve com o corpo todo. De certa maneira, o virtual, a instantaneidade, o fragmento, nada disto rouba espaço às feiras do livro ou festivais literários. Eles complementam-se e potenciam-se.   

 

Existem livros que nos escolhem e outros que escolhemos. "Memórias de Brás Cubas" encaixa em alguma das situações? 


Li pela primeira vez MPBC na faculdade, numa disciplina de opção que fiz com o Prof. Abel Barros Baptista. Já tinha lido Machado, mas ele deu-mo a ler de outra maneira. O livro é uma constante escolha e um feitiço: somos agarrados por ele, lemos e lemos e nunca o achamos. Um clássico é também isso.

 

Ao ler "A Flor Amarela" fiquei deslumbrada e interessada no clássico. É sua intenção cativar novos leitores para Machado de Assis ao transformar o que começou por ser um trabalho académico de Filosofia neste livro?


Se houver pessoas a descobrir Machado de Assis a partir do meu livro, ou pelo que eu possa dizer sobre o autor, fico contentíssima. Lê-lo é um prazer imenso. Aliás, o que faz sentido é ler o livro do Machado e depois ler a minha Flor. Devo dizer que este trabalho académico mereceu mínimas alterações. A minha dissertação era heterodoxa... Procurei ler de um ponto de vista filosófico o livro. O meu lugar de partida era a Filosofia. Por isso também tive dois orientadores: um de Filosofia e outro de Literatura Brasileira, João Constâncio e Abel Barros Baptista, respectivamente.  

 

No seu blog disponibiliza várias entrevistas muito organizadas. O blog é reflexo da sua personalidade ou apenas uma ferramenta de trabalho? 


Talvez eu seja demasiado organizada (do estilo de pôr os cabides todos virados para o mesmo lado). O que me espanta é a possibilidade de viver na desordem e na sujeira (que são coisas diferentes, mas que aparecem juntas nesta minha mania). Por isso, sim, talvez esta organização que encontra no blog seja um reflexo da minha personalidade. O blog foi desenhado pelo Pedro Neves do Sapo a partir de conversas que tivemos e daquilo que lhe pedi. Ao mesmo tempo, o blog é apenas uma ferramenta de trabalho, uma expressão do que venho fazendo desde há uns anos. Gosto de pensar nele como uma casa onde está o essencial do meu trabalho; e eu, que não guardo nada, guardo tudo, afinal, ali.  

 

Já fez rádio, programas de televisão, coordena e modera debates de livros, é escritora e jornalista. O que lhe falta fazer? 


Falta sempre fazer tudo, não é? E falta tempo de digestão. As coisas precisam de tempo para ser pensadas, integradas, criadas. Faço essas coisas todas, às vezes todas ao mesmo tempo, mas acredito cada vez mais na importância do vazio, de não fazer nada, de não entender, de isso ser um motor para voltar a fazer tudo outra vez. 

 

"Se houver pessoas a descobrir Machado de Assis a partir do meu livro, ou pelo que eu possa dizer sobre o autor, fico contentíssima. Lê-lo é um prazer imenso."

 

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