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"A Ilha de Martim Vaz" | Jonuel Gonçalves

por Cláudia Oliveira, em 15.02.17

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Este livro chamou por mim através das palavras "amor" e "Luanda". Não se passa apenas em Luanda, viaja por mais continentes e três épocas. 

 

Várias vozes, sobretudo mulheres, apaixonadas pela vida e com sonhos grandes. "O Vice Rey ordenou outro concurso para professores régios e pensei me apresentar também mas a freira não achou boa ideia". Passou por mim várias emoções, a mais evidente foi a revolta. Revolta pelas desigualdades raciais e de género. Pelos sonhos que são interrompidos por regras imposta pelo Homem. É difícil viver num Mundo onde as mulheres não podem ter asas nem ir em busca de sonhos. Onde elas precisam de fugir para casar com quem amam. É lamentável. Eu sofri com estas mulheres. "Podes ser a melhor de todos, ainda assim  vão te humilhar vão te dar uma nota muito baixa para todos saberem que lugar de mulher parda alforriada é na cozinha ou na varredura...". As palavras "lugar de mulher" incomodam-me. 

 

Através desta história viajei por vários países acompanhada de uma historia de amor pelo qual torci. Uma mulher e um homem com cores diferentes apaixonam-se e isso não é bem visto pela família. Para levarem o romance adiante precisam de fugir. "A loucura começou ao inventarem que somos várias espécies e umas devem mandar nas outras, perdeu-se a noção do símbolo principal de Adão e Eva...". Quem é que inventou isto? Responde-me um angolano, "os portugueses". E eu fico a pensar sobre isto, com necessidade extrema de mergulhar na história e encontrar mais respostas. Se um livro provoca esse impulso em mim, se me faz passar horas a pensar no assunto, me faz questionar, o livro faz o seu papel. 

 

A escrita do Jonuel é muito cinematográfica, muito visual. Foi inevitável procurar imagens da Ilha de Martim Vaz. Beleza pura. Personagens que valem a pena conhecer. No entanto, não é um livro fácil. Tem o seu ritmo, a narrativa é fragmentada e pode dificultar a sua leitura em alguns momentos. É um livro importante no sentido de não deixar morrer o que algumas pessoas passaram por causa da escravatura e racismo. 

 

Sublinhei várias passagens para voltar a ele no futuro. É umas das minhas temáticas preferidas. Recomendo.

 

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