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"Café Amargo" é uma saga familiar passada na Sicília nos finais do século XIX e inicio do século XX. Atravessa períodos históricos importantes como a entrada da Itália para a segunda guerra mundial. Este livro é muito rico em informações sobre o contexto político e social, é um prato cheio para os amantes do romance histórico. É uma leitura muito agradável, as páginas voam e somos levemente transportados para o ambiente siciliano. 

 

A histórica vai focar-se na história de Maria. Acompanhamos a sua vida desde o momento em que o Pietro se apaixona perdidamente por ela, a pede em casamento, até à fase adulta. Maria é uma mulher com vontade de aprender a ler e escrever e adora música. Paixões que não quer abrir mão após o casamento. Entre outras condições que anuncia antes de aceitar o pedido. 

 

Não sendo eu uma grande apreciadora do género fiquei presa ao enredo e acabei por ligar-me às personagens. Confesso que não gostei de algumas escolhas da protagonista, nem adorei o romance central. Não posso revelar detalhes para não escapar informações fulcrais sobre o desenvolvimento do enredo. É tão bom quando somos surpreendidos, não é? O meu interesse foi de facto o contexto político-social e toda a informação que absorvi. Desde o papel da mulher dentro e fora de casa, assim como a maternidade, temas com uma abordagem histórica interessante e pouco maçuda. No entanto, bem explorados, na quantidade certa. 

 

Fiquei ligeiramente triste porque a personagem mais interessante aparece três vezes no máximo. A primeira cena é tão maravilhosa que fiquei a desejar por mais. É uma mulher louca, internada num hospício. Gostaria de ter lido mais sobre ela. Em relação às restantes personagens, consegui imaginar cada uma. São personagens com caracteristicas muito realistas, palpaveis. A Maria tem defeitos e qualidades, o que a torna mais próximas dos leitores. Tem sonhos que considero importantes e pouco comuns para mulheres na sua posição. 

 

"Haveria de criar uma escola onde os serviçais pudessem estudar. A começar pelos da sua própria casa. Sim, aquela era a sua missão: ensinar os adultos a ler e a escrever."

 

Ao longo da vida, em silêncio, bebemos alguns cafés amargos com a certeza de um dia adoçarmos a amargura dos momentos. Nem sempre quem está calado, aceita. Nem sempre quem aceita pretende continuar a aceitar o resto da vida. É um livro para saborear de duas formas. De um só trago, como um café amargo ou devagar, se gosta de um bom café quente. 

 

Recomendo. 

 

(livro cedido pela editora)

 

 

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"O CASTELO DE VIDRO" | JEANNETTE WALLS (texto + vídeo)

por Cláudia Oliveira, em 10.07.17
 

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Quantos anos tem a nossa memória mais antiga? Acho que a minha memória mais antiga foi guardada quando tinha seis anos. Alguém recorda os primeiros anos da sua vida? Dificilmente, não é? Na gaveta das memórias quantas recordações escondes e preferias apagar? 
 
Jeannette Walls é neste momento uma jornalista famosa, neste livro acompanhamos a sua vida, sobretudo a forma como foi educada. Enquanto cresce, passa por várias experiências de negligência por parte dos pais. São adultos problemáticos, roubam, bebem, não trabalham. Permitem que os seus filhos passem fome. Mudam de casa frequentemente, arrastam consigo as três crianças (mais tarde quatro) na esperança de encontrar ouro e construir um castelo de vidro. 
 
Este livro começa quando a Jeannette têm três anos. O seu vestido cor de rosa pega fogo enquanto cozinha salsichas no fogão em cima de um banco. Ela é transportada para o hospital com queimaduras graves. No hospital é tratada com muito cuidado por toda a equipa médica. Sente-se tão feliz que  não se importava de ficar ali para sempre. Ali a comida não acaba e pode comer pastilhas elásticas.  A Jeannette recebe as visitas dos pais e irmãos frequentemente até ao dia que regressa a casa pronta para voltar a cozinhar. 
 
É difícil gostar dos pais da autora. É uma família fascinante ligada por laços afectivos e ao mesmo tempo com reacções egoístas. Com traços de ternura e de crueldade. As pessoas não são apenas uma coisa. São feitas de defeitos, recortes de sofrimento e delicados sonhos. O que mais me fascinou foi o misto de emoções ao longo de todas as páginas. As lágrimas apareceram já na fase final do romance durante uma conversa entre a Jeannette e o pai. Antes, várias vezes, interrompi a leitura para processar o que tinha acabado de ler. É incrível a coragem da autora em expor a sua infância dura de forma tão crua. Ela acaba por atingir os seus sonhos e tornar-se escritora. Foi fruto da educação?
 
"Eu tinha apenas três vestidos, todos usados, de uma loja de artigos em segunda mão, o que significava que todas as semanas tinha de usar dois deles duas vezes."
 
Adorei a irmã dela mais velha, a Lori. Uma menina madura, capaz de aceitar a vida que lhe é dada. Inteligente, ficada nos objectivos e uma enorme capacidade de protecção. É a primeira a proteger os irmão da realidade. Os irmãos têm uma ligação bonita, fiquei arrepiada nos momentos onde a cumplicidade é mais evidente. 
 
"Lori era a leitora mais obsessiva. Fantasia e ficção cientifica, em especial O Senhor dos Anéis. Quando não estava a ler, estava a desenhar orcs ou hobbits. Tentava pôr toda a gente da família a ler livros."
(não é maravilhoso?)
 
O castelo de vidro representa os sonhos. A capacidade de sonhar, apesar das dificuldades da vida. Uma vontade de fugir dos padrões, de não pertencer ao sistema e encontrar um mundo sem regras e condicionantes. Uma família unida, sem o final feliz que gostaríamos. A realidade sem floreados apesar de pequenos apontamentos de esperança e amor. 
 
Ri e chorei. Recomendo, sem dúvida. 
 
(livro cedido pela editora)
 

 

 
 

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"AS OITO MONTANHAS" | PAOLO COGNETTI (post + vídeo)

por Cláudia Oliveira, em 08.07.17

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Descobri este livro através de uma critica literária num jornal diário. Ainda bem que segui a recomendação e comprei o livro logo de seguida. Foi uma leitura incrível. Comecei muito bem o segundo semestre. 

 

Pietro quando é uma criança vê o pai como o seu herói. Um homem que rouba espaço sempre que aparece neste livro. Consegui sentir o peso da seu silêncio e presença. Alguém que não me parece muito feliz, vê nas montanhas um escape, um amor incondicional e quer incutir esses valores e paixão ao filho. Como acontece normalmente, há um momento em que filhos querem romper com essa relação e criar o seu espaço. Não querem para si as paixões dos pais. Esse rompimento marcante é uma reviravolta entre duas pessoas que permanecerem juntas deste sempre. Ditando assim alguma distância entre os dois. 

 

Quando visita as montanhas com a família acaba por criar uma amizade muito forte com Bruno. Uma amizade empurrada pelas mãos da ternurenta mãe de Pietro. Bruno pasta vacas, é uma criança das montanhas e é essa a única realidade que conhece. A amizade deles foi o que mais me marcou (entre outras coisas) nesta história. É de uma força imensa, onde as palavras são apenas as necessárias. São muito diferentes, mas acabam por ter uma cumplicidade fantástica.

 

As mulheres das montanhas têm uma vida difícil. Vivem num mundo machista, onde são silenciadas pela distancia dos seus maridos. Achei a abordagem do autor muito interessante. Mostra o que desconheço revelando a sorte onde nasci. É preciso sorte para nascer. As mulheres não aceitam o lugar onde nasceram como uma condicionante para os seus sonhos. Prefiro acreditar nisso. O seus sonhos podem ser apenas viver como pessoas livres num mundo mais genuíno como as montanhas. Não há mal nenhum nisso. Neste livros todas as mulheres são iguais a elas mesmas: fortes, genuínas e carismáticas. Mantém casamentos com maridos ausentes e calados. 

 

Paolo Cognetti, o italiano que divide a sua vida entre a cidade e as montanhas escreve de uma forma que me encantou e marcou. Este livro é sobre tantas coisas. Família, e a forma como tudo nos influencia desde a infância. Amor, várias formas de amar. Aventura, a busca desenfreada por um lugar no mundo. Amizade, a profunda amizade sem a troca mecânica tão comum nos tempos modernos. Vida, o que temos de realmente importante nela. Morte, como a vida continua sempre.

 

Recomendo imensamente este livro. Um dos favoritos deste ano. 

 

 

Fica a pergunta: O que pensam sobre as amizades entre homens? 

 

 

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"UM MUNDO DE PERNAS PARA O AR" | ELAN MASTAI

por Cláudia Oliveira, em 06.07.17

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Elan Mastai é guionista, agora lançou o seu primeiro romance editado pela Bertrand. Eu acho sinceramente que deve continuar a escrever livros. "Um Mundo de Pernas para o Ar" é um livro cativante, uma mistura interessante de ficção cientifica, comédia e romance.
 
Estava a precisar de uma leitura dinâmica, divertida e original. Este foi o livro que me ofereceu os três ingredientes e me proporcionou bons momentos. Uma lufada de ar fresco no meio das minhas últimas leituras. 
 
Este livro contém a história mais original que já li este ano. É completamente fora da caixa,  com personagens interessantes e tridimensionais. Ao longo da leitura foram ganhando consistência e acabaram por me conquistar. Sobretudo as mulheres. São mulheres carismáticas. Têm girl power. E para quem ama livros vai identificar-se um bocadinho com elas. Algumas adoram livros e até trabalham em livrarias. Não é fantástico? Mas calma, este livro não tem quase nada de normal. É um distopia, um mundo paralelo de 2016. 
 
 
Tom vive no mundo diferente do nosso. 2016, onde não existe guerra nem pobreza. A tecnologia resolveu tudo. Todas as necessidades básicas são atendidas pela tecnologia. Os carros voam, não existem bombas de gasolina (como eu era feliz!), nem supermercados. Uau, era bom era. Aposto que íamos adorar este mundo.
 
O pai do protagonista tem uma profissão altamente, é dono de uma empresa dedicada ao turismo das viagens no tempo. Uma coisa perfeitamente normal, não é verdade? E claro, a viagem no tempo vai dar muito que falar neste romance. Uma pontinha do enredo: imaginem que o Tom apaixona-se por uma rapariga que quer ser crononauta (porque não pode ser astronauta). Crononauta é alguém que pode fazer viagens no tempo. Agora imaginem que algo acontece entre eles e os planos mudam.  
 
Já pensaram no que andamos a fazer com o planeta? Já pensaram o que será feito dele daqui a uns anos? Dá que pensar. Estamos a caminhar para um lugar onde muitos não vão gostar de viver. Tínhamos a possibilidade de viajar numa máquina do tempo. O que faríamos de diferente? Onde errámos com o nosso planeta? E uns com os outros, onde estamos a falhar? 
 
No meio de uma história divertida temos uma crítica fortíssima aos tempos modernos. Onde os olhos fixam o ecrã luminoso em busca de informação rápida, seja ela verdade ou mentira. Perdemos tanta coisa, não é verdade? Eu fui surpreendida por este livro até ao fim. O capitulo seguinte foi sempre uma surpresa. E apesar da leitura ter sido de altos e baixos, devido à narrativa do autor, quando faço o balanço final acabo de sorriso no rosto. 
 
O amor é a base. Somos feitos de emoções e agimos conforme elas. Alguns têm a coragem de agir, outros continuam a remoer no que podia ter sido feito e não foi. É isso que nos distingue? Vamos aproveitar os nossos, presentes e atentos. 
 
 
Não deixem de ler. O livro está amanhã (7) nas livrarias. Não desanimem nos momentos onde o autor teima em arrastar a história, tudo muda e são surpreendidos até ao fim. Para além das passagens brilhantes que tocam de tão bonitas e cruas. 
 
"Esta é a felicidade que não mereço. Não depois do que fiz. Este agradável momento familiar é um pedaço de rolha a fluturar num mar de sangue."
 
Recomendo. 
 
(livro cedido pela editora)

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Não se deixem enganar pelo tamanho deste livro. Pequeno e audaz, este livro foi uma leitura densa devido às suas camadas e interpretações diversas. Foi uma leitura interessante mesmo com alguma habilidade da minha parte para entender alguns cenários. 

 

Temos aqui o primeiro livro de uma série chamada Mitologias. Num mundo onde não temos referência do tempo e do espaço onde decorrem. São personagens peculiares como "A Mulher sem Cabeça". Ela tem apenas corpo e a sua cabeça é violentamente agredida pelo seu filho. Violento e repugnante foram as sensações mais marcantes na minha experiência de leitura. Temos também a história do Dr. Charlot que abusa das condições mentais do Ber-lim perante uma audiência de médicos e curiosos. Contém várias histórias, retalhos de um mundo mitológico criado pelo autor. Diferente de tudo o que possas ter lido até agora. 

 

As personagens cruzam-se, as histórias puxam-nos para um ambiente terrível. Gonçalo M. Tavares é por considerado por muitos o melhor escritor da actualidade em Portugal. Tem a mestria de criar, de dominar e surpreender com os seus livros. Nunca saí de um livro dele cheia de certezas, pelo contrário. Desassossega, cria dúvidas.Há sempre um desconforto de estar a ler algo superior à minha bagagem como leitora. 

 

Não sei se será o livro indicado para começar a ler este autor. Acho que escolheria outro. No entanto, este mostra tudo o que o escritor reúne nos outros livros. A escrita dele está entre a simplicidade e a complexidade. São sempre livros que nunca nos disseram tudo e merecem releituras. Acredito sinceramente que os seus livros transformam-se a cada leitura.

 

Recomendo.  

 

(livro cedido pela editora)

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"A RAPARIGA NO GELO" | ROBERT BRYNDZA

por Cláudia Oliveira, em 04.07.17

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A Alma dos Livros (@almadoslivros.pt) lançou o seu primeiro thriller policial, o primeiro de uma série tendo como protagonista a policial Erika . Os livros têm recebido criticas muito boas e têm sido um fenómeno de vendas. Unido de uma capa fabulosa, este titulo suscitou o interesse de muitos leitores. Já li, agradeço à editora por me ter cedido um exemplar de forma a partilhar convosco a minha opinião mais sincera. 

 

Quando coloquei no meu instastories a questão, qual o livro que deve ter opinião em primeiro lugar no blog, este livro foi o preferido da maioria. Estamos no pico do verão, mas o facto deste livro passar-se numa estação diferente não afastou as pessoas. Pelo contrário, há curiosidade. Eu também fui picada pelo bichinho e assim que o livro chegou passou à frente de uma série de leituras. Ando em busca do thriller do ano. 

 

Ao contrário da maioria eu não gostei do livro. Vamos ao que gostei antes de desanimar os mais interessados. Li-o em dois dias, é uma leitura fluida, nem damos pelas páginas voarem. É o livro perfeito para época de férias. Ideal para os leitores de verão. O livro certo para quem lê poucos thrillers. Consegui imaginar perfeitamente o cenário e as personagens. A escrita do autor é simples. 

 

Sabem quando estão a ler algo que já viram dezenas de vezes em filmes do género ou em series televisivas? Foi isso que aconteceu. Conseguiram meter todos os clichés de thrillers num só livro. Grande feito caro Robert. Uma rapariga bonita é assassinada. Ela usa um vestido preto justo, mas a moça consegue meter um iPhone nas cuecas. Gostava tanto de saber como é que ela fazia aquilo e ninguém dava por isso. Estou a ser mesquinha? Perdoem-me. 

 

Diria mais mas não quero dar spoiler nem estragar a experiência de leitura de ninguém. Vou simplesmente ficar-me pelos traços gerais da história. Não gostei do desenvolvimento do crime, nem de nenhuma das personagem. Consegui adivinhar quase tudo (e não sou muito perspicaz nestas coisas). O drama pessoal que traumatiza a Erika não me suscitou nenhum interesse. Ela não está preparada para trabalhar, tem atitudes de arrogância e é mal educada de forma gratuita. Para não falar nas escolhas que faz ao longo do livro. Revirei tantas vezes os olhos. E as conversas machistas e sexistas? Não há pachorra. Não vou transcrever para aqui os diálogos porque são vulgares e tenho menores a ler. Sempre podem comprar o livro para matar a curiosidade. 

 

O final não é surpreendente, apesar de não ter descoberto essa parte. Não há emoção no desfecho. Não senti um único pêlo dos braços levantar. Nenhuma outra questão interessante é levantada ao longo do livro. E por isso é que eu continuo a dizer que é o livro certo para a praia. Não há nada para reflectir profundamente com esta história, os problemas da vida vão desaparecer por alguns momentos. Se calhar era esse o objectivo do autor. Podia ter feito muito melhor, achei um livro preguiçoso e previsível.  

 

Eu não consigo ficar indiferente a uma escrita tão rasa e a personagens tão vazios. Não recomendo. 

 

(livro cedido pela editora)

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"A CONTRALUZ" | RACHEL CUSK

por Cláudia Oliveira, em 25.06.17

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Rachel Cusk já é escreveu nove romances, mas só agora conheci o trabalho da autora com o primeiro livro de uma trilogia recentemente lançado pela Quetzal. Em 2003 foi escolhida pela Granta como uma das melhores jovens romancistas. Na altura tinha apenas 37 anos. Recebeu com este romance rasgados elogios pelos vários meios de comunicação e críticos literários. Foi finalista do Prémio Baileys em 2015.
 
'Se passar algum tempo a ler este romance, ficará convencido de que Rachel Cusk é uma das mais inteligentes escritoras vivas.'
New York Book Review 
 
Uma mulher viaja durante o verão até à Atenas para dar aulas de escrita criativa. Perante esta experiência conhece várias pessoas e recolhe outras histórias. São diálogos que mostram o que a maioria pensa e ninguém revela. Algumas mentiras e falsos moralismos. Várias verdades e cruéis revelações. 
 
Temos a nossa professora de escrita criativa debruçada sobre vários assuntos. Desde a escrita e as diversas formas de escrever. Várias referências literárias. Os pensamentos mais íntimos de quem passa por si ao longo da viagem e desabafa sobre os seus anteriores casamentos. De salientar que a protagonista passa por um processo de divórcio e está a renovar energias. Uma espécie de resumo, do que esteve recalcado ao longo do seu casamento. Mostra as feridas. Questiona qual a forma ideal para manter um casamento, um lar. Como é ser mãe,  como é recomeçar do zero. Uma experiência de perda que não dá para evitar numa situação dessas. 
 
Tem uma das passagens mais bonitas sobre a reconfortante sensação de paz. Entre um mergulho e uma visão sobre o sol e o mar. Já reli a passagem dezenas de vezes e consigo sempre sentir a plenitude daquelas palavras. 
 
Conviver é cada vez mais difícil. Encontrar pessoas interessantes passa a ser um jogo labiríntico. É preciso procurar, ir atrás. Quando tentamos forjar a nossa própria felicidade teremos um castigo dado pelo destino, como um alerta. Adoro a ideia que ela transpõe acerca do casamento. Não somos nunca nós mesmos,  há uma impossibilidade de descobrir por vivermos através de outra pessoa. Há diversas condicionantes alheias que afectam sempre a nossa forma de agir. 
 
A maternidade é outra tema abordado e que mexeu muito comigo. É impossível ficar indiferente às suas palavras sobre a sua mãe e os seus filhos. Foi um livro que me acrescentou. Deu aquele frio na barriga. Apoderou-se dos meus pensamentos. Sacudiu-me, mostrou-me que não estou sozinha. Há melhor missão para a literatura? Não creio. 
 
Anseios, absolutos anseios entre divagações e conversas interessantíssimas. Senti-me num barco, rodeada de boa bebida e excelentes conversas enquanto via o pôr do sol. Desejei ter amigos iguais às personagens. Senti-me ligada.
 
Livro esplendoroso. É um quadro gigante de vozes e pensamentos com pinceladas de realidade. Terminei e quis reler. Hoje quando escrevia este texto, reli várias passagens e perdi-me novamente. 
 
Por favor, anseio pelo segundo e terceiro. 
 

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AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO | MARIANA ENRÍQUEZ

por Cláudia Oliveira, em 22.06.17

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Comparada a Poe e a Bolaño, Mariana Enriquez estreia-se em Portugal com o seu livro de contos e uma capa fabulosa pela Quetzal. Confesso que fui atraída pela capa. É brutal, não é? Comprei assim que saiu. Felizmente não me arrependi, pelo contrário. Valeu a pena cada cêntimo. 

 

São doze contos obscuros e com muita crueldade misturada. A autora dá voz aos rejeitados pela sociedade: prostitutas, crianças pobres e mulheres. Mariana inspirou-se na (sua) Argentina, nas histórias que conhece e nas lendas urbanas. Assumo que não fiquei com vontade de conhecer o país depois deste livro. Fiquei chocada com algumas histórias e isso afastou-me (da mesma forma que me aproximou) das pessoas. Quando somos confrontados com a crueldade perdemos a esperança nos outros. Foi isso que aconteceu. Fiquei revoltada com o mundo e pedi justiça. E as mulheres? São o alvo? Este livro diz que sim, as mulheres e as crianças são (e acreditam ser) os bonecos da sociedade. Maltratados e no centro do ódio. 

 

Cometi o erro de ler o primeiro conto enquanto tomava o pequeno-almoço. Não o façam, se forem sensíveis como eu. Fala num menino sujo que jamais esquecerei. Uma mãe drogada, grávida de outra criança. Um menino pobre só. Apesar do mundo. Das vizinhas. Da mãe drogada. Tive de parar de mastigar e fechar o livro. Estava enojada. Nem consegui voltar a comer. Este menino marcou-me (e fiz questão de reler o conto). É de uma enorme violência. A escrita da autora torna a história mais cruel. É amarga, dura. Não poupa nos detalhes. 

 

Mas não é apenas este conto digno de recomendações. Os outros são espectaculares também. Não acredito que este seja um livro para ler de fio a pavio, mas foi exactamente isso que eu fiz. Vontade de sair do escuro imediatamente. Vamos lá ler o livro de uma só vez para poder respirar fundo. Estão a ver a ideia? Já terminei o livro há cerca de um mês. Quem é que me disse que consegui libertar-me dele? O menino sujo e a menina sem braço ainda continuam muito presentes. Parecem sombras. 

 

Mariana Enriquez passa desta forma para a lista de autoras que quero voltar a ler. Um romance, por favor. Recomendo sobretudo para quem gosta minimamente de contos e/ou ler sobre a sujidade do mundo. 

 

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"TORNA-TE UM GURU NAS REDES SOCIAIS" | MIGUEL RAPOSO

por Cláudia Oliveira, em 14.06.17

 

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Lançamento do Manuscrito em Maio deste ano, "Torna-te um Guru nas Redes Sociais" é um livro essencial na arte dos tempos modernos. Miguel Raposo tem imensa experiência na área da comunicação e tecnologia. Consequentemente um vasto conhecimento do digital e das potencialidades da internet.

 

Este livro traz informação nova. Aprendi várias coisas e recebi os melhores conselhos que alguém me podia dar como booktuber e bloger. Dicas como "sê genuíno" parecem banais, mas são essenciais para obter resultados. Ninguém quer opiniões com pouca personalidade e sinceridade. Juntamente com outros leitores acabo por percorrer um caminho. Quem segue o blog desde o inicio vê a evolução, consegue prever se vou gostar muito ou pouco de certo livro.  Apesar de virtual, temos uma personalidade e uma imagem formada perante os outros. No meu caso há um rosto porque mantenho um canal no Youtube. Quando decidi criar o canal não havia uma intenção de ganhar dinheiro. Nem sabia da existência de parcerias. Não tinha blog. Com o passar dos anos percebi que podia ter parcerias e beneficiar de alguma forma com a criação de conteúdo. Sem deixar a minha personalidade de lado passei a usufruir de benefícios e a direccionar os meus objectivos noutras direcções. Este blog (e respectivo canal) já me trouxeram momentos especiais (e consequentemente pessoas). Não me arrependo de nada em relação ao caminho feito até ao momento. 

 

Tudo se move no meio virtual. Os mais cépticos começam a migrar e aceitar os tempos modernos. Diziam-me que um canal e blog dedicado aos livros nunca teria capacidades para despertar o interesse do público. Não terá os mesmos ganhos de um Youtuber de maquilhagem, desafios com canela ou danças com barbas. Nem de perto. Os ganhos com publicidade são estrondosos em Portugal. Vi uma reportagem e fiquei de boca aberta. O livro confirma. Os livros serão sempre uma minoria, mas nunca perdemos a esperança. Há várias formas de contornar essa situação. Há técnicas, mas também dá algum trabalho. Os resultados não acontecem milagrosamente. 

 

Houve uma altura em que as propostas eram imensas e senti-me perdida. Teria sido uma grande ajuda se tivesse lido este livro nesse período. Também tive um momento muito chato por causa de um título mal pronunciado. Inexperiente, podia ter falhado redondamente na minha postura. Tive sorte, não o fiz. E ainda cativei mais seguidores. Se puderem ler este livro vão ficar com bases importantes. Este livro também ajuda imenso na resolução de conflitos nas redes sociais. Isto se quiserem fazer das vossas redes sociais algo rentável, dinâmico e em constante crescimento. 

 

Não me tornei uma guru, nem pretendo utilizar todas as sugestões do Miguel Raposo. Os anos de utilização também trazem experiência. Aprendi muitas coisas sozinha. Não existiam livros como este há uns tempos atrás. Para quem não quer perder tempo e pretende aprender a viver num mundo virtual onde qualquer falha pode ditar um percurso de muito trabalho é fundamental a leitura deste livro. Recomendo.

 

 

(livro cedido pela editora)

 

 

 

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Não farei uma opinião ao mesmo nível do meu fascínio por este livro. Primeiro, este livro escolheu-me. Escolheu o momento certo e tornou-se um dos meus livros preferidos deste ano. São estes os livros que ficam comigo por longos anos. As histórias transformam-se em memórias boas e recomendações constantes. Por ser uma experiência pessoal (às vezes transmissível) tenho a certeza que não será tão marcante, nem terá a mesma intensidade em futuros leitores. 

 

O narrador pega numa memória de infância e traça um percurso de vida até ao momento presente. Passeia por várias casas, cheiros e retratos foscos guardados na memória. Confunde-nos muitas vezes. Não dá certezas, cria novas memórias. É esse o enigma que me fascina. Criamos memórias, juntamos peças soltas e construimos um puzzle para termos uma história. Esboçamos diálogos e quando os recriamos as palavras estão no lugar certo. 

 

João Jorge morre assassinado com uma faca de matar porcos. O autor pega nesse episódio cruel e começa uma investigação. Uma infância na década de oitenta, na margem sul, com elementos muito semelhantes a tantas outras infâncias. Tive um sentimento de identificação e acabei por ver-me na casa dos meus avós diante daqueles móveis e do prato de comida com muito tempero. Cheiros que só encontrei ali. Passeei pelas minhas memórias através de memórias alheias. Senti perto os meus avós que hoje estão no paraíso. Senti saudades e acabei por questionar as minhas recordações.

 

Enquanto descobrimos a história do narrador, acompanhamos a investigação. As idas à biblioteca, as perguntas aos familiares e as pesquisas nos jornais. Várias histórias cruzam-se num embaralhado de personagens. Os meus momentos preferidos são entre o narrador e o avô, o narrador e o pai e o narrador e o tio. As relações entre as pessoas serão sempre os meus assuntos preferidos na literatura. As conversas, a distância entre os silêncios e a mágoa. Sentimentos tristes e um fascínio do narrador pelos genes herdados. Como nasceu o seu amor pelos livros e pela escrita. As perguntas sem resposta e as respostas encontradas quando procuramos por elas.  

 

Talvez não existam tantas diferenças entre todos. A capacidade de seleccionar criteriosamente os momentos. As imagens fugazes das nossas infâncias. Os primos que nunca chegamos a conhecer. As perguntas, apesar de diferentes, são feitas da mesma matéria. Os livros que passam e ficam. Como os livros do Gabriel Garcia Márquez citado neste livro. Os lugares e os cheiros. Angola e quem sente Angola como um bilhete de identidade. 

 

Não vejo a hora de ler o primeiro romance do autor, "As Primeiras Coisas", Prémio Saramago em 2015. Quero ler tudo o que escreveu, contrariando assim as palavras do autor quanto à sua postura perante a literatura. Quando gosto, gosto muito. E vira uma espécie de obsessão. Leio as entrevistas, oiço os possíveis podcasts, procuro toda a informação possível. Só não tenho coragem para pedir um autógrafo. Mas fiz uma entrevista (podem ler aqui). E claro, este livro será uma recomendação em modo repeat sempre que me pedirem um bom livro de um autor português. 

 

(livro cedido pela editora

 

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