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NU, DE BOTAS | ANTÓNIO PRATA

 

Pai e mãe me beijavam, apagavam a luz: o mundo desaparecia. Como ter certeza de que voltaria a existir? De que os dois não sumiriam no breu? Que garantia tinha de que não seria levado pelos monstros que, vez ou outra, apareciam nos pesadelos — eu, que ainda não sabia o que eram monstros ou pesadelos?

 

Apaixonada por este pequeno livro de crónicas não podia deixar de vos recomendar. Episódios de uma infância feliz através do olhar de Antônio Prata que conseguiu trazer do passado as memórias.

 

O menino, os cheiros e os lugares numa escrita singela e tocante. Identifiquei-me inevitavelmente com vários episódios. O medo do monstro no quarto escuro depois da minha mãe sair. Lembro-me de mim tapada até ao nariz com medo de abrir os olhos, tenho de rir.  As luzes acesas pela casa. O fogo no chão, saltos de tapete em tapete até chegar à cama com medo que o monstro me puxasse com uma mão. Saudade imensa de voltar ao esconderijo quando era a última a ser descoberta pelos amigos na rua. Subir à nespereira e ouvir ralhar da janela do vizinho.

 

As perguntas, as palavras levadas à letra. A curiosidade pelo mundo e os outros. A admiração pela mãe que consegue fazer tudo ao mesmo tempo e lhe dá segurança. A experimentação que faz parte do crescimento e da aprendizagem.

 

Este livro foi editado pela Tinta da China este ano e tem recebido rasgados elogios por parte das críticas. Um dos maiores cronistas brasileiros com mais um livro editado em Portugal intitulado "Meio Intelectual Meio de Esquerda". Sem dúvida um autor que pretendo acompanhar.

 

 

 

 (li em ebook)

 

O BIBLIOTECÁRIO DE PARIS | MARK PYROR

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Hugo, chefe de segurança da embaixada norte americana, encontra o diretor da Biblioteca Americana morto numa sala fechada. Desconfiado em relação à morte por causas naturais acaba por começar numa investigação. Vários acontecimentos desenrolam-se após a primeira morte de forma lenta, mas interessante. Apesar de não simpatizar com o protagonista devido à apática forma de levar o relacionamento com a Cláudia, acabei por ficar interessada em seguir as suas intuições e conhecer o desenlace da história. Acabei por ficar curiosa em relação ao desfecho e intrigada com tudo o que estava a acontecer. 

 

Fiquei ligeiramente desiludida com o facto de a história não abordar o tema da segunda guerra. Sinto-me enganada em relação à capa, sabem? No entanto, Paris está bem representada, adorei voltar à cidade através do livro.

 

É um livro com uma narrativa fluida, simples e uma investigação que raramente me surpreendeu.  No entanto, para intercalar entre leituras fortes e pesadas foi a melhor experiência possível. É um livro que recomendo se queres um livro sem grandes artifícios, com mistério e mortes à mistura. 

O LIVRO DE EMMA REYES | EMMA REYES

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Emma Reyes é o exemplo de alguém que não mostra rancor perante a sua vida cruel e miserável. Num tom cru, sem amargura, revela através de cartas para o amigo historiador Germán Arciniegas detalhes sobre a sua infância de emocionar qualquer um. Precisei de tempo para digerir tudo, respirar fundo. Senti revolta por ela, sendo tudo tão triste acabei por absorver essa carga durante a leitura. Vidas tão difíceis. Vidas tão miseráveis.

 

Num quarto com a sua irmã e o Menino, todos os dias de manhã precisa de despejar o penico. Cheio de fezes, carrega entre salpicos e agonia até ao depósito. Num lugar despido de móveis, luxos ou comida. A colombiana tem um olhar muito vincado sobre a sua história de menina pobre e ingénua. Sem amor, conforto, roupa e comida, passa pela miséria como quem vê a sua aldeia arder,  mas pensa ser o fogo de artificio mais bonito. O momento mais triste deste livro é tão intenso que ainda escuto os gritos de abandono. Emma pegou na tristeza e transformou em força.

 

Os adultos são sombras altas e pesadas. Indecifráveis. Mais tarde, num convento de freiras conhece o trabalho e os maus tratos. O lugar de amor está cheio de leis cruéis da fé.  Uma menina sem pais não pode ser recebida por Cristo, muito menos sonhar com um vestido branco ou ser freira. Neste convento é onde aprende a ler e a escrever e recebe pequenos gestos de carinho por parte de uma freira. Fui obrigada a questionar os valores da igreja católica perante duas meninas abandonadas. O relato é duro e sufocante. Ser espectadora destas injustiças é um tremendo desafio.

 

No final coloca-se a veracidade desta história após várias pesquisas e entrevistas. Ninguém sabe a verdade sobre a sua origem. Se por um lado temos a minuciosidade dos detalhes, por outro existem poucas provas. Eu acredito. Emma Reyes sempre fugiu da pergunta: quem era o teu pai? Já famosa e casada, sempre que recebia as visitas da irmã pedia para não ser incomodada e só voltava a dar noticias mais tarde. Ela conviveu com artistas conhecidos e teve uma vida muito diferente depois de ter fugido do convento. Verdadeira história de resiliência.

 

Recomendo muito. Este livro foi uma espécie de comboio desenfreado contra mim.

COM O MAR POR MEIO | JOSÉ SARAMAGO E JORGE AMADO

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Quanto vale uma amizade distanciada por um oceano? A amizade entre estes dois grandes nomes sonantes da literatura, José Saramago e Jorge Amado, tem uma enorme dose de admiração e apreço. Podemos confirmar através das cartas trocadas entre eles durante o período de 1992-1998. É uma amizade composta de confidências e sinceridade. É notório o carinho entre eles e a comum paixão pela escrita. Para além de um sentido de humor bastante refinado e audaz. 

Estava ansiosa para ler este livro recentemente lançado pela Companhia das Letras. Sou uma leitora apaixonada pela obra dos dois. Jorge Amado veio primeiro, na adolescência, li vários títulos. José Saramago veio mais tarde, numa fase transformadora. Ambos marcaram o meu percurso literário e são fortes influências na minha vida. Não consegui evitar as lágrimas durante a leitura. 

 

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A edição de primorosa e muito bonita. Contém fotografia, cartas digitalizadas e devidas referências. A letra do texto está azul em homenagem à cor do mar e à tinta da caneta usada nas cartas. A organização ficou a cargo da filha de Jorge Amado, Paloma Jorge Amado, Bete Capinan e Ricardo Viel. O livro foi lançado na Flip de 2017 na Flip após a extraordinária ideia de Pilar del Río de criarem a Casa Amado-Saramago. Finalmente chegou a Portugal e já podemos ler as palavras trocadas entre os dois. Que privilégio! 

 

"Já se sabe que todos os dias são bons para desejar felicidades aos amigos, mas nesta época, no limiar de um novo ano apetece rodeá-los de todos os votos benéficos e de todos os abraços carinhosos."

 

Entre alegrias e tristezas, entre conquistas e derrotas acabamos por invadir a privacidade da correspondência dos dois e transformar a experiência numa aprendizagem profunda. Não há distância possível entre uma amizade verdadeira e baseada no respeito. No final, ficou uma saudade apertada. 

 

Acabei por ler várias vezes alguns trechos e levo comigo palavras que jamais esquecerei. Recomendo muito.

A MINHA AGENDA BULLET

 

 

 

Querem conhecer a nova agenda bullet? Sempre quiseste começar um bullet journal mas não sabes como funciona? Não tens muito jeito para decorar ou fazer uma letra bonita? Esta agenda é para ti! Desde que uso o bullet journal não quero outra coisa para organizar-me. Quando vi esta agenda pensei logo que tinha de mostrar às meninas que me estão sempre a perguntar como faço para organizar-me e como é o meu bullet jornal. Acho que é uma excelente opção para quem não tem muito tempo e quer experimentar um formato mais versátil. Vê este vídeo, esta agenda é para ti! A minha agenda bullet será a minha nova agenda e não podia estar mais entusiasmada para partilhar convosco como ela é por dentro. Se quiserem mais vídeos deste género não deixem de comentar.

 

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TBR DEZEMBRO | ACABAR 2017 EM GRANDE

 

 

Neste vídeo mostro o que pretendo ler em dezembro. Escolhi oito livro. Todos parecem ser livros com temáticas interessantes, fortes e de leitura fluida. Exceto o livro do Eça de Queirós que já tentei ler duas vezes e não estou a conseguir ficar presa à história. Vou deixar este livro mais para o final do mês. E vocês? Já leram ou querem algum dos livros citados?

 

Livros Mencionados

“Com o Mar Por Dentro”, José Saramago e Jorge Amado

“A Ilustre Casa de Ramires”, Eça de Queirós

“A Avó e a Neve Russa”, João Reis

“A Estrada Subterrânea”, Colson Whitehead

“Uma Vida Alemã”, Brunhil Pomsel

“A Educação de Eleanor”, Gail HoneyMan

“O Bibliotecário de Paris”, Mark Pyor

“O Livro de Emma Reyes”, Emma Reyes

JALAN JALAN - UMA LEITURA DO MUNDO | AFONSO CRUZ

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Afonso Cruz é um autor português muito querido. Sempre fiel ao seu estilo poético e melancólico, os seus livros agradam os leitores mais pequenos e graúdos. Deixam normalmente uma marca e depositam alguma esperança no coração de quem o lê. Nunca irei deixar de o ler, nem procurar nas entrelinhas o encanto da vida. 

 

Este calhamaço mais recente editado pela Companhia das Letras reúne vários textos sem uma linha condutora. Temos a visão bastante pessoal do narrador que nos faz uma visita guiada pelos mais diversos temas. Filosofia, literatura, geografia, arte, ciência são assuntos abordados incluindo fotografias da sua autoria."Jalan Jalan" significa passear em indonésio, a leitura do mundo pode ser um passeio interminável pelas emoções e diferentes perspectivas sobre o mesmo assunto. É exactamente esse o encanto deste livro, as várias posições em relação a um determinado momento ou conceito e uma mistura de significados. As culturas existentes no Mundo contêm uma grandeza ilimitada que nem as 600 páginas que Afonso Cruz escreveu são suficientes para fazer essa leitura.  No entanto, ele consegue tocar nos temas mais sensíveis enquanto enobrece sem julgamento as escolhas dos outros. Tem uma visão tão peculiar e humildade que só podemos aprender com ele. 

 

Agostinho é citado diversas vezes, assim como outros grandes escritores e filósofos.

 

"Não faças demasiados planos para a vida, porque podes estragar os planos que a vida tem para ti."

 

Afonso Cruz conta peripécias da sua vida ligadas à literatura e às suas viagens. Algumas para reflectir como é o caso da grande coincidência em relação às personagens do livro "Para Onde Vão os Guarda-Chuvas". Essa passagem fez-me pensar nas coincidências constrangedoras e que mais vale assumir uma mentira do que passar por mentiroso. Fez-me entender que as ideias nascem em todos e que é complicado descobrir de onde vieram, se são plagiadas ou uma inspiração. Sim, as coincidências existem. 

 

"O Mundo é um livro, e aqueles que não viajam lêem apenas a primeira página. Um pequeno passo é já uma página em frente. Um passo para lá do hotel é já um pedaço de viagem".

 

Para além dos textos relacionados com a literatura, os meus episódios preferidos são sobre a morte. A importância da sua existência assim como a forma como a morte é vista um pouco por todo o lado. Os parágrafos curtos e assertivos que aparecem por vezes dão densidade à experiência de leitura. Só senti falta de algumas notas explicativas em relação às inúmeras referências que me passaram completamente ao lado. 

 

É um livro que precisa de paragens, um café, e quiçá uma fatia de bolo pelo meio. Uma leitura do mundo perfeita para os viajantes do mundo com um coração bondoso. Um livro para leitores do mundo (mesmo que as suas viagens sejam através dos outros). 

 

“Muitas das minhas viagens começaram pelos livros. Foram caminhos que saíram das folhas e se prolongaram para lá das estantes, das paredes da biblioteca."

 

O livro será apresentado pelo Pedro Mota e Pedro Veira no dia 6 de Dezembro na Livraria Férin em Lisboa pelas 21 horas.